André Macedo

Sonâmbulos

Um país que precisa de imigrantes para fazer andar a economia pode patrocinar legislação que não só os agride na mensagem subliminar – um erro grave deste Governo –, como vai mesmo reduzir a quantidade de mão de obra disponível?

As ameaças de Donald Trump à BBC, envolvidas na vontade expressa de exigir uma indemnização milionária à estação pública britânica, é a internacionalização do que ele tem feito dentro de casa com grande sucesso: processa órgãos de comunicação social, universidades e grandes escritórios de advogados e só desiste quando os dobra e os torna para todo o sempre obedientes e servis. O objetivo salta à vista: acabar com o pensamento crítico e demolir, passo a passo, os alicerces da democracia.

É evidente que a direita radical que namora com a extrema-direita tem as mesmas pulsões controladoras da esquerda radical, o problema é que esta direita está no poder nos Estados Unidos, em Itália e em vários outros países relevantes para o nosso modo de vida. Em Portugal, o Chega é o segundo partido mais votado e ocupa a agenda mediática – com a cumplicidade das televisões – como uma viscosa mancha de óleo que todos conspurca. Ventura diz e faz coisas que nos envergonham como país, como o cartaz contra os imigrantes do Bangladesh ou o que diz “os portugueses primeiro”; mas apesar da agressão permanente e do racismo latente, goza de um bizarro estatuto de inimputável político.

Os portugueses parecem não se incomodar com o assalto em curso. Divertem-se com a alarvidade que tomou conta da Assembleia da República. Desvalorizam as consequências económicas deste estado de sítio que começamos a viver e que, seguindo este rumo, irá pôr em risco a viabilidade do país. A nossa participação na União Europeia como membro de pleno direito começará – justamente e a prazo, caso o Chega um dia seja governo – a sofrer consequências. Até esse dia, outros efeitos se farão sentir: um país que precisa das receitas do turismo pode hostilizar os estrangeiros desta forma? Um país que precisa de imigrantes para fazer andar a economia pode patrocinar legislação que não só os agride na mensagem subliminar – um erro grave deste Governo –, como vai mesmo reduzir a quantidade de mão de obra disponível?

Não são apenas os almoços, jantares e transportes do uber, há muitas outras áreas que ficam comprometidas. A saúde é uma delas, porque sem imigrantes haverá menos auxiliares para tratar dos mais velhos ou de quem precisa de cuidados continuados. Este é o momento para pensarmos a sério neste suicídio lento e coletivo em que estamos a embarcar. Antes que o medo paralise o país, o Chega tem de ser exposto e combatido pela ameaça existencial que representa.

Relacionado

Lufthansa irá arcar com eventuais remédios diretamente para entrar na TAP, afirma Governo

Lufthansa irá arcar com eventuais remédios diretamente para entrar na TAP, afirma Governo

Respondendo a perguntas da líder parlamentar do PCP Paula Santos sobre a operação, Hugo Espírito Santo lembrou que “existe o compromisso de que o comprador irá arcar com os remédios regulatórios diretamente”, mas rejeitou especular sobre as condições e obrigações que o executivo comunitário possa vir a decidir enquanto guardião dos tratados europeus em matéria de concorrência.