Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

A longa guerra

Olhando para todos os intervenientes, não é do interesse de nenhuma das partes que a guerra acabe rapidamente.

A Rússia não está interessada em parar. Os objetivos não estão cumpridos e o regime de Putin tem de mostrar, para fora e para dentro, que realmente ainda é uma superpotência.

Cada vez mais acantonada, pressionada e descapitalizada, a Rússia, vulgo o seu regime, poderá equacionar uma fuga para a frente se o stresse de guerra se tornar insuportável. Moscovo sabe que nada será como dantes e vive um dilema de “matar ou morrer”.

À Ucrânia não resta senão combater. Conseguida a proeza de tornar a guerra longa, depara-se agora com o pesadelo de isso significar um longo calvário.

O Ocidente continuará a ajudar, mas só na justa medida, sem colocar homens no terreno nem uma força verdadeiramente decisiva. Zelensky terá que continuar a lutar pela sua sobrevivência e da nação. Desistir não é uma opção.

Depois da Covid-19, a União Europeia (UE) encontrou neste conflito uma nova prova de vida e uma oportunidade de aglutinação de políticas e de vontades. A atitude da União neste conflito, que é coerente com os seus valores e ADN, é uma jogada de all-in.

Um desalinhamento dos Estados-membros neste tema significaria, provavelmente, o fim da UE. Portanto, mudar de rumo é inconcebível e isso implica uma guerra longa.

Os EUA são, provavelmente, quem tem mais a ganhar. Esta guerra constitui a hipótese de se reafirmarem como a maior potência, de encontraram um mercado amplo e duradouro para o seu gás de xisto e ainda podem enfraquecer um concorrente histórico.

Aos EUA interessa uma guerra longa, de desgaste diário dos russos nas frentes económica, política e militar. É do seu interesse prolongar ao máximo esta guerra, pelo menos até às eleições de novembro.

O papel da China tem sido menos discutido. Sempre com um discurso crítico em relação ao Ocidente, e aos EUA em particular, Pequim também está interessada em enfraquecer a Rússia e cobiça os despojos de uma hecatombe em Moscovo, enquanto aproveita a sua posição negocial na energia e matérias-primas.

A China não tem aliados e muito menos seria a Rússia, pelo que nada fará para abrandar este conflito.

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