Bolsas de Wall Street e da Europa, petróleo e yields sob tensão geopolítica e à espera das ‘midterms’

Esta segunda-feira de 2 de novembro perfila-se como uma sessão de posicionamento cauteloso, em que os investidores preferem não antecipar grandes movimentos até terem maior clareza sobre os dados macroeconómicos, os resultados empresariais e, sobretudo, o desenrolar do processo eleitoral nos Estados Unidos.

Bolsas de Wall Street e da Europa, petróleo e yields sob tensão geopolítica e à espera das ‘midterms’
Reuters

Os mercados entram na semana de 2 de novembro sob um manto de cautela, com a atenção dividida entre a véspera das eleições intercalares norte-americanas, a persistente tensão geopolítica no Médio Oriente e um calendário macroeconómico que começa já na segunda-feira com o ISM Manufacturing, um dos indicadores económicos mensais mais importantes dos Estados Unidos, usado para avaliar a saúde e o desempenho do setor transformador e industrial americano.

As midterms norte-americanas, a realizar-se na terça-feira, introduzem uma camada adicional de incerteza política, com potenciais implicações para a política comercial, a regulação tecnológica e a trajetória da despesa pública.

Em Wall Street, os principais índices fecharam a semana anterior sob pressão, especialmente no setor tecnológico, onde as preocupações com o ritmo e a rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial voltaram a pesar. O S&P 500 fechou a cair 1,82% para 7.580,07 pontos, o Dow Jones a recuar 1,09% para 51.770,31 pontos e o Nasdaq Composite a retroceder 2,86% para 25.437,00 pontos. O Nasdaq 100, que agrega as 100 maiores empresas não financeiras cotadas no Nasdaq, caiu mais de 3%. A Intel caiu mais de 28% e registou a maior queda diária em mais de quatro décadas, depois de as suas previsões terem ficado aquém das estimativas.

A segunda-feira deverá ser marcada por uma sessão de consolidação, com os investidores a digerem os resultados da Apple e da Palantir, previstos para depois do fecho, ao mesmo tempo que monitorizam o índice ISM de outubro, esperado em torno dos 54,7 pontos. Qualquer surpresa em baixa no componente de preços pagos poderá aliviar momentaneamente as expectativas de uma nova subida de taxas pela Reserva Federal em dezembro, enquanto um número mais forte reforçaria o tom hawkish que tem dominado o discurso recente.

O rendimento das Treasuries a 10 anos continua a oscilar em níveis elevados, tendo tocado recentemente máximos de vários anos acima dos 5%. A combinação entre uma inflação ainda pressionada pelos preços da energia e a incerteza fiscal alimentada pela proximidade das midterms mantém os investidores em alerta.

Os analistas consideram que uma sessão de segunda-feira sem grandes abalos no ISM poderá permitir alguma estabilização dos yields, mas o risco de volatilidade aumenta à medida que se aproxima a terça-feira eleitoral. O mercado de obrigações observa com particular atenção a possibilidade de um Congresso dividido, cenário que muitos analistas consideram o mais provável e que poderia limitar a margem de manobra para novas expansões orçamentais.

O elefante na sala continua a ser o petróleo, que é onde o prémio de risco geopolítico continua bem presente. O Brent tem oscilado em território elevado, acima dos 110 dólares, sustentado por ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz e por tensões envolvendo o Irão, a Arábia Saudita e milícias Houthi.

Qualquer escalada adicional no Médio Oriente tem potencial para impulsionar os preços de forma abrupta, alimentando o receio de um novo choque inflacionista. Pelo contrário, sinais de contenção diplomática poderiam aliviar a pressão e permitir alguma correção. Esta dinâmica mantém o crude como uma das variáveis mais sensíveis da semana.

As mensagens trocadas não são tranquilizadoras. O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou este sábado que os Estados Unidos ainda tinham de “tratar” de um ou dois alvos no Irão, nomeadamente a Montanha Kolang, suspeita de albergar um complexo nuclear.

Já o Irão alertou este domingo os Estados Unidos de que um eventual retomar das hostilidades poderia ser duradouro, logo após novas ameaças feitas pelo presidente norte-americano, Donald Trump. “Uma nova guerra poderá ser mais longa do que a anterior, e o Presidente norte-americano não teria condições para ditar nem o momento nem as condições” para o fim das hostilidades, declarou o porta-voz do exército, Mohammad Akraminia, citado pela televisão estatal.

Entretanto as reservas de 100 milhões de barris de petróleo prometidas pelo G7 começam a chegar ao mercado. O grupo dos sete países mais industrializados, atualmente presidido pela França, anunciou, no início de outubro, que iria colocar no mercado 100 milhões de barris, sob pressão do Presidente norte-americano, Donald Trump. Os 100 milhões de barris de petróleo e gasóleo das reservas estratégicas que os países do G7 se comprometeram a colocar no mercado ao longo de quatro meses começaram hoje a ser disponibilizados.

A chegada do petróleo e gasóleo ao mercado vem acompanhada de volumes adicionais prometidos por outros países europeus, entre eles Portugal, com o objetivo de conferir maior fluidez e estabilidade ao mercado.

Europa ao som de Wall Street, com contestações nas ruas a subir de tom

Na Europa, os índices deverão abrir a segunda-feira a reagir ao sentimento vindo dos futuros americanos e à evolução do petróleo.

Os futuros das ações europeias apontam para uma abertura positiva, com o Euro Stoxx50 a subir 0,2% e o DAX a subir 0,1%.

A perspetiva de manutenção de preços elevados da energia continua a complicar o cenário para o Banco Central Europeu, que já mostrou uma postura mais cautelosa nas últimas decisões.

Os dados de inflação da zona euro, previstos para meados da semana, serão o próximo teste, mas o tom de segunda-feira dependerá sobretudo do comportamento das bolsas norte-americanas e da ausência de novos desenvolvimentos geopolíticos negativos.

Setores como o energético e o bancário deverão concentrar a atenção dos investidores, enquanto a tecnologia europeia acompanha a volatilidade dos pares americanos.

Entretanto intensificam-se as contestações nas ruas. Na Alemanha, o que começou por ser uma manifestação pacífica de protestos estudantis e juvenis, no Halloween, degenerou em violência e pilhagens. A iniciativa “Poder à Geração Z” exige mais investimento na educação, custos de vida comportáveis e uma proteção climática consequente. Através de protestos em todo o país, luta por mais participação dos jovens nas decisões e opõe-se ao serviço militar obrigatório. Em Frankfurt, Colónia, Hamburgo e Berlim a situação agravou-se. Várias montras foram destruídas, houve pilhagens, danos materiais e cenas de violência. Barricadas arderam, arruaceiros invadiram uma loja de armas e a polícia recorreu várias vezes a canhões de água.

Uma vaga massiva de protestos e manifestações contra o custo de vida, habitação e precariedade está a mobilizar várias cidades europeias neste fim de semana.

Na Europa, o cenário geopolítico permanece o grande pano de fundo. Além do Médio Oriente, a atenção dos mercados mantém-se ligeiramente dispersa por outras frentes de tensão, mas é o risco de disrupção no fornecimento de energia que mais pesa nas cotações.

Os ataques ucranianos com drones às refinarias russas voltaram a intensificar-se no final de outubro e no início de novembro, com impactos significativos em instalações como a de Kstovo, na região de Nizhny Novgorod — onde a refinaria da Lukoil, uma das maiores do país, sofreu danos relevantes — e em complexos da Rosneft e Bashneft.

Depois de uma breve pausa alegadamente ligada a pressões de Washington para evitar pressões adicionais nos preços dos combustíveis antes das midterms americanas, Kyiv retomou a ofensiva energética, visando reduzir a capacidade de refinação russa e dificultar o abastecimento de combustíveis às forças de Moscovo. Isto mesmo em cima das midterms americanas, o que acrescenta uma mensagem política de Zelensky à administração Trump. Sendo que, Marco Rubio, já veio dizer que a política externa continua a ser do Presidente independente do resultado das eleições de meio de mandato. Num claro recado a Zelensky e ao Irão.

Em resposta aos ataques às refinarias, a Rússia intensificou os ataques à rede elétrica ucraniana, deixando centenas de milhares de pessoas sem energia.

No plano diplomático, as partes preparam conversações trilaterais técnicas com mediadores americanos em Abu Dhabi, previstas para a primeira quinzena de novembro, após as midterms. Embora tanto Zelensky como o Kremlin tenham sinalizado disponibilidade, as expectativas permanecem baixas: Moscovo insiste em garantias de segurança alargadas e em questões territoriais, enquanto Kyiv exige garantias robustas e financiamento de longo prazo para as suas forças armadas, mantendo o conflito longe de um cessar-fogo iminente.

No G20, os ministros dos Negócios Estrangeiros concluíram este fim de semana em Atlanta uma reunião sem comunicado conjunto, marcada por divisões profundas em torno da guerra na Ucrânia e de outras questões de segurança global. O encontro preparou o terreno para a cimeira de líderes em Miami, em dezembro, sob a presidência americana, onde se espera que os debates sobre energia, cadeias de abastecimento e estabilidade geopolítica continuem a dominar a agenda.

O presidente russo, Vladimir Putin, foi convidado para a cimeira de dezembro, mas ainda não confirmou a sua presença. O Kremlin condicionou a eventual presença de Putin aos resultados da cimeira do fórum Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC), que decorre em novembro na China. Mas Rubio considera pouco provável que Putin aceite o convite, a não ser que haja um acordo de paz até lá.

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