João Vargas, Especialista em Public Affairs

Geração 80

A Geração 80 passou a vida a correr atrás. Primeiro da educação. Depois da Europa. Depois da tecnologia. Depois da carreira. Agora, corre atrás de uma casa.

Os anos 80 estão na moda. A música, a roupa, o filtro do VHS, os sintetizadores. Nós, os que nascemos nessa década, também podíamos estar. O problema é que ainda não parámos de correr.

Fomos a geração do elevador social. Os nossos pais disseram-nos para estudar e, pela primeira vez, isso funcionou mesmo para muitos. Entrámos em massa no secundário e na universidade, fizemos Erasmus e mestrados, aprendemos inglês. Portugal deixou de competir consigo próprio e mandou-nos competir com alemães, franceses e holandeses.

Fomos também cobaias permanentes da mudança. Crescemos sem internet e trabalhámos sempre com ela. O primeiro email chegou-nos na adolescência, o primeiro telemóvel à entrada da vida adulta. Depois vieram as redes sociais, o smartphone e, agora, a inteligência artificial. Mudou a escola, mudou a universidade, mudou o mercado de trabalho. E nós mudámos com tudo.

Começámos a carreira ainda no velho mundo, aquele em que sair às dez da noite era prova de empenho e sair antes do chefe levantava suspeitas. Depois disseram-nos para sermos flexíveis, móveis, digitais, internacionais, produtivos. E fomos.

Quando começávamos a subir, chegou a crise financeira. Depois a dívida, a troika, os salários congelados e as carreiras em suspenso. Voltámos a correr. Muitos chegaram, precisamente porque a educação ainda conseguiu ser o tal elevador.

Só que, quando chegámos, o elevador já não ia até casa. Os preços da habitação dispararam e apanharam-nos na pior altura possível. Aos vinte anos, emigra-se por um salário. Aos quarenta, há filhos, escolas, empregos, pais a envelhecer e uma vida montada. Ninguém abandona um país só porque uma escritura se tornou impossível.

E há ainda a ironia final. O IRS Jovem e a garantia pública no crédito à habitação acabam nos 35 anos, por isso somos velhos demais para os apoios aos jovens. E, se finalmente ganhamos bem, somos ricos o suficiente para pagar impostos como quem já chegou. E eis o grand finale: segundo as projeções da Comissão Europeia, a pensão média em Portugal passará de cerca de 69% do salário para 38,5% por volta de 2050. Precisamente quando a nossa geração se começar a reformar.

A Geração 80 passou a vida a correr atrás. Primeiro da educação. Depois da Europa. Depois da tecnologia. Depois da carreira. Agora, corre atrás de uma casa.

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