A Volkswagen deixou esta segunda-feira, 21 de setembro, o Euro Stoxx 50, o principal índice de blue chips da zona euro, 15 anos e dois dias depois de ter entrado. É reflexo das dificuldades da indústria europeia, especialmente dos construtores automóveis, quando o grupo alemão está a fazer uma das maiores reestruturações da sua história.
A saída resulta da matemática do índice. O Euro Stoxx 50 reúne 50 das maiores empresas de 20 setores da zona euro, considerando a capitalização bolsista ajustada ao capital disperso em bolsa, o chamado free float. Na revisão anual, as 40 maiores empresas da lista de seleção entram diretamente; para os restantes 10 lugares existe uma zona de proteção para os atuais constituintes que permaneçam entre os lugares 41 e 60. A Volkswagen deixou de passar esse teste.
No final de agosto, a linha de ações preferenciais que integrava o índice valia cerca de 16 mil milhões de euros, praticamente o valor da menor capitalização em free float entre os 50 constituintes naquele momento.
O grupo germânico sai juntamente com a neerlandesa Wolters Kluwer. Entram a francesa Engie, do setor da energia, e a finlandesa Nokia, recuperada. A decisão foi anunciada a 1 de setembro e tornou-se efetiva esta segunda-feira, 21 de setembro.
Isto tem consequências, porque o Euro Stoxx 50 serve de referência a cerca de 59 mil milhões de euros aplicados em fundos cotados em bolsa (ETF) e está subjacente a mais de 110 mil produtos estruturados. Os fundos que replicam fisicamente o índice têm agora de ajustar as carteiras e vender a Volkswagen. Com uma ponderação próxima de 0,4% antes da saída, a ordem de grandeza da exposição dos ETF ao título poderia ultrapassar 200 milhões de euros. É mais um fator de pressão.
As ações preferenciais da Volkswagen estão mais de 75% abaixo do máximo atingido em 2021 e regressaram a níveis que não eram vistos há cerca de 16 anos. Só no último ano, a cotação desceu da zona dos 90 euros para perto dos 76 euros. O valor bolsista de todo o grupo ronda agora 38 mil milhões de euros, depois de ter ultrapassado largamente os 100 mil milhões no auge de 2021.
A Volkswagen continua a ser um dos maiores construtores automóveis do mundo, mas o mercado deixou de lhe atribuir uma avaliação compatível com essa escala industrial. O grupo espera faturar cerca de 315 mil milhões de euros este ano. Em bolsa vale apenas cerca de 0,12 vezes esse montante.
A perda de terreno na China, a concorrência dos fabricantes chineses, sobretudo nos veículos elétricos, os custos elevados na Alemanha, os atrasos no software e a dificuldade em recuperar margens numa indústria que está a investir milhares de milhões na transição tecnológica têm pesado para a avaliação dos investidores, e explicam o desconto.
Na sexta-feira, o quadro voltou a piorar. A Volkswagen reduziu a previsão para a margem operacional de 2026 para um máximo de 1%, contra os 4% a 5,5% anteriormente previstos, e antecipou cerca de 10 mil milhões de euros de efeitos extraordinários sobre os resultados. Entre eles estão uma imparidade sobre a Porsche AG, custos adicionais de reestruturação e o impacto de um mercado particularmente difícil na China.
A resposta passa por uma redução estrutural dos custos e da capacidade. O novo plano aprovado pelo conselho de supervisão prevê mais cerca de 50 mil saídas em funções indiretas, aproximadamente metade na Alemanha e metade no estrangeiro, que se somam aos programas já acordados na Volkswagen, Audi, Porsche e Cariad. No conjunto, os diferentes programas colocam a redução de postos de trabalho na ordem dos 100 mil. O grupo prevê ainda reduzir até 50% o número de modelos e em 75% a complexidade da oferta.
“Todo o setor está em baixa, dadas as ameaças aparentemente existenciais que enfrenta”, afirmou ao “Financial Times” Michael Tyndall, analista da HSBC. O problema não é apenas da Volkswagen. Em 2025, a Stellantis já tinha sido retirada do Euro Stoxx 50, numa revisão em que entraram Deutsche Bank e Siemens Energy. Um ano depois sai a Volkswagen.
A Volkswagen tinha entrado no Euro Stoxx 50 em 19 de setembro de 2011, através das ações preferenciais, substituindo a Alstom.
Com esta saída, restam apenas três construtores automóveis entre as 50 maiores blue chips da zona euro: Ferrari, Mercedes-Benz e BMW.