Infraestruturas energéticas devem ser poupadas nos conflitos internacionais, pede ministra do Ambiente

Ataques a infraestruturas energéticas estão a colocar cada vez mais pressão no mercado internacional de energia. "Isto afeta toda a humanidade", diz Maria da Graça Carvalho.

Infraestruturas energéticas devem ser poupadas nos conflitos internacionais, pede ministra do Ambiente
Sara Matos/MAEN

As infraestruturas energéticas devem ser poupadas em cenários de guerra, defende a ministra do Ambiente e da Energia.

“É preocupante que continuem a atacar refinarias e a atacar infraestruturas da área da energia e de produção de gás, e refinarias de petróleo, de diesel, de jet fuel. Isso está a acontecer a toda hora, não só na região do Golfo Pérsico mas também na região da Rússia e na Ucrânia”, disse Maria da Graça Carvalho ao JE.

“Todos os efeitos somados, se durarem muitos meses, poderemos ter problemas, e daí os apelos que já alguns políticos fizeram, e espero que sejam ouvidos para que essas infraestruturas sejam de certo modo poupadas. Sei que é um ambiente de guerra, mas isto afeta toda a humanidade”, acrescentou a ministra que esteve reunida em Estrasburgo com a vice-presidente europeia Teresa Ribera para tratar de vários assuntos incluindo o armazenamento de energia em Portugal. O dossier da REN mereceu elogios por parte da alta responsável europeia, segundo a ministra.

Além dos riscos que os ataques acarretam para a escassez de combustíveis, o facto de haver menor disponibilidade também influencia em alta os preços nos mercados internacionais.

Os preços do petróleo voltaram a subir na terça-feira, com um ganho de 3% para mais de 108 dólares com o aumento da tensão no Médio Oriente. Já o gás na Europa recuou 3% para 80 euros/MWh.

No Médio Oriente, as exportações sauditas via porto de Yanbu continuam suspensas devido ao ataque ao pipeline ‘East-West’.

O ataque ao pipeline saudita arrisca tirar entre 230 e 360 milhões de barris do mercado, isto se ficar de fora de operação durante três meses.

A previsão é da consultora energética Rystad que sublinha que “este volume não pode ser substituído apenas por realocação” de petróleo nos mercados, isto é, ir buscar mais a outras origens.

Na Rússia, três das maiores produtoras de gasóleo foram forçadas a cortar ou reduzir a produção em setembro devido a ataques de drones ucranianos, segundo a “Reuters”.

O presidente Donald Trump apelou à Ucrânia para parar de atacar infraestruturas energéticas russas, considerando que a falta deste combustível está a “prejudicar o mundo”.

A Ucrânia sofre ataques regulares da Rússia à sua própria infraestrutura energética e considera as refinarias alvos legítimos.

A Rússia tem restringido as exportações de gasolina, gasóleo e jet fuel.

As exportações russas de gasóleo atingiram um milhão de toneladas métricas em junho. Um ano antes eram de 2,5 milhões de toneladas métricas, ou 3,3 milhões de toneladas, incluindo gasóleo de baixa qualidade. A Turquia e o Brasil estão entre os maiores compradores.

O mundo está em risco de perder mais petróleo: até 4% do fornecimento global, se o pipeline saudita não entrar em funcionamento nos próximos dias, segundo a “Reuters”.

O ataque ao pipeline saudita foi feito recorrendo a um drone e terá sido lançado do Iraque, numa nova frente de ataque à Arábia Saudita, juntando-se ao Irão e aos Houthis do Iémen.

O pipeline ‘East-West’ com 1.200km de comprimento tem a capacidade de transportar sete milhões de barris por dia e vai estar fechado durante três a cinco semanas para ser reparado.

O nível máximo da estimativa da Rystad equivale a quase quatro dias do consumo global. Se antes da guerra entre os EUA/Israel e o Irão, este volume seria facilmente substituído, a questão é que o mercado já se encontra apertado, com a tensão em níveis máximos no estreito de Ormuz.

Se a paragem atingir dois meses, entre 156 a 240 milhões de barris exportados através do porto saudita de Yanbu, no Mar Vermelho, ficarão foca do mercado.

Mas esta quantidade pode ser ultrapassada com a Ásia a recorrer a mais petróleo norte-americano, canadiano, brasileiro e de África ocidental. Já as refinarias europeias, iriam competir mais agressivamente por petróleo do Mar do Norte, do Azerbaijão, Líbia e outros produtores do Mediterrâneo.

Se o pipeline ficar fora de serviço durante um mês, entre 78 a 120 milhões de barris ficam de fora do baralho.

Comprar petróleo vai ficar mais caro e vai demorar mais tempo a chegar ao destino. Crude da América Latina e dos EUA seguiria para a Ásia, dando a volta a África, pelo Cabo da Boa Esperança. Já a Europa vai buscar mais petróleo na zona do Atlântico.

A consultora estima que existam 24 milhões de barris em stock no porto de Yanbu, o equivalente a uma semana de exportações a partir deste ponto.

“Sem maior clareza sobre de onde virão os barris de substituição, não vamos ficar surpreendidoa em ver os preços a subir no curto prazo”, disse Janiv Shah da Rystad.

A nova subida do petróleo junta-se à inflação que volta a subir, aumento das taxas de juros na Zona Euro e, provavelmente, nos EUA, e subidas das ‘yields’ das obrigações soberanas, que já se encontram no nível mais elevado desde a crise financeira de 2008. Depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter aumentado a taxa de juro de referência na semana passada, os analistas esperam que a Reserva Federal norte-americana aumente as suas taxas esta semana.

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