Coface lembra que uma derrota republicana nas intercalares não vai travar Trump no comércio e na política externa

A um dia das eleições intercalares nos Estados Unidos, a Coface antecipa um cenário de bloqueio político em Washington, com os Democratas favoritos para reconquistar o controlo da Câmara dos Representantes. No Senado, onde estão em jogo 35 lugares, a disputa deverá ser mais renhida, embora uma maioria democrata tangencial seja agora vista como o cenário mais provável pela Coface.

Coface lembra que uma derrota republicana nas intercalares não vai travar Trump no comércio e na política externa
10 - Estados Unidos

A um dia das eleições intercalares nos Estados Unidos, a Coface antecipa um cenário de bloqueio político em Washington, com os Democratas favoritos para reconquistar o controlo da Câmara dos Representantes. No Senado, onde estão em jogo 35 lugares, a disputa deverá ser mais renhida, embora uma maioria democrata tangencial seja agora vista como o cenário mais provável pela Coface.

De acordo com a análise da seguradora de crédito, que prevê um crescimento de 2,1% para a economia norte-americana em 2026 e de 1,9% em 2027, uma mudança no controlo do Congresso, mesmo que apenas na Câmara, onde estão em disputa os 435 lugares, limitaria fortemente a capacidade de Donald Trump para avançar com grandes reformas nos dois últimos anos do mandato. Ainda assim, o controlo do Congresso não permitiria aos Democratas legislar sozinhos, uma vez que qualquer proposta continuaria sujeita a veto presidencial, a menos que reúna uma maioria de dois terços em ambas as câmaras, um cenário considerado improvável.

Este impasse poderá ter consequências económicas diretas. A Coface recorda que o teto da dívida norte-americana, elevado para cerca de 41,1 mil milhões de dólares em julho de 2025, deverá ser atingido em 2027 e vai exigir nova votação no Congresso. Um bloqueio prolongado em torno deste limite, ainda que improvável dado o interesse de ambos os partidos em evitá-lo, poderá desencadear um incumprimento técnico acidental, com impacto nas taxas de juro da dívida pública, já próximas dos 5% nas obrigações a 10 anos, e no custo do crédito para empresas e famílias.

Para a Coface, o bloqueio interno não significa, no entanto, uma presidência neutralizada. A Casa Branca manterá uma ampla margem de manobra em matéria de comércio e política externa, mesmo num cenário de Congresso totalmente controlado pelos Democratas. A maior preocupação prende-se com a política tarifária, área em que Trump dispõe atualmente de poderes substanciais. Está em curso uma investigação ao abrigo da Secção 301 que visa 16 grandes parceiros comerciais acusados de manterem capacidade industrial excedentária, cujo âmbito e produtos afetados ainda não são conhecidos.

As relações com a China estarão também no centro das atenções, com o fim da trégua tarifária acordada em outubro de 2025 marcado para 10 de janeiro de 2027. Já no caso da União Europeia, os diferendos recorrentes em dossiers como a Ucrânia, os serviços digitais e a Gronelândia sugerem que Bruxelas poderá estar entre os principais alvos. O Presidente chegou mesmo a ameaçar abrir uma investigação em resposta à coima de 890 milhões de euros aplicada pela UE à Google.

Como explica Marcos Carias, economista da Coface para a América do Norte, as eleições intercalares poderão produzir um paradoxo: limitar Donald Trump na política interna sem reduzir, na mesma medida, a sua capacidade de ação internacional. O risco não é, por isso, tanto o de um Trump paralisado, mas sim o de um presidente que concentra os seus esforços nas áreas onde o Congresso tem menos influência, o comércio e a política externa, com risco de novas escaladas.

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