Um estudo recente da KPMG sobre o impacto da Inteligência Artifical no governo corporativo das empresas, para além de demonstrar uma expectativa ainda minimalista do seu potencial, ainda muito centrado na eficiência das operações, realça também o impacto significativo da inteligência artificial (IA) no governo corporativo.
Apesar da crescente adoção de IA, muitas organizações ainda não implementaram práticas robustas de governo corporativo que permitam a operacionalização e supervisão da IA, fator essencial para a mitigação dos principais riscos identificados nomeadamente a qualidade de dados, o potencial enviesamento dos algoritmos, a privacidade, as ameaças cibernéticas, entre outros. A inexistência de um framework de adopção de IA, associado ao insuficiente conhecimento e formação dos executivos de topo na gestão da IA assumem-se como um dos importantes desafios na execução e supervisão estratégica.
A maximização do potencial da IA na transformação dos negócios, exige que as empresas se foquem nas atividades de alto valor acrescentado, potenciando a competência, a inovação e a geração de valor para os clientes e restantes stakeholders. A escassez de talento é um desafio crítico, especialmente no campo da IA. As empresas devem garantir que o talento disponível está focado nas atividades de alto valor acrescentado, externalizando e criando parcerias que permitam a utilização de recursos especializados e economias de escala, em atividades non-core, cujos níveis de competência, especialização e escala são improváveis de alcançar internamente.
Investir no desenvolvimento e retenção de profissionais qualificados em IA é essencial para maximizar a IA nas atividades de elevado valor. A escassez de talento qualificado pode limitar a capacidade das empresas de implementar e gerir eficazmente as soluções de IA, tornando ainda mais crucial a sua alocação estratégica em funções de maior valor, potenciando um ecossistema colaborativo entre os diversos parceiros e alianças.
A estratégia de cloud é outra das componentes essenciais desta abordagem, proporcionando a infraestrutura necessária para suportar a IA e a análise de grandes volumes de dados, potenciando a escalabilidade e a flexibilidade, libertando as empresas das limitações inerentes às suas infraestruturas físicas, incrementando a cibersegurança.
Adicionalmente, os Conselhos de Administração terão de rever os processos de governo e supervisão, preparando-se para processos de decisão mais imediatos e muitas vezes previamente tomados por IA, cuja monitorização contínua será um fator decisivo para o bom governo das organizações. Para tal, fortalecer as estruturas de auditoria e controlo, especialmente na componente preventiva e preditiva, é crucial para mitigar riscos e garantir o sucesso da adoção da IA.
Em resumo, a maximização do potencial da IA nas empresas, recomenda que os órgãos de governo societário revejam profundamente as suas políticas, incorporando uma mudança significativa na vida das empresas, que impactará desde a cultura, à organização das operações, à capacidade de geração de valor e sobretudo às pessoas. Citando H. Jackson Brown Jr., a oportunidade dança com aqueles que já estão na pista de dança, urge que o nosso tecido empresarial não perca mais tempo para que a IA seja uma enorme oportunidade.
A coluna Boa Governança tem periodicidade quinzenal e resulta de uma parceria editorial entre o JE e o Instituto Português de Corporate Governance.