“Tudo sobre a minha mãe”, do grande ecrã para o palco

Um homem escreveu, outro realizou e outro ainda encenou. Samuel Adamson, Pedro Almodóvar, Daniel Gorjão prestam homenagem ao amor, no seu pulsar no feminino. “Tudo Sobre a Minha Mãe” sobe aos palcos em janeiro, em Lisboa e Porto.

“Tudo sobre a minha mãe”, do grande ecrã para o palco
© Frederico Martins/Portuguese Soul

Manuela contorce-se de dor, incredulidade e impotência. O filho morre no dia em que iria festejar o seu 17º aniversário… E ela assiste a essa morte, ao carro que o trespassa e que seguiu em frente. Vê ininterruptamente essa imagem, vive-a como se fosse ela a vítima do atropelo.

O coração de mãe sangra e a sua dor alastra à plateia com ainda maior intensidade através das imagens projetadas em tempo real. A parede branca que serve de ecrã e pano de fundo ilustra a crua realidade, ao “vivo” e a cores. Presta-se aqui um tributo ao cinema, tendo presente que esta história foi uma homenagem ao teatro.

O encenador Daniel Gorjão leva ao palco, primeiro do São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, nos dias 11 e 12 de janeiro, e depois do Teatro Campo Alegre, no Porto, de 27 a 29, a “sua” versão do texto de Samuel Adamson, a partir do filme de Pedro Almodóvar “Tudo Sobre a Minha Mãe”.

Tal como no filme, a peça apresenta-nos Manuela, uma enfermeira, mãe solteira, que, após a morte do filho, decide largar tudo e procurar o pai do rapaz, personagem envolta em mistério desde a primeira cena. Ao fazê-lo, regressa, não só a Barcelona, como ao passado, a memórias, amizades e perguntas sem resposta que, durante anos, deixaram feridas abertas.

A tentativa de sarar as mágoas leva a enfermeira a uma série de encontros e reencontros com personagens que, tal como Manuela, vão vendo, ao longo da peça, as suas emoções mais viscerais, cruzando histórias, questionando e refletindo sobre as questões de género, o poder da feminilidade, a definição de amor incondicional e o significado da palavra família.

Em palco, as atrizes Maria João Luís, Sílvia Filipe, Catarina Wallenstein, Gaya de Medeiros e Teresa Tavares dão corpo e densidade a mulheres trans, cis, pobres, ricas, mães de família, freiras, artistas e prostitutas. A maternidade, o amor, o desejo, numa peça onde tudo se mistura sem propor terapias. A não ser a capacidade de bem-querer.

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