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Estarão as empresas preparadas para responder a ataques de modelos de inteligência artificial (IA)? Um relatório da Boston Consulting Group (BCG) intitulado “Cybersecurity Budgets Are Growing Fast. AI Threats Are Growing Faster”, que inclui 300 responsáveis de cibersegurança, revela que 89% das empresas reportaram ataques habilitados por IA nos últimos 12 meses e 35% sofreram impacto financeiro ou operacional significativo.

“Neste contexto, não podemos assumir que as empresas estão preparadas apenas porque dispõem de mecanismos tradicionais de segurança. A eficácia da defesa depende da capacidade de antecipar ameaças, adaptar continuamente os controlos e responder à velocidade a que os riscos evoluem”, refere o managing director & partner da BCG Lisboa, José Koch Ferreira, em entrevista ao Jornal Económico (JE), que adianta que a IA “está a alterar estruturalmente” o equilíbrio entre ataque e defesa no ciberespaço.

No caso português, tal como acontece noutras geografias, existem níveis de maturidade “muito distintos”, assinala. “O desafio é garantir que a cibersegurança evolui ao ritmo da adoção da IA, com investimento em competências, monitorização contínua e mecanismos de resposta que permitam atuar antes de um incidente comprometer o negócio”, acrescenta.

A eficácia da defesa “dependerá cada vez mais” da capacidade de sincronizar pessoas, processos e tecnologia, assegurando que a deteção de uma ameaça desencadeia uma resposta “coordenada e atempada”. A questão já não é apenas saber se uma organização consegue recuperar de um ataque, mas se consegue “antecipá-lo, limitar o seu impacto e manter” a continuidade do negócio. “É essa capacidade de adaptação que será determinante”, afirma.

A vaga de ataques de modelos de IA, entre os quais os da Anthropic, OpenAI, Google, não deixou o setor indiferente. De um lado os defensores de salvaguardas do outro os que não o defenderam. E quanto a José Koch Ferreira? “A questão central é como garantir que a inovação avança de forma responsável, com salvaguardas proporcionais aos riscos e mecanismos de controlo adequados às capacidades de cada sistema”, salienta.

Num cenário em que a IA ganhe autonomia e capacidade para executar operações complexas, a segurança “tem de ser integrada” desde a conceção e ao longo de todo o ciclo de vida da tecnologia, e “não acrescentada posteriormente” como uma camada de proteção. “Isto exige responsabilidade partilhada entre quem desenvolve estas tecnologias, quem as disponibiliza e as organizações que as utilizam”, acrescenta.

Para si os mecanismos de controlo “devem ser proporcionais” ao nível de autonomia dos sistemas, ao acesso a informação e infraestruturas críticas e ao impacto potencial das suas decisões. “O objetivo não deve ser travar a inovação, mas criar as condições para que esta possa ser adotada com confiança e responsabilidade. E a longo prazo, será também um fator de competitividade a capacidade de combinar velocidade de inovação com uma gestão rigorosa do risco”, defende.

No seu entender a rápida evolução das ameaças exige uma “adaptação contínua” dos planos de cibersegurança, com a integração da IA nas capacidades de defesa e o reforço da antecipação de riscos. A cibersegurança deve, assim, “estar alinhada” com as decisões de negócio, a gestão de risco e a continuidade das operações.

“O desafio não está apenas em ter um plano, mas em garantir que este funciona em cenários reais e acompanha a evolução tecnológica”, afirma.

“A nova realidade exige testar regularmente os mecanismos de resposta, clarificar responsabilidades e avaliar se os controlos existentes continuam adequados perante a evolução das ameaças e a crescente utilização da IA”, sublinha. “Num ambiente em que o tempo de reação é cada vez mais crítico, a maturidade mede-se pela capacidade de antecipar riscos, limitar o impacto de um ataque, assegurar a continuidade do negócio e adaptar e melhorar continuamente a resposta”, acrescenta.

Na cibersegurança o managing director & partner da BCG Lisboa identifica três grandes desafios. Um deles passa por “acompanhar a crescente velocidade e sofisticação das ameaças”, o outro por “desenvolver as competências necessárias para responder a um contexto tecnológico cada vez mais complexo” e por fim “garantir que o investimento em segurança se traduz numa redução efetiva do risco”. Mas existem ainda outros desafios mais secundários. Um dos quais passa pela “crescente interligação” dos sistemas, a dependência de fornecedores e parceiros e a expansão da utilização da IA nos processos empresariais, que “podem aumentar” a exposição das organizações quando “não são acompanhadas” por controlos adequados.

“O desafio central e transversal é garantir que tecnologia, pessoas, processos e governação evoluem de forma coordenada”, assinala. “A adoção de novas soluções de IA tem de ser acompanhada pela adaptação dos controlos de segurança, dos processos de monitorização e dos mecanismos de resposta”, defende.

A aquisição de novas ferramentas, por si só, do seu ponto de vista, “não resolve” o problema se não existirem competências para as utilizar, processos para responder a incidentes e uma liderança capaz de definir prioridades. “As empresas precisam de identificar os riscos mais críticos e concentrar os seus recursos nas capacidades que melhor protegem os ativos, as operações e a continuidade do negócio”, sugere.

Ao nível das empresas a cibersegurança tem atualmente “um lugar mais relevante” para as organizações porque os riscos digitais “deixaram de ser uma preocupação exclusivamente tecnológica” e passaram a ter “implicações diretas” na reputação, na continuidade operacional e na criação de valor. “No entanto, reconhecer a importância do risco não significa necessariamente estar preparado para o gerir”, diz, acrescentando que a sensibilização “tem de se traduzir” em decisões concretas, responsabilidades claras e capacidade efetiva de resposta.

“A verdadeira diferença estará na capacidade de passar da preocupação à ação. Isso significa envolver a liderança na definição das prioridades, incorporar o risco cibernético nas decisões de negócio e avaliar regularmente se as medidas implementadas continuam adequadas. Num contexto em que a IA acelera tanto as oportunidades como as ameaças, a cibersegurança tem de ser uma prioridade permanente da gestão, e não apenas uma resposta a incidentes ou a exigências regulamentares”, salienta.

Questionado sobre se as empresas portuguesas estão a mobilizar o capital devido para a área da cibersegurança, José Koch Ferreira considera que a questão central “não é apenas saber” se os orçamentos de cibersegurança estão a aumentar, mas se “acompanham” a evolução do risco. “A nível global, o investimento está de facto a crescer, tendência que a BCG apontou através do relatório já referido: a despesa aumentou 12% em 2025, bem acima dos 7% esperados, e mais de 80% dos inquiridos pretendem continuar a aumentar orçamentos até 2027”, recorda.

“Num contexto em que a IA está a acelerar as capacidades de ataque, o crescimento do investimento não garante, por si só, uma melhoria equivalente na proteção das organizações”, alerta. Esse estudo refere também que apesar de estar a existir um crescimento no investimento apenas 41% dos inquiridos têm políticas formais de governação de IA. “A adequação do capital mobilizado deve ser avaliada em função da exposição ao risco, das capacidades de defesa existentes e da eficácia com que os recursos são convertidos em prevenção, deteção e resposta. Um orçamento definido num contexto de risco diferente pode deixar de responder às necessidades atuais, mesmo que não tenha sido reduzido”, diz.

A cibersegurança deve ser encarada como um investimento na resiliência e na continuidade do negócio, e não apenas como um custo operacional ou uma resposta a exigências regulamentares, defende. Isso exige uma “alocação criteriosa” de recursos à tecnologia, às competências, aos processos e à capacidade de resposta. “Não é necessariamente quem mais investe que está mais protegido, mas quem consegue alocar os recursos às vulnerabilidades mais críticas e transformar esse investimento em capacidade efetiva para antecipar, detetar e conter ameaças”, considera.

E como fica Portugal face a outras geografias no panorama da cibersegurança? “A comparação entre Portugal e outras geografias deve considerar não apenas os níveis de investimento, mas também a maturidade das capacidades de defesa, a disponibilidade de talento, a adoção de tecnologia e a exposição das organizações ao risco. A IA está a transformar o panorama da cibersegurança à escala internacional, mas as empresas não partem todas do mesmo ponto nem dispõem dos mesmos recursos para acompanhar esta evolução. Por isso, não seria rigoroso atribuir ao mercado português uma posição única sem indicadores comparáveis que sustentem essa conclusão”, explica.

No caso concreto das empresas portuguesas a prioridade “deve ser acelerar” a evolução das suas capacidades, aprender com as práticas internacionais mais avançadas e adaptá-las à sua realidade operacional, sugere. E isso implicaria “integrar a cibersegurança na estratégia, investir nas áreas de maior exposição e reforçar” a articulação entre tecnologia, pessoas e processos. “Num ambiente digital interligado, a capacidade de operar com segurança e resiliência é uma condição de competitividade, independentemente da dimensão ou da geografia da organização”, conclui.

As eleições intercalares estão aí à porta e estão a deixar o presidente norte-americano nervoso. É que chegou a altura do mandato em que, regra geral, o partido do presidente perde o controlo do Congresso.

Desde a II Guerra Mundial que o partido do presidente incumbente perdeu assentos na Câmara dos Representantes em todas as eleições intercalares, com exceção de duas.

A corrida em sete estados –  Alaska, Iowa, Maine, Michigan, Carolina do Norte, Ohio e Texas – vai ser determinante para o equilíbrio de forças no Congresso.

O presidente americano parte para as eleições com a sua taxa de aprovação nos 32%, uma melhoria face à semana anterior, onde atingiu um mínimo, segundo uma sondagem da Reuters/Ipsos.

O inquérito também demonstrou que os eleitores no país favorecem os Democratas (47%) contra os Republicanos (36%).

Atualmente, os Republicanos lideram na Câmara dos Representantes com uma vantagem de 218 assentos contra 214 dos Democratas. No Senado, a vantagem Republicana é de 53 contra 47 dos Democratas.

Para o comentador político Chris Matthews, Donald Trump perde nos temas relacionados com o custo de vida. “As pessoas mais velhas com rendimento limitado estão focadas em chegar ao fim do mês”, com a campanha a ser mais sobre macroeconomia do que sobre o movimento MAGA (‘Make America Great Again’). “Não interessa o que faz pelos apoiantes do MAGA, o poder da macroeconomia é muito mais forte e as pessoas vão votar contra ele”, afirmou, citado pelo “Guardian”.

Já o ex-líder do Comité Republicano Nacional, Michael Steele, disse que Donald Trump “nacionalizou” esta campanha. “Agora vão perder assentos por causa disso. Ele tornou-se a base do referendo. Os candidatos individuais queriam correr por si próprios, mas ele disse-lhes: ‘coloquem-me no boletim’. Ele tem instintos políticos para si, mas não tem instintos políticos para ao partido”.

Qual o desfecho possível?

Analisando as eleições, a Schroders considera “provável que a Câmara dos Representantes mude de liderança, mas o Senado continua muito em aberto a qualquer resultado”.

“Os democratas precisam de conquistar mais quatro lugares líquidos, ao mesmo tempo que defendem os que já detêm. As eleições competitivas em estados como a Carolina do Norte e o Maine representam oportunidades, mas as vulnerabilidades noutros estados significam que vários resultados terão de lhes ser favoráveis em simultâneo. Nas atuais circunstâncias, os republicanos continuam a ser ligeiramente favoritos para manter o controlo da câmara”, afirma George Brown, economista sénior da Schroders.

Em qualquer dos cenários, é “praticamente certo que os republicanos perderão a sua maioria tripartida (controlo simultâneo da Casa Branca, da Câmara dos Representantes e do Senado) em novembro. Um Congresso dividido continua a ser o cenário mais provável, mas o equilíbrio no Senado é suficientemente frágil para que uma vitória democrata nas duas câmaras não constitua uma surpresa”, segundo o analista.

Já a Allianz GI aponta que, no seu cenário central, as eleições vão resultar num “Congresso dividido, com o Partido Democrata a conquistar o controlo da Câmara dos Representantes, enquanto os republicanos deverão manter, por uma margem reduzida, o controlo do Senado”.

“Caso os democratas consigam também conquistar o Senado – capitalizando o descontentamento recente com as políticas do presidente Donald Trump em vários estados politicamente competitivos –, a sua margem de vitória será provavelmente tão reduzida que a minoria republicana, juntamente com o presidente, terá capacidade para bloquear a legislação proposta. Ambos os cenários poderão, assim, conduzir a um impasse legislativo no Congresso”, segundo a Allianz GI.

Quais os estados mais disputados?

As corridas para o Senado em estados como o Alaska, Iowa, Maine, Michigan, Carolina do Norte, Ohio e Texas são “determinantes para o equilíbrio de forças no Capitólio no curto prazo”, segundo a Allianz GI.

“Os democratas precisam de conquistar mais quatro lugares líquidos para obterem a maioria no Senado, sendo estes os estados onde têm maiores possibilidades de o conseguir”, acrescenta.

O que acontece se o Congresso ficar dividido?

A Allianz GI conclui que “será difícil para os democratas condicionarem de forma significativa as decisões de política externa do presidente Trump. Historicamente, o Congresso tem delegado grande parte do controlo da política comercial no poder executivo e uma maioria democrata reduzida no Senado dificultará a aprovação de uma resolução ao abrigo da Lei dos Poderes de Guerra (‘War Powers Resolution’) que limite o conflito entre os Estados Unidos e o Irão ou a revogação das tarifas aduaneiras”.

Já a Generali Investments & Wellington Management destacam também a possibilidade de os republicanos manterem o Senado enquanto os Democratas assumem o controlo da Câmara dos Representantes, o que “limitaria as probabilidades de aprovação de nova legislação e aumentaria o potencial de fiscalização do presidente por parte do Congresso. A disputa pela Câmara dos Representantes inclui aproximadamente 29 lugares altamente competitivos ou indecisos, sendo que uma mudança de apenas 4 a 5 lugares poderá significar a alteração do controlo partidário”.

E no caso de uma vitória dos Democratas nas duas câmaras?

Uma vitória democrata total (ou ‘democratic sweep’) “poderia trazer um foco acrescido para a saúde, o custo de vida, a proteção do consumidor e outros temas centrais da campanha democrata”.

“O bloqueio legislativo entre um Congresso dividido (ou controlado pelos Democratas) e um presidente Republicano iria, muito provavelmente, limitar despesas adicionais. As ‘yields’ das obrigações do Tesouro poderiam enfrentar menor pressão ascendente, embora este mesmo resultado pudesse revelar-se menos favorável ao crescimento económico”, segundo a Generali/Wellington.

Os Republicanos vão tentar acelerar legislação no Congresso se perderem?

Sim. Existe essa possibilidade durante as ‘lame-duck sessions’ até ao final do ano, isto é, a aprovação do maior número possível de legislação prioritária para os Republicanos antes de perderem o Congresso em janeiro.

“Estas poderão incluir o aumento das despesas com a defesa no contexto da guerra com o Irão, mais financiamento para a agricultura e alterações nos gastos em infraestruturas. Em conjunto, estas medidas poderiam formar um pacote de nova despesa equivalente a até meio ponto percentual do PIB”, segundo a Generali/Wellington.

Mas Donald Trump vai conseguir aprovar legislação com os Democratas a controlar o Congresso?

Sim. “Independentemente do resultado eleitoral, contudo, o Presidente Trump manterá a capacidade de agir por via executiva em matérias de comércio, regulamentação, política externa, entre outras”, explica a Generali/Wellington.

Mas vai haver mais escrutínio sobre Donald Trump?

“O escrutínio das operações militares, a investigação de membros da administração, a limitação do financiamento e a aprovação de legislação de caráter essencialmente político e simbólico poderão colocar o conflito sob os holofotes”, conclui a Allianz GI.

Pode haver a tentação de interferência nas eleições?

Apesar de poderem existir tentações, a verdade é que são os estados que têm a autoridade para organizar as eleições intercalares, com a sua regulamentação a ficar a cargo do Congresso.

“Embora sejam certamente apresentados pedidos de recontagem em disputas eleitorais renhidas, qualquer tentativa de apreender boletins de voto ou equipamentos eleitorais, recusar a certificação dos resultados ou exercer controlo policial sobre os locais de votação deverá enfrentar uma forte contestação judicial”, segundo Liam Wash, economista da Allianz GI.

Quais os desafios do Congresso após as eleições?

O Orçamento federal será o grande desafio a enfrentar, com o prazo para a sua aprovação a terminar a 11 de dezembro.

“As negociações serão difíceis tanto num cenário de Congresso dividido como numa vitória democrata nas duas câmaras, aumentando o risco de uma paralisação dos serviços do Governo federal (‘government shutdown’)”, analisa a Allianz GI.

Os analistas esperam uma nova ronda de negociações sobre o teto da dívida pública, mas isso só na primavera ou verão de 2027.

“Os anteriores períodos de governos divididos foram marcados por confrontos políticos, com o Congresso a aguardar até aos últimos dias antes de o Tesouro ficar sem fundos para aumentar ou suspender o limite da dívida. Estas situações têm estado associadas a turbulência nos mercados de rendimento fixo e a decisões negativas por parte das agências de notação financeira”, recorda a Allianz GI.

E quais as consequências para a Reserva Federal norte-americana?

O controlo do Senado vai dar aos democratas uma “ferramenta adicional”: a “autoridade sobre as nomeações para cargos executivos e judiciais”, incluindo para a Reserva Federal (Fed).

E vão surgir vagas entretanto: o mandato de Jerome Powell termina em janeiro de 2028, com o seu substituto a precisar de apoio bipartidário no Senado.

O Julius Baer acredita que um Senado democrata “reduziria os riscos para a credibilidade institucional associados à independência da Fed”, depois de episódios polémicos como as investigações à governadora Lisa Cook ou a escolha do substituto de Jerome Powell.

“Na margem, esta situação seria moderadamente positiva para a perceção de independência e credibilidade da Fed. É certo que a administração mantém o poder de nomear os candidatos, mas o leque de pessoas suscetíveis de obter confirmação ficaria significativamente mais limitado, reduzindo o risco de uma nomeação assumidamente política”, segundo os analistas do Julius Baer: Afonso Borges e Aleksandra Marcinkowska.

E para os investidores?

O desfecho das eleições não é tema para os investidores, segundo a Schroders. “Os mercados têm acolhido favoravelmente os governos divididos, considerando que o impasse legislativo permite às empresas operar com menos surpresas regulatórias”.

Sobre o impacto em vários setores, destaca que o “resultado poderá ser especialmente importante para setores politicamente sensíveis, como a energia, a saúde e a tecnologia”.

Após as eleições, as taxas de rendibilidade das obrigações soberanas dos EUA “poderão cair inicialmente”, uma vez que os investidores “antecipariam uma menor expansão orçamental a curto prazo. No entanto, poderão recuperar à medida que se aproximam as negociações sobre o teto da dívida”.

Para os investidores, “esta distinção é importante, uma vez que determinará a intensidade dos conflitos orçamentais e do escrutínio dos diferentes setores nos próximos dois anos”.

Já a Allianz GI espera que as eleições tenham um “impacto limitado nos mercados. Com efeito, mesmo nos cenários eleitorais mais extremos, as perspetivas económicas de curto prazo para os Estados Unidos deverão permanecer praticamente inalteradas. Nenhum dos partidos colocou a consolidação orçamental entre as suas prioridades e ambos apresentam diferentes programas de políticas favoráveis ao crescimento económico”.

Os mercados entram na semana de 2 de novembro sob um manto de cautela, com a atenção dividida entre a véspera das eleições intercalares norte-americanas, a persistente tensão geopolítica no Médio Oriente e um calendário macroeconómico que começa já na segunda-feira com o ISM Manufacturing, um dos indicadores económicos mensais mais importantes dos Estados Unidos, usado para avaliar a saúde e o desempenho do setor transformador e industrial americano.

As midterms norte-americanas, a realizar-se na terça-feira, introduzem uma camada adicional de incerteza política, com potenciais implicações para a política comercial, a regulação tecnológica e a trajetória da despesa pública.

Em Wall Street, os principais índices fecharam a semana anterior sob pressão, especialmente no setor tecnológico, onde as preocupações com o ritmo e a rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial voltaram a pesar. O S&P 500 fechou a cair 1,82% para 7.580,07 pontos, o Dow Jones a recuar 1,09% para 51.770,31 pontos e o Nasdaq Composite a retroceder 2,86% para 25.437,00 pontos. O Nasdaq 100, que agrega as 100 maiores empresas não financeiras cotadas no Nasdaq, caiu mais de 3%. A Intel caiu mais de 28% e registou a maior queda diária em mais de quatro décadas, depois de as suas previsões terem ficado aquém das estimativas.

A segunda-feira deverá ser marcada por uma sessão de consolidação, com os investidores a digerem os resultados da Apple e da Palantir, previstos para depois do fecho, ao mesmo tempo que monitorizam o índice ISM de outubro, esperado em torno dos 54,7 pontos. Qualquer surpresa em baixa no componente de preços pagos poderá aliviar momentaneamente as expectativas de uma nova subida de taxas pela Reserva Federal em dezembro, enquanto um número mais forte reforçaria o tom hawkish que tem dominado o discurso recente.

O rendimento das Treasuries a 10 anos continua a oscilar em níveis elevados, tendo tocado recentemente máximos de vários anos acima dos 5%. A combinação entre uma inflação ainda pressionada pelos preços da energia e a incerteza fiscal alimentada pela proximidade das midterms mantém os investidores em alerta.

Os analistas consideram que uma sessão de segunda-feira sem grandes abalos no ISM poderá permitir alguma estabilização dos yields, mas o risco de volatilidade aumenta à medida que se aproxima a terça-feira eleitoral. O mercado de obrigações observa com particular atenção a possibilidade de um Congresso dividido, cenário que muitos analistas consideram o mais provável e que poderia limitar a margem de manobra para novas expansões orçamentais.

O elefante na sala continua a ser o petróleo, que é onde o prémio de risco geopolítico continua bem presente. O Brent tem oscilado em território elevado, acima dos 110 dólares, sustentado por ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz e por tensões envolvendo o Irão, a Arábia Saudita e milícias Houthi.

Qualquer escalada adicional no Médio Oriente tem potencial para impulsionar os preços de forma abrupta, alimentando o receio de um novo choque inflacionista. Pelo contrário, sinais de contenção diplomática poderiam aliviar a pressão e permitir alguma correção. Esta dinâmica mantém o crude como uma das variáveis mais sensíveis da semana.

As mensagens trocadas não são tranquilizadoras. O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou este sábado que os Estados Unidos ainda tinham de “tratar” de um ou dois alvos no Irão, nomeadamente a Montanha Kolang, suspeita de albergar um complexo nuclear.

Já o Irão alertou este domingo os Estados Unidos de que um eventual retomar das hostilidades poderia ser duradouro, logo após novas ameaças feitas pelo presidente norte-americano, Donald Trump. “Uma nova guerra poderá ser mais longa do que a anterior, e o Presidente norte-americano não teria condições para ditar nem o momento nem as condições” para o fim das hostilidades, declarou o porta-voz do exército, Mohammad Akraminia, citado pela televisão estatal.

Entretanto as reservas de 100 milhões de barris de petróleo prometidas pelo G7 começam a chegar ao mercado. O grupo dos sete países mais industrializados, atualmente presidido pela França, anunciou, no início de outubro, que iria colocar no mercado 100 milhões de barris, sob pressão do Presidente norte-americano, Donald Trump. Os 100 milhões de barris de petróleo e gasóleo das reservas estratégicas que os países do G7 se comprometeram a colocar no mercado ao longo de quatro meses começaram hoje a ser disponibilizados.

A chegada do petróleo e gasóleo ao mercado vem acompanhada de volumes adicionais prometidos por outros países europeus, entre eles Portugal, com o objetivo de conferir maior fluidez e estabilidade ao mercado.

Europa ao som de Wall Street, com contestações nas ruas a subir de tom

Na Europa, os índices deverão abrir a segunda-feira a reagir ao sentimento vindo dos futuros americanos e à evolução do petróleo.

Os futuros das ações europeias apontam para uma abertura positiva, com o Euro Stoxx50 a subir 0,2% e o DAX a subir 0,1%.

A perspetiva de manutenção de preços elevados da energia continua a complicar o cenário para o Banco Central Europeu, que já mostrou uma postura mais cautelosa nas últimas decisões.

Os dados de inflação da zona euro, previstos para meados da semana, serão o próximo teste, mas o tom de segunda-feira dependerá sobretudo do comportamento das bolsas norte-americanas e da ausência de novos desenvolvimentos geopolíticos negativos.

Setores como o energético e o bancário deverão concentrar a atenção dos investidores, enquanto a tecnologia europeia acompanha a volatilidade dos pares americanos.

Entretanto intensificam-se as contestações nas ruas. Na Alemanha, o que começou por ser uma manifestação pacífica de protestos estudantis e juvenis, no Halloween, degenerou em violência e pilhagens. A iniciativa “Poder à Geração Z” exige mais investimento na educação, custos de vida comportáveis e uma proteção climática consequente. Através de protestos em todo o país, luta por mais participação dos jovens nas decisões e opõe-se ao serviço militar obrigatório. Em Frankfurt, Colónia, Hamburgo e Berlim a situação agravou-se. Várias montras foram destruídas, houve pilhagens, danos materiais e cenas de violência. Barricadas arderam, arruaceiros invadiram uma loja de armas e a polícia recorreu várias vezes a canhões de água.

Uma vaga massiva de protestos e manifestações contra o custo de vida, habitação e precariedade está a mobilizar várias cidades europeias neste fim de semana.

Na Europa, o cenário geopolítico permanece o grande pano de fundo. Além do Médio Oriente, a atenção dos mercados mantém-se ligeiramente dispersa por outras frentes de tensão, mas é o risco de disrupção no fornecimento de energia que mais pesa nas cotações.

Os ataques ucranianos com drones às refinarias russas voltaram a intensificar-se no final de outubro e no início de novembro, com impactos significativos em instalações como a de Kstovo, na região de Nizhny Novgorod — onde a refinaria da Lukoil, uma das maiores do país, sofreu danos relevantes — e em complexos da Rosneft e Bashneft.

Depois de uma breve pausa alegadamente ligada a pressões de Washington para evitar pressões adicionais nos preços dos combustíveis antes das midterms americanas, Kyiv retomou a ofensiva energética, visando reduzir a capacidade de refinação russa e dificultar o abastecimento de combustíveis às forças de Moscovo. Isto mesmo em cima das midterms americanas, o que acrescenta uma mensagem política de Zelensky à administração Trump. Sendo que, Marco Rubio, já veio dizer que a política externa continua a ser do Presidente independente do resultado das eleições de meio de mandato. Num claro recado a Zelensky e ao Irão.

Em resposta aos ataques às refinarias, a Rússia intensificou os ataques à rede elétrica ucraniana, deixando centenas de milhares de pessoas sem energia.

No plano diplomático, as partes preparam conversações trilaterais técnicas com mediadores americanos em Abu Dhabi, previstas para a primeira quinzena de novembro, após as midterms. Embora tanto Zelensky como o Kremlin tenham sinalizado disponibilidade, as expectativas permanecem baixas: Moscovo insiste em garantias de segurança alargadas e em questões territoriais, enquanto Kyiv exige garantias robustas e financiamento de longo prazo para as suas forças armadas, mantendo o conflito longe de um cessar-fogo iminente.

No G20, os ministros dos Negócios Estrangeiros concluíram este fim de semana em Atlanta uma reunião sem comunicado conjunto, marcada por divisões profundas em torno da guerra na Ucrânia e de outras questões de segurança global. O encontro preparou o terreno para a cimeira de líderes em Miami, em dezembro, sob a presidência americana, onde se espera que os debates sobre energia, cadeias de abastecimento e estabilidade geopolítica continuem a dominar a agenda.

O presidente russo, Vladimir Putin, foi convidado para a cimeira de dezembro, mas ainda não confirmou a sua presença. O Kremlin condicionou a eventual presença de Putin aos resultados da cimeira do fórum Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC), que decorre em novembro na China. Mas Rubio considera pouco provável que Putin aceite o convite, a não ser que haja um acordo de paz até lá.

A Feeders, estúdio de arquitetura especializado no desenho de espaços para comunicação de marcas e produtos, prepara-se para inaugurar o Ephemeral, um novo coworking criativo que abre portas esta semana, no dia 2 de novembro, em Telheiras, Lisboa. O projeto integra um investimento global de 2,4 milhões de euros, que contempla o imóvel, projeto, construção, mobiliário e decoração das novas instalações da empresa, onde passa também a funcionar o coworking.

Fundada em 2011, a Feeders tem vindo a consolidar a sua atividade na arquitetura de espaços para eventos, experiências de marca, feiras e escritórios. Em 2025, registou um volume de negócios de 5,89 milhões de euros, um crescimento de 17,1% face a 2023, e conta atualmente com uma equipa de 20 colaboradores. Ao longo do seu percurso, desenvolveu mais de 500 projetos em Portugal e em mercados internacionais, incluindo vários países europeus, Canadá e Arábia Saudita.

“Para a Feeders, os momentos mais marcantes foram sobretudo aqueles que nos ajudaram a construir uma identidade e a ganhar clareza sobre o caminho que queríamos percorrer. Um primeiro momento foi a aposta da Optimus, atualmente NOS, na Feeders para desenvolver a experiência espacial associada ao seu principal evento, o Optimus Alive (atual NOS Alive). Tivemos a oportunidade de experimentar técnicas, materiais e sistemas construtivos numa fase em que ainda tínhamos poucas amarras. Essa imaturidade acabou por ser uma vantagem. Foi também através dessa experiência, e dos projetos que se seguiram, que fomos percebendo que a música e o desporto faziam parte do nosso ADN. São universos onde a emoção, a identidade e a experiência coletiva têm um papel determinante, e onde a arquitetura pode acrescentar um valor muito particular”, explica Joaquim Silva, Partner & Co-Founder da Feeders, ao Jornal Económico.

A aposta no Ephemeral surge numa fase em que a Feeders procura consolidar a sua estrutura e reforçar a presença internacional. No âmbito desta estratégia, a empresa abriu este mês um Middle East Hub em Riade, na Arábia Saudita, através de uma participação de capital conjunta entre a Feeders Portugal e investidores sauditas. Atualmente, o mercado nacional representa cerca de 90% do volume de negócios, com a empresa a ambicionar aumentar o peso dos mercados internacionais nos próximos anos. “Estamos a desenvolver um projeto de expansão internacional, com foco no Médio Oriente, e mudámos para novas instalações, associadas a uma nova identidade e propósito através do Ephemeral Cowork. Como resultado das dificuldades, mas também das conquistas destes anos, temos hoje uma visão mais clara sobre o nosso potencial de crescimento e sobre o valor acrescentado que o nosso modelo de negócio pode oferecer em diferentes mercados”, acrescenta o responsável.

Num contexto em que a tecnologia democratiza o acesso a ferramentas de criação e desenvolvimento de soluções, a verdadeira diferenciação passa cada vez mais pela capacidade de ir além do que já existe. Uma reflexão que ganha particular relevância nos setores da arquitetura e dos eventos. “A arquitetura e o setor dos eventos, onde nos inserimos, enfrentam frequentemente um problema de escala. Existem relativamente poucos projetos que desafiem o status quo e procurem fazer verdadeiramente diferente, até porque inovar implica assumir riscos. Diria que a massificação da inteligência artificial poderá também ter influência neste contexto. Existem hoje ferramentas que permitem encontrar soluções de forma autónoma, mesmo sem conhecimento especializado. Como a IA trabalha a partir de padrões e informação existente, pode facilitar a obtenção de resultados alinhados com os objetivos de uma marca, mas não garante, por si só, soluções verdadeiramente inovadoras”, sublinha Joaquim Silva, Partner & Co-Founder da Feeders, ao Jornal Económico.

Com um mercado nacional de dimensão limitada, a expansão além-fronteiras assume-se como um passo estratégico para sustentar o crescimento da Feeders. A empresa procura agora afirmar a sua proposta de valor em novos mercados, com objetivos ambiciosos para os próximos anos. “O mercado português, apesar de desafiante e relevante para a nossa atividade, apresenta limitações naturais de escala e crescimento. Nesse sentido, para a Feeders continuar a crescer, teríamos de alterar profundamente o nosso modelo de negócio ou procurar replicar e adaptar esse modelo a outras regiões do mundo. Foi precisamente esse o exercício que fizemos: compreender os nossos fatores de diferenciação e identificar os mercados onde a nossa proposta de valor poderia ter maior relevância. A internacionalização é, por isso, um eixo central da nossa estratégia. O objetivo é que, num horizonte de três a cinco anos, os mercados internacionais representem mais de 50% do nosso volume de negócios”, conclui o responsável ao Jornal Económico.

 

 

Há dívidas que se pagam todos os meses e outras que acompanham uma família durante décadas. Há o crédito da casa, os empréstimos pessoais, os cartões de crédito e os descobertos bancários. Em Portugal, quase 1,9 milhões de agregados familiares tinham algum tipo de dívida em 2024. E, para uma parte significativa, o esforço para a pagar representa uma fatia importante do rendimento que entra em casa.

O retrato é traçado pelo estudo “Poupança, despesas e dívidas: para onde vai o dinheiro das famílias?”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), através da Pordata, com base no Inquérito à Situação Financeira das Famílias de 2024, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Dos cerca de 4,5 milhões de agregados familiares residentes em Portugal, 41,7% tinham dívidas. São aproximadamente 1,9 milhões de famílias. A proporção diminuiu cinco pontos percentuais face a 2020, uma redução explicada sobretudo pela diminuição do número de agregados com empréstimos para a compra da residência principal.

Mas a descida do endividamento não significa que o crédito tenha deixado de pesar nos orçamentos. Em 2024, para metade das famílias endividadas, os pagamentos associados às dívidas representavam pelo menos 15% do rendimento líquido anual. Ou seja, antes de pagar as restantes despesas da casa, uma em cada duas famílias com dívidas tinha de reservar pelo menos 15% do rendimento líquido para cumprir os compromissos financeiros.

A casa continua a ser a principal dívida

O crédito à habitação é a forma de endividamento mais frequente. A hipoteca da residência principal abrangia 24,7% dos agregados familiares, quase um em cada quatro. Seguiam-se os empréstimos sem garantia imobiliária, que atingiam 18,7% das famílias.

Já as dívidas associadas a cartões de crédito, linhas de crédito e descobertos bancários afetavam 10,3% dos agregados. A hipoteca de outros imóveis tinha uma expressão menor, abrangendo 4,2% das famílias.

Os diferentes tipos de dívida podem coexistir no mesmo agregado, pelo que estas percentagens não devem ser somadas para calcular o número total de famílias endividadas.

A idade ajuda a perceber quem está mais exposto ao crédito. Entre os agregados cujo indivíduo de referência tinha menos de 35 anos, 53,9% tinham algum tipo de dívida. A proporção aumenta para 64,9% entre os 35 e os 44 anos e mantém-se elevada, nos 63,1%, na faixa dos 45 aos 54 anos.

A partir dos 55 anos, a incidência diminui. Entre os 55 e os 64 anos, 44,2% dos agregados tinham dívidas. Na faixa dos 65 aos 74 anos, a proporção descia para 20,9%, chegando a apenas 8% entre as famílias cujo indivíduo de referência tinha 75 ou mais anos.

O peso do crédito à habitação ajuda a explicar esta diferença entre gerações. Entre os 35 e os 44 anos, 41,7% dos agregados tinham uma hipoteca da residência principal. A percentagem subia para 46,6% na faixa dos 45 aos 54 anos. Entre os 55 e os 64 anos, já era de 25,6%, descendo para 7,8% entre os 65 e os 74 anos.

Nos agregados com menos de 35 anos, a hipoteca da residência principal abrangia 23,8%. O estudo não apresenta valores para esta categoria nas famílias com 75 ou mais anos.

Os empréstimos pessoais pesam mais nos mais jovens

Nem todas as dívidas estão relacionadas com a compra de uma casa. Os empréstimos sem garantia imobiliária têm uma presença particularmente expressiva entre os agregados mais jovens: atingem 32,9% das famílias cujo indivíduo de referência tem menos de 35 anos.

Esta proporção diminui com a idade. Passa para 28,2% entre os 35 e os 44 anos, 23,3% entre os 45 e os 54 anos e 18,7% entre os 55 e os 64 anos. Nos agregados dos 65 aos 74 anos, representa 11%, descendo para 4,7% a partir dos 75 anos.

Também as dívidas de cartões de crédito, linhas de crédito e descobertos bancários são mais frequentes nas idades intermédias. Afetam 11,4% dos agregados com menos de 35 anos, 15,6% entre os 35 e os 44 anos e 15,9% na faixa dos 45 aos 54 anos. A partir daí, a proporção recua para 11,3% entre os 55 e os 64 anos, 5,4% entre os 65 e os 74 anos e 2,5% nas famílias com 75 ou mais anos.

No caso das hipotecas de outros imóveis, o peso é mais reduzido em todas as idades: 6,6% entre os 35 e os 44 anos, 7,4% entre os 45 e os 54 anos, 4,3% entre os 55 e os 64 anos e 2,2% entre os 65 e os 74 anos. Para os agregados com menos de 35 anos e com 75 ou mais anos, o estudo não apresenta valores nesta categoria.

Entre os 35 e os 44 anos, a dívida chega a 181% do rendimento anual

É quando se compara o valor da dívida com o rendimento que a diferença entre gerações se torna mais evidente. Em 2024, o rácio mediano entre a dívida total e o rendimento líquido anual era de 104,2% para o conjunto das famílias endividadas. Isto significa que, em metade destes agregados, a dívida correspondia a pelo menos 104,2% do rendimento líquido de um ano.

Mas a situação é bastante diferente entre os grupos etários. Nos agregados endividados cujo indivíduo de referência tinha entre 35 e 44 anos, o rácio mediano atingia 180,5%. Por outras palavras, metade destas famílias devia pelo menos 1,8 vezes o rendimento líquido anual.

Entre os 45 e os 54 anos, o rácio era de 131,8%. Nos agregados com menos de 35 anos, situava-se em 107,8%. A partir dos 55 anos, o valor diminuía de forma acentuada: 60,3% entre os 55 e os 64 anos, 39,4% entre os 65 e os 74 anos e 15,9% nas famílias com 75 ou mais anos.

O indicador não significa que estas famílias tenham de pagar toda a dívida num ano. Mede o valor total em dívida face ao rendimento líquido anual, permitindo perceber a dimensão dos compromissos financeiros acumulados.

Quanto do rendimento fica comprometido com as prestações?

O valor total em dívida é apenas uma parte da história. O esforço financeiro mede também quanto do rendimento líquido anual é absorvido pelos pagamentos regulares.

No conjunto das famílias endividadas, o rácio mediano entre o serviço da dívida e o rendimento líquido anual era de 15%. Entre os 35 e os 44 anos, atingia 17%, o valor mais elevado de todos os grupos etários.

Nos agregados com menos de 35 anos, o indicador situava-se em 15,4%. Entre os 45 e os 54 anos, era de 15,6%. Nas famílias dos 55 aos 64 anos, descia para 13,2%, mantendo-se no mesmo valor entre os 65 e os 74 anos. A partir dos 75 anos, recuava para 10,7%.

O estudo analisa ainda a relação entre a dívida e o valor dos ativos detidos pelas famílias. No conjunto dos agregados endividados, a dívida correspondia, em termos medianos, a 21% dos ativos. A proporção era de 46,2% entre os mais jovens, 32,8% na faixa dos 35 aos 44 anos e 21,1% entre os 45 e os 54 anos.

Nas famílias dos 55 aos 64 anos, o rácio descia para 11,2%, passando para 6,3% entre os 65 e os 74 anos e 2,8% nos agregados com 75 ou mais anos.

A leitura conjunta destes três indicadores — dívida face ao rendimento, pagamentos face ao rendimento e dívida face aos ativos — permite perceber que a exposição financeira é particularmente elevada nas idades mais jovens e intermédias. Entre os menores de 35 anos, por exemplo, a dívida mediana corresponde a 107,8% do rendimento líquido anual e a 46,2% do valor dos ativos.

A fotografia traçada pela FFMS/Pordata mostra, assim, que o endividamento está longe de ser uma realidade uniforme. É mais frequente nas famílias em idade ativa, sobretudo entre os 35 e os 54 anos, e tende a diminuir à medida que a idade avança. Mas é também neste período da vida que o peso da dívida face ao rendimento e o esforço para a pagar atingem os níveis mais elevados.

A redução de cinco pontos percentuais no número de famílias endividadas desde 2020 é um sinal de alívio. Ainda assim, para quase dois milhões de agregados, uma parte do rendimento continua comprometida antes mesmo de começar o mês.

Uma grande onda de protestos contra o aumento do custo de vida em geral e a crise na habitação em particular – a que se juntou em várias geografias a questão da precariedade dos serviços públicos – mobilizou milhares de pessoas em vários países da Europa neste fim de semana, 31 de outubro e 1 de novembro.

 

Portugal

Portugal não foi exceção – tendo até entrado no grupo menos numeroso de países onde voltou a haver confrontos entre manifestantes e forças da ordem. Milhares de pessoas saíram às ruas no sábado à tarde. Em Lisboa, o protesto partiu do Largo do Camões rumo ao Rossio; no Porto, iniciou-se na Praça da Batalha. No final dos desfiles, os manifestantes montaram mais de 50 tendas no Rossio (Lisboa) e na Praça D. João I (Porto) para iniciar um acampamento por tempo indeterminado. Por volta das 04h30 da manhã, após três avisos para dispersão, a PSP avançou com bastões e escudos para desmontar as tendas em ambas as cidades. A polícia confirmou a detenção de 13 pessoas por desobediência e recusa de dispersão, seis em Lisboa e sete no Porto. Os confrontos durante a desocupação provocaram vários feridos: a polícia indicou que 13 agentes ficaram feridos (oito dos quais necessitaram de assistência hospitalar); do lado dos manifestantes, as organizações civis contestam a proporcionalidade da força usada e relatam que mais de 30 ativistas ficaram feridos em Lisboa e 38 no Porto. Entretanto, ao início da noite, pelo menos em Lisboa, os condutores dos automóveis que assumiam apoiar as manifestações através das buzinas, foram autuados, numa iniciativa que foi rapidamente considerada de um ridículo difícil de imaginar. Não estavam reunidas condições de segurança, disse a polícia, que assim cumpriu o código da estrada – com certeza suspenso quando as buzinas servem para comemorar as vitórias desportivas.

 

França

O caso mais caótico voltou a ser a França, onde milhares de pessoas saíram às ruas em Paris, Lyon, Marselha e noutras cidades no terceiro fim de semana consecutivo de mobilização sindical e estudantil. Houve confrontos diretos com a polícia. Os números oficiais apontam, de qualquer modo, para uma menor participação que nos dois anteriores fins de semana: mobilizaram-se cerca de 320 mil pessoas em todo o país (das quais 70 mil em Paris), uns 22% a menos em comparação com o sábado anterior e menos 42% relativamente ao pico registado a 17 de outubro. Os sindicatos, contudo, estimam os números globais em cerca de 500 a 800 mil manifestantes. O balanço final do governo apontou para 779 detidos. Foram contabilizados 159 agentes das forças de segurança feridos. O final da tarde e a noite de sábado para domingo foram marcados por distúrbios na periferia das grandes cidades. Os bombeiros combateram 515 focos de incêndio, registaram-se danos materiais em pelo menos 36 estabelecimentos comerciais e três saques. Antecipando riscos graves de desordem, o governo francês tinha mobilizado um contingente reforçado de 70 mil polícias e guardas nacionais por todo o território. Em Paris, as marchas foram desviadas do centro histórico para proteger as zonas turísticas e governamentais.

 

Alemanha

Na Alemanha, as manifestações de sábado (31 de outubro) mobilizaram mais de 180 mil pessoas em dezenas de cidades, com violentos confrontos, tumultos e saques durante a noite. O protesto nacional foi convocado pelo movimento juvenil e estudantil conhecido como ‘Gen Z regelt’ (‘Geração Z assume o controlo’), que, para além dos temas genéricos, se manifestou contra a possibilidade de o governo avançar para o serviço militar obrigatório. O centro financeiro do país foi o ponto mais crítico: grupos destruíram montras e saquearam lojas comerciais, incluindo um ataque violento a uma loja de armas. Foram arremessadas bombas e engenhos pirotécnicos contra a polícia. Registaram-se também fortes distúrbios em Berlim, Colónia e Hamburgo. As forças de segurança alemãs recorreram ao uso de canhões de água e cargas policiais para dispersar os manifestantes mais radicais. E registaram pelo menos 30 detenções apenas em Frankfurt. Mas Berlim, Colónia, Estugarda, Mainz, Friburgo e Munique foram também palco de manifestações.

 

Itália

As mobilizações em massa associadas em Itália estão intimamente ligadas às greves gerais motivadas pela perda de poder de compra, inflação e contestação aos gastos militares. Uma primeira foi cumprida na passada sexta-feira, 30 de outubro, convocada pelo sindicato USB (Unione Sindacale di Base), de que resultou a paragem de várias atividades. A greve e as manifestações levaram mais de um milhão de pessoas às ruas de cerca de 50 cidades, resultando em confrontos localizados, uso de canhões de água pelas autoridades e pelo menos oito detenções. A mobilização massiva reuniu sindicatos de base (como a USB), estudantes (‘No Meloni Day’), agricultores e estivadores. Em Roma, a marcha principal decorreu de forma organizada, mas um pequeno grupo de manifestantes separou-se e entrou em confronto com a polícia, incendiando contentores e arremessando garrafas. As autoridades confirmaram oito detidos e entre 200 a 300 pessoas identificadas. O movimento USB instalou de seguida um acampamento de protesto com tendas junto ao Coliseu para manter a contestação. Turim foi um dos pontos mais críticos do país: junto ao edifício da Câmara Municipal, a polícia de choque bloqueou o avanço da multidão e recorreu ao uso de canhões de água para dispersar os manifestantes. Em Génova cerca de 15 mil pessoas — incluindo trabalhadores portuários e estudantes — invadiram e paralisaram o porto comercial. A greve cumpriu o objetivo de paralisar infraestruturas críticas durante 24 horas, provocando fortes perturbações e cancelamentos nos caminhos-de-ferro, aviação, transportes públicos locais e escolas em grandes centros urbanos como Milão, Bolonha e Nápoles. Uma nova greve geral marcada para Itália a 20 de novembro foi convocada pela CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), a maior federação sindical do país, para dar continuidade aos protestos.

 

Espanha

Em Espanha, o fim de semana ficou marcado pela antecipação da polícia, que ‘blindou’ algumas cidades na tentativa da prevenção de novos distúrbios, após o país ter sido assolado nos dias anteriores por uma vaga de altercações ligadas ao movimento juvenil ‘Blocus’. Diferentemente do cenário de forte violência e caos registado no fim de semana anterior em Barcelona – que na altura resultou em centenas de – desta vez um forte controlo policial desmotivou os manifestantes. Madrid, Barcelona, Valência e San Sebastián ativaram dispositivos de segurança excecionais (com a Catalunha a elevar o nível de alerta para quatro, o máximo). Centenas de estabelecimentos comerciais do centro histórico destas cidades protegeram as suas montras com taipais de madeira e vigas de metal para evitar saques. No sábado, a polícia catalã (Mossos d’Esquadra) e a Guardia Urbana realizaram uma operação preventiva no centro da capital catalã, identificando cerca de mil pessoas. Os manifestantes acabaram por retirar-se também de praças centrais noutras capitais, Madrid incluída. Por outro lado, o Tribunal de Valência decretou este sábado a prisão provisória sem fiança para dois detidos acusados de estarem ligados à organização das ações da Blocus e efetuaram detenções pontuais em Valência e na Catalunha. Recorde-se que os principais sindicatos do país (como a UGT, CCOO e CGT) convocaram uma greve geral nacional para 11 de novembro.

 

Albânia

Na Albânia, o fim-de-semana ficou marcado por uma escalada de violência em Tirana, com manifestantes a atacarem edifícios governamentais com cocktails ‘Molotov’ e a exigirem a demissão imediata do primeiro-ministro Edi Rama. O país enfrenta há várias semanas fortes protestos estudantis contra a corrupção, as debilidades no sistema de saúde e a falta de perspetivas para o futuro dos jovens. No entanto, a tensão atingiu o ponto de rutura após o governo aprovar, na quinta-feira, uma nova lei que pune com coimas pesadas (até 5.500 euros) qualquer cidadão que decida “permanecer numa multidão” violenta ou ocultar a sua identidade. No sábado, dezenas de manifestantes encapuzados cercaram o Ministério da Educação e outros edifícios governamentais, arremessando cocktails ‘Molotov’ e pedras contra as linhas da polícia, Houve vários focos de incêndio na capital. As forças de segurança responderam de forma musculada, utilizando gás lacrimogéneo, canhões de água e bastões para dispersar a multidão. Vários ativistas e estudantes foram detidos pelas autoridades, com os líderes estudantis a acusarem as forças policiais de recorrerem ao uso excessivo de força para conter uma contestação que consideram legítima. A revolta nas ruas está a ser amplificada pela crise política no Parlamento, onde os deputados da oposição chegaram a deflagrar engenhos de fumo e tochas durante as sessões parlamentares para boicotarem o governo e apoiar os protestos.

 

Outras geografias

Na Bélgica, apesar do apelo europeu à revolta jovem por parte da ‘Geração ‘ e dos estudantes, as ações em território belga foram muito contidas. O principal foco de mobilização do sábado ocorreu em Liège. Cerca de uma centena de pessoas protestaram contra as medidas de austeridade, o custo de vida e o novo governo (conhecido como coligação Arizona). A marcha provocou apenas perturbações temporárias na circulação do elétrico local, terminando de forma totalmente pacífica. Depois dos graves distúrbios das semanas anteriores, a capital belga esteve sob forte prevenção policial nas zonas habituais de protesto (como a zona da Bourse e a Estação de Midi).

Na Áustria, Viena registou manifestações massivas lideradas pela União Nacional de Estudantes Austríacos contra os cortes no orçamento universitário e o impacto do custo de vida, coincidindo com o prazo final do Orçamento de Estado (31 de outubro). O governo anunciou um orçamento de 16 mil milhões de euros para as universidades (período 2028–2030), um valor que os manifestantes dizem não compensar a inflação galopante e que forçará um corte de 10% no pessoal docente e entre os investigadores.

Na Grécia, os protestos em Atenas e noutras localidades foram centrados na exigência de aumentos salariais para combater a inflação extrema. Na sexta-feira, os estivadores e trabalhadores portuários realizaram uma greve de 24 horas. Juntamente com grupos de estudantes, os manifestantes marcharam pelas ruas da zona portuária carregando bandeiras e faixas contra a utilização de infraestruturas comerciais gregas para o transporte e envio de armamento militar.

Na Suíça, embora em menor escala comparativamente aos vizinhos europeus, registaram-se ações de protesto localizadas e forte aparato de segurança em Zurique e Basileia.

Na República Checa, Praga viveu o rescaldo de manifestações contra o governo de cinco dias antes. Os trabalhadores dos meios de comunicação públicos anunciaram que vão entrar em greve geral nesta terça-feira, 3 de novembro, com o apoio de sindicatos, reitores universitários e igrejas. Está já agendada uma manifestação na capital para o dia 15 de novembro, aproveitando as celebrações do aniversário da Revolução de Veludo de 1989.

Na Eslováquia: Bratislava e Kosice estiveram sob forte tensão política, com partidos de oposição a dividir-se na organização de novos protestos massivos agendados para meados de novembro.

Na Croácia, Zagreb esteve calma, mas em fase de planeamento e mobilização a grande marcha civil independente convocada para mais tarde. Dois movimentos distintos uniram esforços e anunciaram protestos coordenados em várias cidades croatas para os dias 20 e 21 de novembro.

Nos Países Baixos, os protestos centraram-se na cidade de Haia. O receio de tumultos fez com que os lojistas e grandes marcas no centro da cidade ficassem em alerta máximo, chegando a proteger e tapar as montras. Centenas de adeptos do clube de futebol local, o ADO Den Haag, juntaram-se e espalharam-se pelas ruas centrais da cidade, intitulando-se “força de defesa autónoma” com o objetivo explícito de impedir que os manifestantes destruíssem ou assaltassem o comércio local. Mesmo assim, registaram-se confrontos pontuais com as autoridades e incidentes em zonas periféricas da cidade, que resultaram em 34 detenções e alguns danos limitados em infraestruturas públicas. Amesterdão também reforçou o policiamento preventivo ao longo do fim-de-semana para evitar que a iniciativa de Haia alastrasse.

 

Conversa com von der Leyen

Entretanto, o Fórum Europeu da Juventude e os conselhos nacionais de juventude de 28 países solicitaram esta sexta-feira uma reunião urgente com a presidente da Comissão Europeia a propósito da onda de protestos em várias cidades. Numa carta dirigida a Ursula von der Leyen, citada pela agência Lusa, as organizações pedem que seja convocado o Conselho Consultivo da Juventude da presidente, em que estão representadas, com caráter de urgência, antes da reunião do Conselho Europeu, em 17 e 18 de dezembro.

No texto, os representantes dos jovens manifestam-se preocupados com a onda de protestos pela habitação e pela educação em várias cidades europeias. “Há uma diferença fundamental entre protesto pacífico e violência. Os jovens que marcham por melhores escolas, habitação acessível e voz sobre o seu futuro estão a exercer um direito”, lê-se na carta. As organizações condenam os episódios de violência, por parte de alguns manifestantes, como aconteceu recentemente em França, mas também por parte das autoridades na forma como respondem aos protestos.

A carta é assinada pelo Fórum Europeu da Juventude e por 30 organizações de 28 países, incluindo o Conselho Nacional de Juventude português. Em comunicado, os representantes dos jovens portugueses acrescentam que as organizações exigem ainda “que as restrições às manifestações não sirvam para calar os jovens e que os governos os protejam da violência e da detenção por motivos políticos“.