Pela primeira vez em mais de uma década, as obrigações a dez anos de França e dos Estados Unidos da América negoceiam com taxas de juro acima dos 5%.
À primeira vista, a raiz do problema é a mesma: dois pesos-pesados da economia mundial a braços com défices crónicos, endividamento galopante e cenários políticos incertos e incapazes de produzir consensos sobre a responsabilidade orçamental.
Contudo, a simetria fica-se pelo número redondo dos juros. Analisando as caraterísticas de cada economia, percebe-se que o risco francês é bastante superior ao norte-americano.
A primeira grande diferença é a dinâmica de crescimento económico, uma variável decisiva para atestar a sustentabilidade da dívida. O PIB nominal dos EUA cresce a um ritmo muito mais acelerado do que o francês, o que confere mais capacidade para gerir e amortizar dívida.
O segundo aspeto prende-se com a atratividade do modelo económico: os Estados Unidos estão na dianteira da atual revolução tecnológica da Inteligência Artificial [aproveitemos enquanto ainda a podemos chamar assim], atraindo capital a nível mundial; por oposição, os setores agrícola e industrial franceses, em particular o sensível setor automóvel, enfrentam um esvaziamento concorrencial severo à escala global.
Há uma diferença drástica que reside na arquitetura do sistema financeiro.
Os Estados Unidos detêm o privilégio de emitirem o dólar, o pilar de transações e reservas mundiais e que tem uma procura latente quase infinita. Em cenário de stresse, a Casa Branca e a Reserva Federal poderiam simplesmente monetizar a dívida, potencialmente desvalorizando a sua moeda, mas evitando o incumprimento.
França não tem esta liberdade monetária. Ao partilhar o euro e o mandato de controlo de preços do Banco Central Europeu, não dispõe de alguns graus de liberdade para acomodar derivas orçamentais.
As promessas estatizantes que dominam o atual xadrez político francês, seja a esquerda de Mélenchon, seja a direita de Le Pen, apenas servem para agravar este quadro. No papel, França e EUA parecem debater-se com problemas idênticos de sobre-endividamento e défices acima de 5%.
Mas, na prática, Washington ainda tem ferramentas e pujança económica para os gerir. Já em Paris, como a constante tensão social nas ruas facilmente atesta, atirar simplesmente dinheiro aos problemas nunca produziu coesão política nem social.
Numa Europa frágil, uma crise na dívida francesa não é apenas um perigo interno — é a verdadeira ameaça existencial ao euro.