Percebemos que a inflação é um assunto importante quando a imprensa publica entusiasmados artigos sobre a queda do preço da manteiga alemã. Para se ficar a conhecer a evolução do pensamento de muitos progressistas norte-americanos sobre a inflação dos últimos dois anos, aconselho a reler as crónicas de Paul Krugman (prémio Nobel da economia, economista keynesiano, líder espiritual do centro-esquerda nos Estados Unidos) no “The New York Times”.
Em 2021, Krugman defendia que o crescimento da inflação: 1) era transitório; 2) não havia sido provocado pela política fiscal da administração Biden. Parece ter-se enganado. E, sobre o primeiro ponto, clamorosamente: “E quando finalmente deixarmos a pandemia para trás, a inflação de 2021 tornar-se-á numa memória”.
A 16 de abril de 2021, Krugman escrevia que o crescimento da inflação subjacente não traduzia mudanças nas expectativas sobre a inflação futura (o que, caso se verificasse, poderia levar a longos períodos de inflação elevada, como nos anos setenta e oitenta). Era, antes, uma consequência da pandemia, um desvio temporário que podia ser comparado às ocasionais flutuações do preço da energia.
Mais de um ano depois, a 21 de julho de 2022, reconsidera: “Estava errado sobre a [transitoriedade da] inflação”. Era difícil continuar a crer numa inflação temporária quando os valores do IPC continuavam a aumentar como não acontecera nos trinta anos anteriores – os “desvios” provocados pela pandemia não se revelaram tão passageiros quanto Krugman havia previsto. No entanto, insiste: “Mas os pessimistas estavam certos pelas razões erradas: a inflação não é um resultado dos estímulos fiscais”.
Nem todos os economistas concordaram com esta última conclusão de Krugman. A 21 de abril de 2023, Miguel Faria-e-Castro, economista na Reserva Federal de Saint Louis, afirmava: “Alguns dados demonstram que as coisas [a política fiscal e monetária] foram um pouco longe demais”.
A recente publicação de um artigo por Olivier Blanchard (antigo economista chefe do FMI) e Ben Bernanke (ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos) levou Krugman a assumir que estava também errado em relação à importância dos estímulos fiscais da administração Biden no aumento da inflação. Fá-lo, no entanto, de modo requintadíssimo: afinal, os “pessimistas da inflação” (leia-se, os seus críticos) estavam certos, mas pelas razões erradas. Havia quem tivesse garantido que os estímulos fiscais de Biden acabariam por aumentar o ritmo de crescimento dos preços através de um sobreaquecimento do mercado de trabalho.
Blanchard e Bernanke mostraram que um mercado de trabalho sobreaquecido tem um papel menor na explicação do aumento da inflação. Em vez disso, os estímulos fiscais levaram a um aumento da procura agregada, o que, num contexto em que a oferta não se podia ajustar, levou a um aumento do ritmo de crescimento dos preços.
A evolução da opinião de Krugman é mais do que compreensível: alinhando pelo lado keynesiano, é difícil não ficar entusiasmado com os estímulos fiscais do século. Admitir que esses estímulos poderão levar a um aumento importante e prolongado da inflação era estragar a festa. De resto, as conclusões que apresentei significam que Biden e a sua administração erraram na política fiscal?
Talvez os estímulos fiscais devessem ter sido mais bem direcionados, mas não nos devemos esquecer de que: 1) durante a pandemia, a deflação era verosímil; 2) talvez seja sensato não tomar em consideração apenas a “ciência” económica – a realidade social também importa.
A inflação dos últimos dois anos foi um dos temas debatidos no Economia Viva, o maior ciclo de discussões económicas organizado por jovens economistas, em Portugal. A oitava edição ocorreu no dia 21 de abril, na Nova SBE. Para o quarto painel, contou com a participação de Miguel Faria-e-Castro, Sandra Gomes e Sarah Holton, com moderação de Pedro Brinca. A discussão poderá ser revista, em breve, nos canais oficiais do Nova Economics Club.
Este é o terceiro de seis artigos elaborados para o Jornal Económico na sequência das seis sessões da 8ª edição do Economia Viva.