Naiole Cohen, Economista, Professora na Universidade Agostinho Neto, Luanda

Realidade reescrita

Uma nova geração de líderes inspiradores está a emergir nas Áfricas, que se recusa a receber lições de democracia de um Ocidente moralmente cúmplice de guerras, invasões e injustiças. Chegou a hora de testar na prática o discurso europeu de “partnership of equals” e reescrever a realidade.

Com toda esta confusão no mundo, deveremos olhar o céu e apelar por um alinhamento das estrelas, planetas e chakras, e desta forma depender de um alinhamento cósmico para reescrever a história? Ou será melhor tirar as amarras e ir ajudar a reescrever a história?

Uii, isso dá medo! Sim, o medo é respeitável, mas superável pela inteligência ou cansaço. Aqui nas Áfricas há medo, mas o enviesamento da normalidade faz parte do pão nosso de cada dia e esse tal de “novo governance global” desvenda uma arquitectura institucional do mundo multilateral digna de repensar…. Embora possa parecer assustador, não é ficção científica, é sim momento de poder reescrever esta “nova realidade” que deve ser baseada em valores comuns e de complementaridade.

Pois vejamos, o direito internacional como norma e aparentemente bem-intencionado, era uma vez…, também nunca funcionou para as Áfricas, e ainda menos a arquitectura financeira. Nos novos tempos parece que também já não está a funcionar lá para o Norte Global, mas aí é que se abre a oportunidade para interdependência estratégica.

E sobre esse assunto… um passarinho dizia-me ao ouvido no outro dia…” eles vão voltar!” A Europa vai voltar a precisar das Áfricas para sobreviver a este complexo xadrez de poder. O quê que as Áfricas têm a perder com a diversificação económica internacional?

Da nossa observação neste pequeno ponto das Áfricas sem relevância, a UE já se perde em seus labirintos burocráticos, os EUA perdem influência com fanfarrices de um presidente e a China se consolida como superpotência. E o resto do mundo começa a perguntar-se: “Com quem nos devemos alinhar?”

Neste potencial de realinhamentos geoestratégicos podemos nos surpreender com a velha frase do historiador romano Plínio “Africa semper aliquid novi” (de África vem sempre algo de novo).  Hoje já não vêm só animais exóticos, nos tempos que correm as novidades são outras. Minerais críticos, força de trabalho e mercado jovem, mas também e ainda conflitos internos. Abrem-se tempos de cooperação em vez de exploração? Será desta que o famoso “win-win” finalmente fará sentido?

A Geração Z das Áfricas (60% têm menos de 25 anos), sente que nada tem a perder, com uma nova geração de líderes inspiradores a emergir, recusando-se a receber lições de democracia de um Ocidente que é moralmente cúmplice de guerras, invasões e injustiças. Está a chegar a hora de testar na prática o discurso europeu de “partnership of equals” e reescrever a realidade.

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