Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Reputação

Infelizmente, não é apenas a imagem do país que está em causa, é mesmo um problema de substância.

O mundo tem andado distraído com outras preocupações, levando a que a crise política portuguesa passe despercebida. Contudo, as manchetes que se viram na semana passada revelaram um denominador comum: a corrupção. Os mercados, apesar disso, têm sido complacentes e valorizaram que a preocupação imediata tenha sido fazer por aprovar um Orçamento que visa o “défice zero”.

Portugal tem desfrutado, nos anos pós-PIGS, de uma reputação positiva que tem favorecido a captação de investimento, a atração de imigrantes para mitigar o envelhecimento populacional e beneficiado de ventos favoráveis para o turismo. Essa reputação assenta numa perceção de liberdade e segurança, que é um binómio sempre frágil, com uma qualidade de vida razoável e relação qualidade-preço ainda atrativa, inserida num enquadramento de um país europeu e europeísta, visto como acolhedor e democrático, onde as instituições vão funcionando.

Do ponto de vista financeiro, Portugal é considerado como um país comprometido com a disciplina orçamental – o “bom aluno” que teve, até agora, uma postura fiscalmente amigável para atrair pessoas e investimentos.

Goste-se ou não, sem o turismo, os investidores e os imigrantes, Portugal estaria a encolher de forma dolorosa. O mau funcionamento dos serviços do Estado, em especial na saúde, educação e segurança, a par da burocracia, dos ‘ziguezagues’ fiscais, mercados cada vez menos eficientes, compadrio, corrupção e, acima de tudo, a demagogia e a desonestidade intelectual, estão a ameaçar a reputação do país. Infelizmente, não se trata apenas de uma questão de imagem – é mesmo um problema de substância.

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