Paulo Monteiro Rosa, Economista sénior do Banco Carregosa

França à beira de uma crise da dívida soberana?

A economia francesa cresce pouco. Em setembro, o governo gaulês reviu em baixa a previsão de crescimento para 2026, de 0,7% para 0,5%, enquanto o FMI estima um crescimento potencial de 1% no longo prazo.

O sucessivo aumento do prémio de risco de França, refletido nos rendimentos das obrigações do tesouro de quase 5% no prazo a 10 anos e no spread de 140 pontos base face às alemãs, evidencia a crescente preocupação dos investidores com a situação económica e a sustentabilidade das contas públicas francesas.

A economia francesa cresce pouco. Em setembro, o governo gaulês reviu em baixa a previsão de crescimento para 2026, de 0,7% para 0,5%, enquanto o FMI estima um crescimento potencial de 1% no longo prazo. Esta fraqueza económica acentua dois problemas. Por um lado, limita o crescimento das receitas fiscais, dificultando a redução do défice orçamental. Por outro, torna mais difícil estabilizar o rácio da dívida pública face ao PIB, sobretudo num contexto de taxas de juro cada vez mais elevadas e défices primários persistentes. O saldo primário exclui os custos com juros da dívida pública e é negativo quando as despesas do Estado, mesmo sem esses encargos com juros, superam as receitas.

Uma taxa de juro nominal francesa de 4,90%, dada pela yield da obrigação do tesouro a 10 anos, representa uma taxa de juro real de quase 2%, admitindo que a inflação se mantém nos 3% estimados para setembro pelo instituto de estatística francês, o INSEE. Uma inflação esperada a longo prazo idêntica ao objetivo de estabilidade de preços do BCE, 2%, dá uma taxa de juro real de quase 3%. Assim, um crescimento potencial real de apenas 1%, muito inferior à taxa real de quase 3%, representa um grave problema para a sustentabilidade das contas públicas francesas.

É certo que a yield a 10 anos é o custo de financiamento nessa maturidade e não o custo médio da dívida pública, mas a manutenção destas taxas de juro elevadas agrava gradualmente esse custo médio, à medida que o Estado emite nova dívida e refinancia a que chega à maturidade. E se os rendimentos soberanos franceses mantiverem a atual tendência de alta e os défices orçamentais persistirem, a dívida pública poder-se-á tornar insustentável.

Para se ter noção da fragilidade das contas públicas francesas, é fundamental perceber como evolui o rácio da dívida pública face ao PIB nominal. A variação desse rácio (Δ dívida/PIB) é aproximadamente dada pela diferença entre a taxa de juro real média da dívida e o crescimento real da economia, multiplicada pelo rácio dívida/PIB, subtraindo o saldo primário [(taxa real média − crescimento real) × dívida/PIB − saldo primário].

Para uma taxa real média de apenas 0,3% em 2026, mas com tendência de alta, baseada na meta de inflação do BCE, e um crescimento potencial de 1%, o diferencial é de −0,7 pontos percentuais e, aplicado ao rácio da dívida pública de 119% no 2º trimestre, representa uma descida anual de 0,83 pontos percentuais desse rácio, antes de considerar o saldo primário. Neste cenário, a França poderia ter um défice primário até 0,83% do PIB e ainda assim estabilizar a dívida pública, mas para 2026 é estimado um défice primário de quase 3% do PIB e orçamental de 5,4%.

Em suma, economia anémica e juros reais em alta pressionam o BCE, mas a inflação limita a ação.

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