Filipe Alves

O PS entre o divã do psicanalista e o banco dos réus

A verdade é que, para muito boa gente no PS (e no PSD), interceder junto de um ministro para “desbloquear” projetos é perfeitamente legítimo, mesmo que esteja em causa um favorecimento indevido.

O terramoto político que abala o país desde terça-feira deveria servir de catalisador para uma reflexão interna no seio do PS. Todos têm direito à presunção de inocência, mas algo de muito errado se passa quando, em década e meia, dois primeiros-ministros do PS tornam-se suspeitos em casos de corrupção e outra dezena e tal de atuais e ex-membros dos governos liderados por António Costa se veem envolvidos em tais processos.

Obviamente que isto também diz muito sobre o país. Com um eleitorado mais instruído e menos tolerante não seria apenas o Governo a cair, mas sim o próprio PS a ruir e a ir pelo caminho de alguns dos seus pares europeus, que desapareceram na sequência de escândalos de corrupção, como o Partido Socialista italiano.

Nesses países, o eleitorado não precisou de esperar pelas decisões da Justiça para responsabilizar de imediato os partidos que não foram capazes de escolher líderes e governantes acima de qualquer suspeita. E isto apesar de, tal como em Portugal, também nesses países a atuação da Justiça nem sempre ter sido isenta de falhas, por vezes graves.

Mas o que mais incomoda é a ausência de qualquer inquietação por parte daqueles que deveriam ser os primeiros a questionar este estado de coisas, a começar por alguns “senadores” do PS que têm lançado farpas à Justiça. Agem como se nada fosse o facto de termos um primeiro-ministro suspeito e um ministro arguido, para não falar de outros casos que envolvem membros do Governo, desde as golas antifumo aos negócios da Defesa.

Tal ausência de inquietação não se explica apenas pelo apego ao poder (centenas de pessoas do ‘aparelho’ do PS ficaram esta semana com as vidas de pernas para o ar), ou a uma espécie de relativismo, mas também à forma como encaram a relação entre política e negócios. Não por acaso, e táticas jurídicas à parte, o advogado de Lacerda Machado defendeu a atuação do seu cliente como lobista, acusando a Justiça de tentar criminalizar “um processo político e administrativo”.

A verdade é que, para muito boa gente no PS (e no PSD), interceder junto de um ministro para “desbloquear” projetos é perfeitamente legítimo, mesmo que esteja em causa um favorecimento indevido. Vivemos num país onde alguns ministros alegadamente “desbloqueiam” processos em benefício de certas empresas bem relacionadas, mesmo em situações em que não o deveriam fazer, em vez de procurarem simplificar os procedimentos para todos, de modo a que possamos ter um ambiente de negócios mais transparente e concorrencial.

Esta forma de agir, que faz lembrar os “PIN” de outrora, nasce de uma relação pouco saudável entre a política e os negócios, que alguns justificam em nome de uma alegada defesa do interesse nacional e que conta com o PS como principal obreiro, embora não o único. E o que será melhor para o país? Que certos projetos avancem mais depressa ou que haja igualdade de oportunidades?

Olhar de forma séria para este problema obriga a que o PS repense a sua visão do papel do Estado nos negócios. E que se repense a si mesmo. O PS não o quer fazer, mas arrisca-se a ter de escolher entre o divã do psicanalista e o banco dos réus, com consequências dramáticas para a democracia que ajudou a fundar.

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