Há uma pergunta que ouço, de diferentes formas, em muitas das conversas que tenho com clientes, investidores e parceiros: será este um bom momento para comprar casa? Para o comprador de luxo, acredito que a questão relevante já não é apenas essa. É perceber que propriedades continuarão a ter valor daqui a dez ou vinte anos.
Esta mudança resume bem o novo racional que estamos a observar no mercado. Em vez de uma decisão condicionada pelo ciclo económico ou pela incerteza do momento, o comprador com elevado poder de compra adota uma perspetiva cada vez mais estratégica e de longo prazo. Analisa o que compra, onde compra e, sobretudo, que características permitirão que essa propriedade continue a ser atrativa no futuro.
Esta evolução é particularmente visível na Península Ibérica. Portugal e Espanha consolidaram-se como destinos de referência para compradores internacionais de imóveis de luxo, graças a uma combinação difícil de replicar: qualidade de vida, segurança, clima, oferta cultural, boas infraestruturas e propriedades singulares em algumas das localizações mais desejadas da Europa. Mais do que responder a uma circunstância concreta, esta procura reflete a atratividade estrutural de ambos os mercados para viver e investir.
O próprio comprador também evoluiu. É mais seletivo e dedica mais tempo a analisar cada decisão. Já não procura apenas uma boa morada, nem se deixa guiar por determinados códigos tradicionais de luxo. Procura uma propriedade capaz de combinar qualidade de vida e valor a longo prazo. Por outras palavras, pensa menos no ciclo imediato e mais naquilo que continuará a ser relevante dentro de uma década.
Esta evolução está também a transformar a forma como entendemos o luxo. O denominado quiet luxury reflete parte desta mudança: privacidade, eficiência, qualidade construtiva e autenticidade pesam hoje mais do que determinados elementos tradicionalmente associados à ostentação. Aquilo que contribui para manter o valor de uma propriedade também está a mudar.
Mas há um fator que permanece: a exclusividade. Uma propriedade excecional no centro de Lisboa não pode multiplicar-se. Tal como uma moradia numa localização privilegiada em Cascais ou uma propriedade singular na Quinta do Lago. São ativos cuja principal força reside precisamente naquilo que é difícil, ou mesmo impossível, reproduzir.
No mercado de luxo, esta escassez assume uma importância particular. As melhores localizações têm necessariamente uma oferta limitada e determinados imóveis reúnem características, pela sua arquitetura, vistas, dimensão, privacidade ou envolvente, que dificilmente encontram equivalente. Num mercado global em que o comprador pode comparar propriedades em diferentes países, aquilo que é verdadeiramente singular tem uma capacidade particular para continuar a despertar interesse.
Isto não significa que o segmento premium seja imune aos ciclos económicos, nem que qualquer propriedade de luxo constitua necessariamente um bom investimento. Precisamente por isso, a seleção do ativo é cada vez mais importante. Em determinados perfis existe uma menor dependência do financiamento e a procura tem uma forte componente internacional, mas a qualidade, a localização e a singularidade continuam a marcar a diferença entre propriedades que, à primeira vista, poderiam pertencer ao mesmo segmento.
Comprar bem exige, por isso, perguntar não apenas o que torna uma propriedade atrativa hoje, mas também o que continuará a torná-la desejável daqui a dez ou quinze anos. Uma localização consolidada, uma arquitetura de qualidade, a eficiência energética, a privacidade ou uma oferta limitada são atributos que podem contribuir para manter essa atratividade ao longo do tempo.
E aqui importa distinguir entre preço e valor. O preço responde a um determinado momento do mercado. O valor incorpora uma perspetiva mais ampla: o que torna uma propriedade diferente, quanta oferta comparável existe e até que ponto continuará a responder àquilo que os compradores procuram no futuro.
Esta é, para mim, a verdadeira dimensão estratégica da compra de uma propriedade de luxo. Não se trata de ignorar o contexto económico, nem de assumir que o mercado evoluirá sempre na mesma direção. Trata-se de olhar para além da conjuntura e compreender que, quando falamos de propriedades excecionais, a decisão não deve basear-se apenas no momento da compra, mas na qualidade do ativo que se está a adquirir.
O comprador de luxo passou, em grande medida, de perguntar “será este o momento certo?” para perguntar “continuará a ser excecional daqui a vinte anos?”. Esta mudança, da reação para a estratégia, é provavelmente uma das transformações mais relevantes que estamos a observar no mercado. Porque o verdadeiro valor não reside simplesmente em adquirir uma propriedade de luxo, mas em saber reconhecer hoje aquilo que continuará a ser difícil de replicar amanhã.