Luís Mira Amaral, Engenheiro e Economista

Crises energética e económica

A subida das taxas de juro não conseguirá debelar a causa da inflação, mas sinaliza uma atitude não acomodatícia por parte dos bancos centrais no que toca às expectativas de inflação geradas nos agentes económicos.

É evidente que esta crise desencadeada pelo conflito entre o Irão e a coligação EUA-Israel, e exacerbada pelo fecho do estreito de Ormuz, vai ter impactos económicos não despiciendos, que serão tanto maiores quanto mais o conflito se prolongar no tempo. O aumento dos preços da energia vai levar a uma reação em cadeia com aumentos nas cadeias logísticas e em todos os bens e serviços que utilizam a energia.

Teremos a chamada inflação do lado da oferta, uma inflação pelo aumento dos custos de produção, e que configura um choque negativo do lado da oferta sobre a economia, conduzindo à chamada estagflação, ou seja, inflação mais estagnação económica.

Esta inflação pelos custos conduzindo à estagflação é muito mais difícil de combater pelos bancos centrais do que a inflação pelo lado da procura, em que face a um excesso de procura sobre a oferta, o banco central sobe as taxas de juro para reduzir a procura agregada e assim controlar a inflação.

Neste caso, a subida das taxas de juro não consegue debelar a causa da inflação, o aumento dos custos de produção, mas sinaliza uma atitude não acomodatícia por parte dos bancos centrais no que toca às expectativas de inflação geradas nos agentes económicos.

Em todo o caso, este choque vai levar os bancos centrais a terminarem com um ciclo de descida das taxas de juro, associada a uma estabilização da inflação em valores à volta de 2%, como estava a acontecer nos EUA e na zona euro. Teremos então, previsivelmente, subidas das taxas de juro das dívidas públicas e nos mercados financeiros, tornando o financiamento à actividade económica mais caro.

Obviamente que os governos vão tentar mitigar os impactos da subida dos preços da energia no sector dos transportes e no cabaz de compras dos consumidores.

O Governo português já o está a fazer nos combustíveis, tendo começado, naturalmente, pela diminuição do ISP no gasóleo, medida que passou agora também a abranger a gasolina, indo depois ao gás de botija. Mais. Certamente que não deixará de ajudar as classes mais desfavorecidas no cabaz alimentar.

Em toda esta problemática sempre considerei que não se deviam ter medidas horizontais, atingindo todos os segmentos da população de igual forma, mas sim medidas selectivas e muito bem direccionadas aos segmentos da actividade económica e da população mais vulneráveis a este choque.

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