A construção sustentável deixou de ser uma tendência para passar a ser uma necessidade, mas Portugal ainda tem uma distância considerável entre aquilo que já sabe fazer e o que efetivamente faz. Para Asier Amorena, CEO da Saint-Gobain Portugal, a eficiência dos edifícios terá de ser pensada de forma integrada, do isolamento aos sistemas AVAC, passando pelo carbono incorporado dos materiais. E há desperdícios que continuam praticamente invisíveis, mas que podem custar milhares de euros por ano.
A construção sustentável está a deixar de ser uma questão de futuro para se tornar uma exigência do presente. Em Portugal, a pressão da regulamentação europeia, as metas de descarbonização e uma maior consciência dos promotores e investidores estão a acelerar a transformação do setor. Mas, apesar dos avanços, continua a existir um fosso entre o que é tecnicamente possível e o que chega efetivamente às obras.
A conclusão é de Asier Amorena, que considera que o país reúne condições para assumir uma posição de referência na construção sustentável, embora ainda tenha “caminho a percorrer”. O responsável aponta sobretudo para o parque edificado existente, grande parte do qual foi construído antes das atuais exigências de eficiência energética, com problemas de isolamento, consumos elevados e sistemas técnicos pouco eficientes.
“Hoje, a sustentabilidade já não pode ser avaliada apenas pela eficiência energética durante a utilização do edifício”, afirma. A análise, defende, tem de abranger todo o ciclo de vida: dos materiais utilizados ao carbono incorporado, passando pela circularidade, qualidade do ar interior e conforto térmico e acústico.

Construir melhor sem tornar a habitação ainda mais cara
O desafio é particularmente complexo num setor pressionado em várias frentes: é preciso construir mais habitação e infraestruturas, acelerar a reabilitação e, simultaneamente, reduzir a pegada ambiental dos edifícios. Tudo isto num contexto de escassez de mão de obra qualificada.
Para Amorena, a sustentabilidade não pode, contudo, ser analisada apenas à luz do investimento inicial. Algumas soluções podem representar um acréscimo de 5% a 10% face a uma construção convencional, admite. Mas essa diferença pode ser compensada pelos menores custos de exploração ao longo das décadas de utilização do edifício.
“Mais do que perguntar quanto custa construir de forma sustentável, importa perguntar quanto custa não o fazer”, resume.
Um dos exemplos apontados pelo responsável está nos sistemas de climatização. Segundo um estudo técnico desenvolvido pela Saint-Gobain, as perdas energéticas associadas a sistemas AVAC pouco eficientes podem ultrapassar os 7.000 kWh anuais num edifício de serviços com 200 metros quadrados. A empresa estima que isso possa representar cerca de 1.055 euros por ano. Com soluções de maior estanquidade, as perdas poderiam baixar para aproximadamente 330 kWh, equivalentes a cerca de 50 euros anuais.
É uma diferença que, isoladamente, pode parecer um detalhe técnico. Multiplicada por anos de utilização e por milhares de edifícios, deixa de o ser.
O desperdício que não se vê
É precisamente nos sistemas de distribuição de ar que Amorena identifica uma das “zonas invisíveis” da eficiência energética. Ao contrário de uma janela pouco eficiente ou de uma fachada mal isolada, uma fuga numa conduta dificilmente é percetível para quem utiliza o edifício.
“Porque são, na maioria dos casos, perdas invisíveis”, explica. O problema é que a invisibilidade não significa irrelevância: as fugas de ar podem traduzir-se em mais energia consumida, maiores custos de operação e emissões desnecessárias.
O responsável defende, por isso, uma abordagem integrada. Isolamento, equipamentos AVAC, ventilação, iluminação, envolvente e gestão técnica não devem ser analisados como peças independentes, mas como componentes de um mesmo sistema.
É também neste contexto que a formação ganha importância. Projetistas, instaladores, construtores e gestores de edifícios terão de estar preparados para especificar e executar soluções de maior desempenho. “Ainda existe uma tendência para otimizar elementos isolados”, admite Amorena, quando o verdadeiro ganho está na forma como todos os sistemas funcionam em conjunto.
Reabilitar o que já existe é a grande oportunidade
Se Portugal quiser acelerar a descarbonização dos edifícios, a reabilitação do parque existente será inevitável. O país tem uma parte significativa do seu edificado construída antes das atuais regras de eficiência energética, o que abre uma frente de intervenção de grande dimensão.
Melhorar o isolamento, substituir sistemas de climatização, reduzir perdas na distribuição de ar e aumentar a qualidade das instalações são algumas das medidas que podem produzir resultados. Mas, para o CEO da Saint-Gobain Portugal, será igualmente necessário reforçar os incentivos à reabilitação energética e garantir uma aplicação consistente das exigências regulamentares.
A regulamentação, contudo, não chega por si só. “É necessária uma combinação” de regulamentação, fiscalização e sensibilização, considera. A revisão da Diretiva Europeia sobre o Desempenho Energético dos Edifícios deverá elevar ainda mais os níveis de exigência, mas a eficácia das regras dependerá também da sua aplicação em obra.
BIM, inteligência artificial e construção mais leve
O setor está, entretanto, a entrar numa nova fase marcada pela digitalização e industrialização. A utilização de BIM, inteligência artificial no projeto e operação dos edifícios, pré-fabricação e monitorização permanente do desempenho energético deverá ganhar peso nos próximos anos.
A construção leve é outra das tendências identificadas por Amorena, sobretudo pela capacidade de combinar produtividade, eficiência e sustentabilidade. O sistema Enveo, desenvolvido pela Saint-Gobain e que integra soluções das marcas Isover, Placo® e Weber, é apresentado pela empresa como um exemplo desta abordagem.
Segundo os dados fornecidos pela Saint-Gobain, a solução pode reduzir cerca de 40% o tempo de execução e até 70% da logística em obra.
A descarbonização terá também de deixar de olhar apenas para o consumo energético durante a utilização dos edifícios. O carbono incorporado nos materiais deverá ganhar cada vez maior importância, assim como a reutilização, reciclagem e circularidade.

Eficiência energética já pesa nas decisões dos investidores
A eficiência energética está também a ganhar peso económico. Promotores imobiliários e investidores começam a olhar para o desempenho energético como um fator de valorização dos ativos e não apenas como uma obrigação ambiental.
“Os promotores imobiliários reconhecem cada vez mais que edifícios energeticamente eficientes apresentam maior valorização no mercado, menores custos de exploração e maior atratividade para investidores, empresas e utilizadores finais”, afirma Amorena.
A lógica ESG está a contribuir para esta mudança, mas a questão central continua a ser demonstrar o retorno do investimento. Um edifício mais eficiente pode exigir mais capital no início, mas deverá consumir menos energia, exigir menos manutenção e oferecer melhores condições de conforto durante a sua vida útil.
É a lógica do custo total do ciclo de vida — e uma mudança de paradigma que o setor ainda está a incorporar.
Portugal como laboratório de inovação
Apesar da dimensão relativamente pequena do mercado português, Amorena considera que Portugal tem uma importância estratégica para o grupo Saint-Gobain. A operação nacional conta com sete unidades de produção, mais de 600 colaboradores e um centro de investigação e desenvolvimento em Aveiro.
O centro de I&D trabalha em materiais de construção, eficiência energética, sustentabilidade, processos industriais e economia circular, em colaboração com universidades, centros tecnológicos e equipas internacionais do grupo.
“Portugal não é apenas um mercado onde as soluções são comercializadas, mas também um polo de conhecimento que contribui para a evolução tecnológica do Grupo”, sublinha.
A aposta enquadra-se numa estratégia global mais ampla. Segundo os dados apresentados pela empresa, o plano estratégico Lead & Grow 2026-2030 prevê cerca de 12 mil milhões de euros em investimento e aquisições até 2030, com o objetivo de acelerar o crescimento e reforçar a oferta de soluções para a construção sustentável.
A Saint-Gobain afirma ainda que cerca de 75% das suas vendas já correspondem a soluções consideradas sustentáveis. Desde 2017, o grupo terá reduzido em 34% as suas emissões de CO₂ e mantém o objetivo de atingir uma redução entre 40% e 45% até 2035, com neutralidade carbónica prevista para 2050.
No fim, a questão é menos tecnológica do que parece. Muitas das soluções para reduzir consumos, emissões e custos já existem. O desafio está em colocá-las no projeto, na obra e, sobretudo, nas decisões de investimento.
E, como lembra o CEO da Saint-Gobain Portugal, talvez a pergunta mais incómoda para o setor não seja quanto custa construir melhor. Seja mesmo quanto custa continuar a construir sem o fazer.