Daniela Silva, Investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

Por que precisamos de conservadoras?

Revestidos de atrevida soberba, muitos responderão já que “não precisamos de mulheres conservadoras para nada!” Contudo, vários dramas do nosso tempo indicam o contrário.

A seguinte reflexão não versa sobre as motivações e objectivos do movimento de Mulheres Conservadoras Portugal. Desde logo porque, caso os meios de comunicação e os apressados caluniadores ainda não tenham percebido, o seu lançamento oficial está previsto apenas para Novembro e, até lá, não existem informações públicas suficientes para conhecer em detalhe a sua visão e missão. Note-se apenas que o rápido repúdio evidenciado pela opinião pública mais vocal acabou por ser caricato, numa época marcada por tantos desequilíbrios emocionais, espirituais, familiares e demográficos. Afinal, vivemos num tempo de dissolução dos relacionamentos, solidão, conflitos familiares, dificuldades em conciliar trabalho e família, crescente hostilidade entre os sexos desde a adolescência e uma natalidade persistentemente baixa.

Ainda assim, parece que temos de acreditar que está tudo bem, que nunca fomos tão felizes e quem se mobiliza na sociedade civil para apresentar visões alternativas sobre estas realidades, recebe hostilidade, intolerância e escárnio. É como se abordar estes assuntos despertasse um incómodo em quem tem pregado a fé secular no progresso inevitável da história, considerando-se qualquer desvio ou inversão de marcha como um ataque à dignidade humana.

Dado que o termo “conservador” é dado a confusões e divergências, vale a pena começar por uma noção (discutível, mas necessária) daquilo que caracteriza uma mulher conservadora. Esta mulher apresenta uma disposição prudente perante grandes mudanças, como a revolução sexual ou a diluição dos papéis familiares; tem consciência das boas e más inclinações humanas e de como todos somos falíveis; trata a família e a maternidade como bens sociais, e não como meras escolhas privadas; não forma identidade invejando as características do homem; não sente a interdependência familiar como forma de opressão; valoriza a sabedoria das instituições; sabe que a realização plena vem da dádiva aos outros, e não dos bens materiais, da beleza ou do trabalho; e reconhece que homens e mulheres não atravessam o tempo da mesma maneira. Lamento desapontar os que esperavam uma alusão aterradora àquela distopia da Netflix, mas aqui não se interpreta a realidade através de obras de ficção nem de espantalhos.

Não deverá ser difícil imaginar os desconfortos que a actual ordem social pode infligir numa mulher conservadora. A provocação que os críticos mais repetem para procurar silenciar opiniões, é a de que as mulheres conservadoras poderão sê-lo recolhidas nos lares, em vez de virem para o espaço público. Ora vejamos: primeiro, qualquer pessoa que lute por ideais sociais tem direito à reunião com os seus pares e a lutar para que vinguem no combate cultural que nunca cessa; segundo, visto que as mulheres sempre tiveram uma influência na formação dos costumes, importa perguntar que visão do homem, da mulher, da família, do casamento, da maternidade e da responsabilidade queremos que seja transmitida; terceiro, não é acessível a qualquer mulher dedicar-se exclusivamente à vida doméstica quando assim o deseja, pois a liberdade de escolha não se mede apenas pela ausência de uma proibição formal, mas também pelas condições reais em que essa escolha pode ser exercida.

Este terceiro ponto é crucial porque responde a uma provocação muito desonesta. Primeiro tornou-se necessário que ambos os cônjuges trabalhassem e, posteriormente, chamou-se a isso emancipação. Dizer a uma mulher que é livre de se dedicar à família quando as próprias condições económicas e sociais tornam essa opção cada vez mais difícil é um pouco como dizer a um liberal que é livre de viver segundo os seus princípios num regime totalitário socialista, ou desafiar alguém a viver da agricultura de subsistência num sistema económico que a torna impraticável.

Existem diferentes sensibilidades dentro da categoria “conservadoras” e as prioridades não serão as mesmas para todas as mulheres, mas podemos esperar contribuições valiosas de consciências empenhadas em revitalizar o sentido da vida, das famílias, da educação e das relações sociais. Por terem uma visão realista da falibilidade humana, as conservadoras não se agarram a promessas de justiça irrealistas nem lançam culpas pelas suas desilusões em estruturas de opressão e nos homens em geral. Então, quando algo vai mal, examinam os desequilíbrios do seu todo para descobrirem um caminho para o reequilíbrio. Por exemplo, se pensarmos na exaustão feminina pela acumulação de “duplo fardo”, por onde passa a mudança? De que forma podemos afastar-nos de um modelo económico que incentiva as carreiras intensivas a tempo inteiro? Será que os avanços da robótica poderão ser um aliado neste processo de alívio de pressão laboral e de aproximação à vida familiar? Incentivos fiscais poderão favorecer que um só provedor sustente a sua família?

Noutro domínio, um dos sinais mais alarmantes do nosso tempo é a “recessão dos relacionamentos”. Conforme explica Anna Rotkirch, investigadora do Population Europe, os jovens europeus começam agora menos relações duradouras e comprometidas do que as gerações anteriores quando tinham a mesma idade. Será que estas dificuldades de relacionamento se devem a falta de competências sociais ou será que rapazes e raparigas estão mais antagonizados e desconfiados do que nunca? Que tipo de expectactivas é que os jovens imaginaram para um relacionamento? Que exemplos apreenderam no seu núcleo familiar? Que tipo de valor associam a um relacionamento amoroso e a um compromisso duradouro? Será que o foco na carreira entorpece os instintos dos jovens?

E no domínio reprodutivo? Que consequências terá uma sociedade que separa cada vez mais sexualidade, amor, compromisso e reprodução? Que significa, afinal, celebrar a “maternidade independente” como se a ausência de um pai fosse uma conquista? Que sinal estamos a dar às mulheres quando apresentamos como emancipação aquilo que, durante séculos, teria sido visto como uma circunstância difícil e indesejável? E que espécie de sociedade estaremos a construir quando a tecnologia permite dissociar cada vez mais a reprodução das relações humanas que tradicionalmente lhe davam ambiente e vínculo? É aqui que a ficção de Huxley permanece perturbadora porque nos revela que, ao procurarmos libertar-nos das limitações impostas pela natureza, desfizemos algumas das relações que davam sentido à própria experiência humana.

E então, perante tantos desafios e interrogações, é aceitável que o espaço público fique dominado por quem acha que a realidade social deve ser terraplanada e que tudo se resume a expandir liberdades individuais, sem arcar com os custos, ou será que há espaço para ouvir as mulheres conservadoras?

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