Mário Marques da Silva, Professor Universitário e Diretor do Departamento de Engenharias e Ciências da Computação, Universidade Autónoma de Lisboa

Inteligência Artificial em África: entre a oportunidade e o risco

África precisa de uma estratégia própria: uma “IA com sotaque africano”, desenhada com base na sua realidade e prioridades. É imperativo investir em ciência local, proteger os dados dos cidadãos e garantir que as tecnologias sejam inclusivas e acessíveis.

África é um continente jovem, em transformação e cheio de potencial. Com mais de metade da sua população com menos de 25 anos, trata-se de uma verdadeira bomba demográfica — um desafio, mas também uma oportunidade única para saltos qualitativos no desenvolvimento. Países como Nigéria, África do Sul, Egito, Quénia ou Gana estão a emergir como potências regionais, impulsionados por uma crescente classe média (a base das economias), investimentos em infraestruturas, agricultura e dinamismo tecnológico. No sentido inverso, alguns países africanos ainda continuam presos a conflitos, instabilidade política ou isolamento digital.

É neste contexto que a Inteligência Artificial (IA) surge como ferramenta promissora — ou ameaça. Nas zonas mais remotas, onde faltam médicos, a IA já permite diagnosticar doenças como malária ou tuberculose. No Ruanda, drones com IA efetuam entregas de medicamentos em tempo útil. No setor agrícola, aplicações móveis ajudam os agricultores a prever pragas, otimizar colheitas e gerir os solos. E no setor financeiro, sistemas baseados em IA estão a permitir acesso ao crédito a quem nunca passou por um banco.

A aplicação da IA em África pode dar frutos tanto no setor empresarial como no setor público. No setor privado, para além do empreendedorismo interno, o progresso passará por parcerias e investimentos externos, sejam oriundos do Ocidente, seja das economias emergentes como os BRICS, com grande influência na região. Já no setor público, o impacto da IA poderá ser profundamente transformador na redução das assimetrias.

Exemplos concretos incluem o diagnóstico assistido por IA em zonas sem médicos, o uso de chatbots de saúde em línguas locais, tutores virtuais para ensino ou formação adaptados a idiomas africanos, registos civis e eleitorais com biometria (fundamentais onde muitos cidadãos não têm identificação ou não sabem assinar), e sistemas de tradução automática em línguas como o Swahili, Hausa ou Zulu.

Em Angola, o potencial da IA permanece largamente por explorar, devido a limitações estruturais como o acesso desigual à internet, baixa digitalização dos serviços públicos e escassez de formação técnica, apesar de existirem iniciativas pontuais no setor financeiro e nas telecomunicações.

Apesar das potencialidades, a IA traz consigo riscos globais. O conceito de “singularidade”, em que a IA se torna mais inteligente do que os humanos e capaz de se autoaperfeiçoar, levanta preocupações éticas e existenciais. A crescente dependência tecnológica torna as empresas mais capital-intensivas, deixando para trás aquelas com menos recursos. Diferentemente das revoluções anteriores, a IA não apenas automatiza tarefas — começa a tomar decisões. E fá-lo com base em padrões, muitas vezes opacos, com impacto em vidas reais.

O controlo de redes sociais por sistemas de IA permite uma manipulação personalizada da informação, explorando emoções como o medo e o ódio. Neste novo paradigma, ganham relevância as soft skills — pensamento crítico, inteligência emocional, liderança, criatividade, comunicação, trabalho em equipa — pois quem não se adapta corre o risco de ser excluído.

A somar aos riscos gerais, os riscos da IA em África não podem ser ignorados. A fraca ou ausente proteção de dados em muitos países africanos levanta preocupações sérias sobre vigilância e manipulação. Apenas um terço da população africana tem acesso estável à Internet, o que aprofunda desigualdades. Pior: a maioria dos modelos de IA é treinada com dados ocidentais, sem sensibilidade cultural, linguística ou económica ao contexto africano.

Como alertou Geoffrey Hinton, um dos pais da IA moderna, estamos num ponto crítico: “99 pessoas inteligentes estão a tentar tornar a IA mais forte e apenas uma está a tentar travá-la”. Sem regulação adequada, a IA poderá amplificar assimetrias, manipular democracias e agravar desigualdades. Se a regulação em excesso pode representar um constrangimento económico, a sua total ausência pode colocar em causa direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos.

África precisa, mais do que nunca, de uma estratégia própria: uma “IA com sotaque africano”, desenhada com base na sua realidade e prioridades. Investir em ciência local, proteger os dados dos cidadãos e garantir que as tecnologias sejam inclusivas e acessíveis é imperativo. Se bem usada, a IA pode transformar África. Mal-usada, pode transformá-la num laboratório de injustiças algorítmicas.

Relacionado

Auditorias do fisco ao setor extrativo moçambicano apuram 137,4 milhões de euros

Auditorias do fisco ao setor extrativo moçambicano apuram 137,4 milhões de euros

Em comunicado sobre as atividades realizadas entre janeiro e 30 de setembro de 2026 no setor extrativo, a AT destaca resultados na fiscalização, arrecadação de receitas e acompanhamento das operações mineiras e petrolíferas, referindo que as auditorias efetuadas a empresas daquele setor permitiram apurar cerca de 10,2 mil milhões de meticais (137,4 milhões de euros).