Naiole Cohen, Economista, Professora na Universidade Agostinho Neto, Luanda

Uma carta ao Futuro

Sei que as Áfricas não contam muito neste novo jogo geoestratégico global, e são apenas o cenário, nunca o argumento. Ainda assim, lá estará uma das maiores riquezas do planeta, uma juventude vibrante, resiliente, cheia de potencial e sobretudo futuros consumidores.

Querido Futuro, espero que estejas bem e preparado para mais 365 dias de renovada esperança, coragem e energia positiva. Sei que no calendário, foi apenas uma simples passagem de quarta para quinta-feira, mas há momentos simbólicos que nos recordam da nossa capacidade colectiva de acreditar, recomeçar e imaginar caminhos melhores. É essa força invisível que nos faz desejar saúde, felicidades, o calar das armas na Europa, no Médio Oriente e nas Áfricas, sonhar com menos fome no mundo e, acima de tudo, confiar no crescimento do bom senso, da empatia e da cooperação entre os povos.

Querido Futuro, escolho acreditar que os investimentos anunciados de 5% em armamento serão para combater as alterações climáticas para proteger o que é verdadeiramente essencial, a vida, o planeta e a dignidade humana. Que esses recursos contribuam para enfrentar a fome e pobreza, fortalecer a resiliência das sociedades e acelerar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Que a inovação, a ciência e a diplomacia ganhem espaço, tornando a paz o maior e mais valioso investimento de todos.

Porque não acredito, Futuro, que queiras mais armas para matar em praias, escolas ou bairros periféricos e muito menos por causa de minerais críticos aqui algures nas Áfricas entre o Ruanda e a República Democrática do Congo. Isso seria… olhar o passado. Não acredito, Futuro, que o teu caminho esteja associado à violência, a perda de vidas inocentes ou a exploração desenfreada de dinheiro, triliões. Prefiro imaginar um tempo em que os minerais críticos das Áfricas e de tantos outros territórios sejam fontes de desenvolvimento partilhado (como falaram no Summit EU-AO, justiça económica e prosperidade local, e não motivos de conflito.

Eu sei, querido Futuro, que as Áfricas não contam muito pois aparecem sub-representadas neste novo jogo geoestratégico global, e são apenas o cenário, nunca o argumento. Ainda assim, lá estará uma das maiores riquezas do planeta, uma juventude vibrante, criativa, resiliente, cheia de potencial e sobretudo futuros consumidores. Porque se não forem cidadãos, que sejam pelo menos mercados. É reconfortante saber que, mesmo esquecidos nas cimeiras, seja importante serem lembrados nas projeções de crescimento.

Quero acreditar, querido Futuro, que o teu olhar será positivamente impactante, inclusivo, humano, mas caso não… voltarei a escrever-te outra carta. Com esperança, sigo contigo.

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