André Macedo

Uma bela paella

O turismo em Portugal enfrenta uma crise de identidade que já começou a penalizar as receitas e que ameaça derrubar o resto da economia. É este o estado da nação.

A crise é altamente contagiosa, espalha-se como a peste, daí o cuidado com que os empresários e gestores ligados ao turismo falam dela, apesar de estarmos a 15 dias do início de agosto e as taxas de ocupação dos hotéis, com honrosas exceções, apontarem para um verão pouco entusiasmante. O JE consultou os sites de reservas e descobriu um cenário muito diferente do que aconteceu há um ano na primeira quinzena do mês. Há muita oferta e muitas promoções, com descontos que chegam aos 30% para uma semana de férias na primeira quinzena de agosto. É verdade que os preços subiram, o que ajuda a preencher o buraco deixado pelas camas vazias, mas a capacidade instalada, que continua a crescer mesmo em zonas já entupidas, expõe um problema cada vez mais estrutural: há muita gente a perder dinheiro.

Na restauração o problema já não é sequer disfarçável. Fecharam nove mil restaurantes desde janeiro e abriram apenas outros seis mil – sinal inequívoco de que o aumento de custos (energia, alimentos, salários e rendas) está a arruinar o setor. Se num hotel a margem por quarto até pode chegar aos 80%, num restaurante não chega aos 20%, o que significa que há pouco espaço para aguentar a quebra de receitas. O país até recebeu mais turistas, mas basta andar pelos jardins mais centrais de Lisboa para ver que os piqueniques (a marmita dos turistas) ganharam metros quadrados, alimentados pelo pronto-a-comer dos hipermercados. Neste contexto difícil, o habitual é exigir-se a ajuda financeira do Estado, mas já deveríamos ter percebido que o ajustamento entre oferta e procura tem de acontecer livremente. Não faz sentido subsidiar negócios falidos, até porque esse custo transforma-se sempre em mais impostos para todos – e esse é o maior drama nacional.

É por isso ainda mais chocante ver a inutilidade do Turismo de Portugal. A sua inexistência é tão antiga como ofensiva. Não antecipa nada, quase só gasta dinheiro em campanhas e promoções nem sempre ajuizadas. Como é possível que um setor que vale 21% do PIB (números do World Travel & Tourism Council) possa ser gerido tão mediocremente? Os restaurantes de paella no centro de Lisboa multiplicam-se e transformam a paisagem numa lamentável banalidade. A oferta cultural continua medíocre e o que sobra são os tuk-tuk que entopem as zonas mais batidas das cidades. Mudar este processo de degradação é difícil, exige pensamento e leva tempo a inverter, mas não é possível esperar mais. O turismo em Portugal enfrenta uma crise de identidade que já começou a penalizar as receitas e que ameaça derrubar o resto da economia. É este o estado da nação.

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