Fernando Pacheco, Economista

Três meses

A economia americana continua dopada em défice orçamental insustentável. Se se soltam os travões muito cedo, ela pode ressuscitar, talvez não ao terceiro dia, mas ao terceiro mês.

A um mês do fim do ano, é tempo do looking forward. As coisas mudam depressa: o Covid está contido, o receio de saída do quantitative easing em recessão está temperado, a bolha imobiliária chinesa não rebentou, o preço do petróleo não subiu à estratosfera. Parece que toda a Gália está dominada. Mas não.

Três preocupações principais estão pela frente. A primeira, as eleições americanas daqui a um ano. Se Trump ganha vai ser a subida do protecionismo, atentados ao ambiente, a NATO a tratar de jardins e a Rússia de mãos livres na Europa. Junte-se uma cruzada de vingança pessoal e só falta auto-indultar-se. Só mesmo Liz Truss deseja o seu regresso, no “Wall Street Journal”.

Infelizmente, Trump está mais perto da casa Branca depois de R. F. Kennedy Jr. ter anunciado a 9 de outubro ser candidato independente. Normalmente os independentes são ruído, mas numa sondagem de Harvard ele tem 57% de opiniões favoráveis e 27% desfavoráveis, enquanto Trump regista 51-44 e Biden 46-49. Numa sondagem a três no início do mês Biden ganha com 39%, Trump tem 36%, mas Kennedy alcança 22%, melhor que os 19% de Perot em 1992. Se não desiste, pode desviar votos de Biden para Trump.

Outra é a situação sociopolítica. O populismo está em alta, num mundo em que não se dá respostas aos cidadãos. Depois de Meloni na Itália e Wilders nos Países Baixos, é Milei na Argentina, país onde a inflação ultrapassa 140%, com promessas de “dolarizar” a economia e fechar o banco central, tratar a administração pública a motosserra e privatizar. A probabilidade de sucesso é baixa – se o bloco conservador tem 132 deputados dos 257 do Congresso, do partido de Milei são só 35, mas a confusão vai ser muita. Isto enquanto Farage anda na selva (literalmente) a preparar o regresso.

Um tema crítico vai ser a imigração: ainda no Reino Unido, atingiu 606 mil em 2022 e prevê-se 700 mil em 2023. A Migration Watch UK estima que a este ritmo a população passa de 68 milhões a 87 milhões em 2046, 15 novas Birmingham. Veremos como se traduz em tensões sociais.

Finalmente, a inflação está em queda: 3,2% nos EUA, 2,9% na Eurolândia e 4,7% no Reino Unido. Mas não está vencida. Grande parte da queda não está no controlo das autoridades: v. g. o preço das commodities caiu 30% em ano e meio. Bailey dizia em Westminster que os salários aumentam a 7,9%. A economia americana continua dopada em défice orçamental insustentável. Se se soltam os travões muito cedo, ela pode ressuscitar, talvez não ao terceiro dia, mas ao terceiro mês.

Relacionado

Onda de protestos manteve quase toda a Europa em alerta

Onda de protestos manteve quase toda a Europa em alerta

Com alguns países a registarem confrontos entre manifestantes e autoridades policiais – Portugal foi um deles, com a curiosidade das multas passadas aos condutores que, buzinando, assumiam apoio aos protestos – os protestos mantiveram-se ativos. E onde não os houve, a pausa escondia a preparação de mais protestos em novembro.