No passado dia 10 de junho, o governo dos EUA divulgou os tão aguardados números da inflação do mês de maio. Se por um lado, o forte aumento da inflação homóloga dá alento àqueles que apontam para uma forte e ruinosa inflação, por outro existem diversos argumentos que justificam e apontam para uma potencial inflação transitória. O índice de preços no consumidor (IPC) subiu 5,0% em maio face ao ano anterior, tendo sido o maior aumento desde 2008. Em parte, isto deveu-se ao efeito base de um número muito baixo há um ano, no auge da crise pandémica.
Além disso, o IPC subiu 0,6% entre abril e maio, abaixo do aumento de 0,8% no mês anterior. Apesar de tudo, dois pontos merecem destaque perante esta última divulgação de dados:
- A procura agregada da economia norte-americana é de facto forte e isso contribuiu para a sua rápida recuperação, pondo alguma pressão numa valorização dos preços;
- Grande parte da subida da inflação não está relacionada com os estímulos. Problemas temporários relativamente a cadeias de abastecimento são apontados como a principal razão. Uma vez que os mercados temiam uma elevada inflação (que foi o que aconteceu), este argumento suporta o facto de ter existido uma considerável capitalização bolsista na sequência da divulgação bem como uma diminuição do rendimento do mercado obrigacionista. Se os mercados estivessem de facto preocupados com os dados que saíram, teriam potencialmente caído ao contrário do que aconteceu.
A realidade é que o maior perigo não é a força da procura, mas o segundo ponto – o lado da oferta. Um exemplo que não passa despercebido – entre os vários que poderiam ser mencionados – e que justifica bem a elevada inflação, é o preço de automóveis usados. A escassez de semicondutores está a prejudicar a produção de automóveis novos, obrigando os consumidores a procurar carros usados. O custo do aluguer de um carro aumentou uns impressionantes 109,8% face ao ano anterior e 12,1% face ao último mês.
Também, os preços de carros usados cresceram 29,7% relativamente ao ano anterior e subiram 7,3% face ao mês anterior. Isto representa cerca de um terço da inflação. Acredita-se que com as economias a voltarem à sua normalidade, estes tipos de constrangimentos podem eventualmente desaparecer.
Os problemas da oferta também se estendem ao mercado laboral, onde a escassez de mão-de-obra está a levar a salários mais elevados e a um aumento acentuado dos custos de produção. No entanto, alguns fatores como o regresso de crianças à escola, o fim do aumento dos subsídios de desemprego e uma maior confiança de que o vírus já não será uma ameaça, podem contribuir para desbloquear a falta de oferta de trabalhadores, promovendo assim um aumento significativo da participação da força de trabalho. Caso isso aconteça, empresas poderão ganhar margem negocial para pagar salários mais baixos contribuindo então para conter a atual subida dos preços.
Se o oposto acontecer então é provável que uma espiral de aumento de salários surja, e consequentemente uma inflação mais persistente. Do ponto de vista da Reserva Federal, este seria o ponto em que provavelmente seria contemplada uma mudança significativa na sua política monetária. Ainda assim, o consenso é que as odds não apontam nesse sentido.
Em particular, é grande a lista de reconhecidos economistas que mencionam a atual inflação como temporária. Gita Gopinath (2021), economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), refere que “existe pouco risco de que as atuais despesas temporárias do governo causem uma espiral inflacionista. Esperamos, em vez disso, um aumento da inflação modesto e temporário.” É também conhecida a posição de Jerome Powell (2021), presidente da Reserva Federal norte-americana, que defende que este aumento da inflação “não será particularmente grande nem persistente”. Já Janet Yellen (2021), secretária do tesouro norte-americano, vai até mais longe indicando que diversos bancos centrais tiveram pouco sucesso ao tentar criar uma maior e mais modesta inflação ao longo da última década e que, por isso, a sua subida é muito bem-vinda.
Como interpretar a ação da Fed relativamente à antecipação da taxa de juro diretora em 2023?
Apesar de ter surpreendido diversos analistas, estranho seria se não existisse nenhum ajuste por parte da Reserva Federal. Com a postura dovish do banco central ao longo do último ano, dá a ideia de que caiu no esquecimento dos mercados o facto de o banco central norte-americano ter um mandato com dois objetivos – inflação e pleno emprego. Também parece que ninguém compreendia exatamente o que significava na prática a alteração de target de inflação, para uma inflação média de 2%.
Essencialmente, apesar das expectativas de inflação se terem mantido inalteradas em 2022 e 2023, as do ano de 2021 sofreram fortes ajustes subindo então a inflação média do vago horizonte utilizado (a Fed nunca mencionou qual a sua abordagem) para o cálculo desse valor. No fundo, a sua média sofreu uma alteração que é necessário que esteja contemplada.
Não existe qualquer tipo de incoerência com aquela que tem sido a mensagem principal do banco central de que esta inflação é maioritariamente temporária. Apesar de tudo apontar para uma diminuição da inflação ao longo deste ano, se o mesmo não acontecer, é possível voltar a observar antecipações de taxas. Apenas se os preços não caírem num horizonte de dois anos poder-se-á potencialmente dizer que a Fed esteve errada este tempo todo.

Frederico Aragão Morais
Senior Market Analyst na Qaestum Capital
Este conteúdo patrocinado foi produzido em colaboração com a Qaestum Capital.