Paulo Monteiro Rosa, Economista sénior do Banco Carregosa

O dólar mantém o estatuto de refúgio

O dólar voltou a evidenciar o seu estatuto de principal moeda mundial, beneficiando da procura internacional de liquidez.

O regresso de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, marcou o início de um período de depreciação do dólar, perante a incerteza sobre a economia norte-americana ditada sobretudo pelas tarifas comerciais e estratégia de reindustrialização. Na tomada de posse de Trump, o euro cotava a 1,03 dólares e, em julho, já estava perto dos 1,20 dólares. Um dólar mais fraco favorece a competitividade via preço e encarece as importações, reduzindo o défice comercial e recuperando a capacidade industrial dos EUA. Também os receios de desaceleração económica alimentaram as expectativas de descidas dos juros pela Fed, pressionando também o dólar.

Em sentido contrário, o ouro subiu de 2750 dólares por onça, em janeiro de 2025, para perto de 3500 dólares em julho, atingindo os 5500 dólares antes do início da guerra no Médio Oriente, em 28 de fevereiro de 2026. A fraqueza do dólar explica apenas parte desta valorização. A política errática de Trump aumentou a incerteza e reforçou a procura de ouro como refúgio, sobretudo pelos bancos centrais como o chinês, que procuraram diversificar as suas reservas e reduzir o risco de congelamento de ativos, como aconteceu à Rússia em 2022. As expectativas de descida das taxas de juro também favoreceram o ouro, que não gera qualquer rendimento.

Todavia, o início da guerra no Médio Oriente, em 28 de fevereiro deste ano, alterou este cenário. A incerteza de 2025 associada à política económica norte-americana passou a ser sobretudo geopolítica. O dólar voltou a evidenciar o seu estatuto de principal moeda mundial, beneficiando da procura internacional de liquidez. Em sentido contrário, o ouro foi penalizado pela subida das yields reais dos títulos de dívida norte-americanos.

O conflito no Médio Oriente ditou o regresso da crise energética à Europa, penalizada pela subida dos preços do petróleo e do gás natural e pelo bloqueio quase total do Estreito de Ormuz. A economia europeia continua muito dependente da importação de combustíveis fósseis, enquanto os EUA passaram a ser autossuficientes há alguns anos e são atualmente exportadores líquidos de energia.

Nos últimos dois meses, a depreciação do euro acentuou-se, passando de 1,16 para 1,11 dólares. A deterioração das finanças públicas francesas, com a dívida próxima de 120% do PIB e as yields a 10 anos perto de 5%, ditou parte da fragilidade do euro. Os receios de contágio a outros países da Zona Euro, à semelhança da crise das dívidas soberanas de 2010 a 2012, também têm pressionado a moeda única.

A aproximação do inverno acentua os riscos de agravamento da crise energética na Europa, com as reservas de gás natural e gasóleo abaixo da média dos últimos anos, aumentando os receios de novas subidas dos preços da energia e pressionando o euro.

Em 2025, a incerteza nos EUA penalizou o dólar. Agora, a guerra reforça-o como refúgio. A Europa enfrenta o risco de estagflação e cresce menos de metade dos EUA. Os juros reais mais elevados nos EUA e os ataques dos houthis nas últimas semanas têm reforçado a procura de dólares.

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