André Macedo

Visão sombria

O que hoje sabemos, confirmado pelo acertado pedido de demissão da ministra da Administração Interna, é que o problema exige a mão (o pensamento, a ação) do primeiro-ministro, mas não para andar de cortejo em cortejo a dar o ombro às senhoras.

O caos que define a Proteção Civil ilustra também a balbúrdia do SNS. Carateriza-nos como um povo desorganizado, muitas vezes impreparado e sem meios, que trabalha horas a fio para compensar a inexistência de um plano com pés e cabeça e um mínimo de sentido de exigência. E depois, vindo dos inclementes céus, caem-nos os problemas em cima. É nesse preciso instante bíblico que lá surge um bando de andorinhas (serão pardais à solta?), vestidos de anoraque amarelo florescente. São políticos habilíssimos a dar o ombro e a prometer apoios que muitas vezes nunca chegam ou chegam muito mais magritos, acompanhados por formulários que exigem prova de vida ou de morte (só porque sim) a quem os demanda e ainda outro tipo de absurdos galáticos. Resignado, o modesto proprietário de uma moradia que ficou sem telhado fica a um passo de perder a cabeça – mas não a perde. Está há muito habituado aos desmandos da administração pública. Estamos todos vacinados.

Do dia para a noite, uma chuvada de milhões vindos de onde antes não pareceria haver, o Governo promete agora repor o país de pé, talvez até lhe faça ganhar uns centímetros. Se fôssemos nova-iorquinos, estamparíamos t-shirts alusivas: “Never Again”; mas não somos dessa cepa, não temos confiança. Não acreditamos que um país de capelas e capelinhas, pequenos e grandes xerifes de paróquia, saiba montar do zero uma Proteção Civil capaz de aproveitar e organizar a vasta experiência e saber de alguns técnicos que acabam soterrados no meio de nomeações político-partidárias, carreiras desfeitas por lutas territoriais miseráveis. A Proteção Civil é um inferno orçamental (que não dá votos) e de interesses económicos (um maná, muitos e muitos contratos), é uma impiedosa arena romana onde quem ganha nem sempre é o melhor.

O grande problema é que é realmente muito difícil montar e organizar uma entidade assim, eternamente sujeita à pressão máxima, onde tudo é urgente e tudo pode ser fatal. O TGV de tempestades que nos atropelou (e continua a atropelar) acabaria sempre por provocar prejuízos graves e inevitáveis. Mas o que hoje sabemos, confirmado pelo acertado pedido de demissão da ministra da Administração Interna, é que o problema exige a mão (o pensamento, a ação) do primeiro-ministro, mas não para andar de cortejo em cortejo a dar o ombro às senhoras. Caro Luís Montenegro: o seu primeiro teste à liderança não foi no Parlamento, o senhor joga póquer muito melhor do que os adversários – e ganha. O seu primeiro teste (esta calamidade) revelou falta de liderança, em especial no início. Aprenda a lição.

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