Apesar do muito que, felizmente, fomos avançando no nosso país em matéria de proteção e bem-estar animal, há um flagelo que se repete nesta altura do ano, em que muitos de nós se preparam para ir de férias, e que assume maior dimensão: o abandono dos animais de companhia.
Em Portugal mais de 50% dos lares detém animais de companhia. Sendo evidente a importância que os animais têm hoje na nossa sociedade e no seio familiar, muitas vezes, a única companhia e fonte de afeto de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Contudo, o abandono de animais de companhia continua a não dar tréguas, apesar de ser hoje crime previsto no Código Penal. Se durante a pandemia os animais foram procurados e adotados para companhia, os tempos que se seguiram não foram bonitos… O número de animais abandonados piorou após a pandemia e, mais recentemente, com a crise socioeconómica e inflacionária.
O último relatório anual disponível com os dados comunicados pelos centros de recolha oficial de animais, referente a 2021, dá nota de 43.603 animais recolhidos, mais 40% do que no ano anterior – cerca de 119 por dia –, não contabilizando os que são diariamente recolhidos por associações de proteção animal e que fariam disparar este número.
Para a agudização do abandono de animais de companhia muito contribuiu o aumento da inflação e as dificuldades das famílias em fazer face ao aumento do custo de vida: no final do ano de 2022, a alimentação para estes animais estava 21% mais cara do que no ano anterior, com a agravante de os cuidados médico-veterinários terem um custo equiparado a serviços de luxo. E nem assim a maioria socialista no Parlamento deixou de rejeitar toda e qualquer proposta com vista à redução do IVA deste tipo de produtos e serviços.
Chegados ao verão os detentores de animais de companhia embatem igualmente com a falta de locais de férias que aceitem os seus companheiros de quatro patas. Muitos são abandonados nas ruas, às portas de canis ou associações, nas autoestradas – onde terão uma morte praticamente certa.
É imperioso uma sociedade mais consciente de que o abandono é um ato cruel e degradante, para além de ser crime e reforçar as ações de prevenção. Por isso mesmo, propusemos a criação do programa “Aqui combatemos o abandono animal”, que facilite o acesso dos animais a locais como unidades hoteleiras, parques de campismo e outros, assim como de campanhas de sensibilização de âmbito nacional. Porque só todos juntos, enquanto sociedade, poderemos construir um país mais amigo dos animais.