Marcus Vinícius De Freitas, Professor Visitante, China Foreign Affairs University e Senior Fellow, Policy Center for the New South

Talento, conhecimento e poder no século XXI

A pergunta estratégica para Portugal não deveria ser apenas como atrair mais investimento estrangeiro. A questão mais importante é como transformar o país em um dos destinos mais desejados do mundo para cientistas, pesquisadores, empreendedores e profissionais altamente qualificados.

Enquanto muitos países ainda disputam investimentos, os mais visionários já disputam cérebros. Durante grande parte da história moderna, a prosperidade das nações esteve associada ao controle de recursos estratégicos. No século XIX, o carvão impulsionou a Revolução Industrial. No século XX, o petróleo tornou-se o combustível da economia global. Hoje, porém, o recurso mais valioso não está no subsolo nem pode ser transportado por navios ou por oleodutos. O ativo estratégico mais importante do século XXI é o talento humano.

A ascensão da inteligência artificial, da computação quântica, da biotecnologia e de outras tecnologias avançadas está alterando profundamente a natureza da competição internacional. A riqueza das nações dependerá cada vez menos da abundância de recursos naturais e cada vez mais da capacidade de formar, atrair e reter cientistas, engenheiros, pesquisadores, programadores e empreendedores. O conhecimento tornou-se a matéria-prima fundamental da nova economia.

Apesar disso, muitos governos continuam concentrando seus esforços na atração de investimentos estrangeiros, novas indústrias, centros logísticos e sedes corporativas. Tudo isso continua sendo importante. Contudo, poucos percebem que o investimento mais valioso não é o financeiro. É o humano.

A experiência chinesa oferece uma lição particularmente relevante. Ao longo das últimas décadas, a China não procurou transformar todas as suas regiões em polos de excelência em todas as áreas. Em vez disso, identificou vocações estratégicas e construiu ecossistemas especializados. Shenzhen tornou-se um centro global de tecnologia e manufatura avançada. Hangzhou consolidou-se como referência em economia digital. Hefei emergiu como um polo de pesquisa científica de ponta. Chengdu e Chongqing passaram a desempenhar um papel crescente na atração de talentos e investimentos para o interior do país. Em comum, todas essas experiências compartilham uma visão de longo prazo capaz de alinhar universidades, infraestrutura, pesquisa, inovação e desenvolvimento económico.

A competição global já não ocorre apenas entre países. Ela acontece entre ecossistemas de conhecimento. Universidades, centros de pesquisa, empresas inovadoras, investidores e infraestrutura digital formam ambientes capazes de atrair os melhores cérebros do mundo. O sucesso do Vale do Silício, de Boston, de Singapura ou de Shenzhen não resulta apenas da disponibilidade de capital, mas da concentração de conhecimento, oportunidades e capacidade de inovação.

Nesse contexto, Portugal possui vantagens raramente exploradas em todo o seu potencial. O país combina estabilidade política, segurança, qualidade de vida, acesso ao mercado europeu e uma posição singular de conexão com o Brasil, a África lusófona e outras regiões do mundo. Poucos países conseguem oferecer simultaneamente uma porta de entrada para a União Europeia e uma rede histórica, cultural e linguística distribuída por quatro continentes.

A pergunta estratégica para Portugal não deveria ser apenas como atrair mais investimento estrangeiro. A questão mais importante é como transformar o país em um dos destinos mais desejados do mundo para cientistas, pesquisadores, empreendedores e profissionais altamente qualificados. Nenhum país consegue liderar todos os setores. Mas aqueles que identificam suas vocações estratégicas e constroem ecossistemas de excelência conseguem atrair talento, inovação e prosperidade.

Durante séculos, as grandes potências disputaram territórios, minas e rotas comerciais. No século XXI, a competição será travada nas universidades, nos laboratórios e nos centros de pesquisa. A nova corrida global não será vencida pelos países que possuírem mais recursos naturais, mas pelos que conseguirem atrair, formar e reter as mentes capazes de criar as tecnologias, as indústrias e a prosperidade do futuro. Afinal, em uma economia baseada no conhecimento, o recurso mais valioso do mundo não está debaixo da terra. Está na cabeça das pessoas.

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