A World Metereological Organization confirmou que o mês de julho de 2023 foi o mais quente de sempre desde que há registos. Em Portugal, a temperatura média máxima anual tem aumentado 0,4ºC por década desde 1980, chegando a um valor médio de cerca de 30ºC em julho. Os efeitos das alterações climáticas são amplamente noticiados, mas ainda pouco se discute o efeito do aumento das temperaturas na redução da produtividade.
Segundo um relatório científico da NASA (CR-1205-1), a temperatura ótima de trabalho está fixada em 24ºC. O mesmo relatório detalha que um aumento da temperatura no local de trabalho para 27ºC, leva a uma perda de rendimento do trabalho de 8% e uma redução de precisão na execução das tarefas de 5%.
No entanto, quando a temperatura no local de trabalho sobe para 32ºC, verifica-se uma perda de rendimento de 29% e a redução de precisão na execução das tarefas decresce 300%. No caso extremo, foi verificado que trabalhar a uma temperatura de 35ºC, leva a uma perda de produtividade de 45% e a uma redução de precisão nas tarefas executadas de 700%.
O efeito das altas temperaturas na produtividade é ainda mais preocupante no setor industrial. O funcionamento de máquinas industriais gera ainda mais calor no interior dos edifícios, que podem registar mais 4ºC, quando comparado com a temperatura exterior. Perante este cenário, as empresas irão sentir perdas efetivas na sua produtividade, caso não consigam reduzir a temperatura dos seus ambientes de trabalho.
Neste contexto, as empresas estão perante um enorme desafio: fazer face a um aumento das temperaturas e à consequente perda de produtividade dos seus trabalhadores, com os riscos para o trabalho associados. Isto numa altura em que se verifica um aumento dos custos de energia elétrica e em que a sustentabilidade energética se torna uma exigência da nova realidade mundial.
Neste novo paradigma as empresas têm de procurar outras soluções de climatização para além do tradicional ar condicionado, que tem um grande consumo energético, para outras soluções de climatização como a adiabática, bem como a melhoria do isolamento dos edifícios e ventilação dos mesmos, para conseguir alcançar as métricas de sustentabilidade, controlar os custos energéticos e garantir as melhores condições de trabalho para os trabalhadores.
Nos Estados Unidades já existe regulamentação específica criada pela OSHA (Agência Governamental Americana para a Segurança e Saúde dos Trabalhadores) que tem o poder de legislar e aplicar multas para o cumprimento das regras de segurança. No entanto, na Europa, são os países que, individualmente, se responsabilizam pela regulamentação e implementação da legislação de segurança no trabalho.
Alguns países europeus, como o Reino Unido, Espanha e Alemanha, já avançaram para legislação específica. Porém, a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no trabalho, apesar de reconhecer os riscos relacionados com o calor nos locais de trabalho, apenas emitiu algumas orientações sobre o tema, sem regulamentar as condições de temperatura que os trabalhadores podem exercer no decorrer das suas funções.
Em Portugal, apenas o Decreto-Lei nº 243/86, que aprova o Regulamento Geral de Higiene e Segurança do Trabalho nos Estabelecimentos Comerciais, de Escritório e Serviços, considera que “a temperatura dos locais de trabalho deve, na medida do possível, oscilar entre 18ºC e 22ºC, salvo em determinadas condições climatéricas, em que poderá atingir os 25ºC. Mais uma vez não se verificam imposição de limites.
O aumento das temperaturas médias vai implicar um aumento da legislação sobre este tema que as empresas têm de precaver. Mas sobretudo, é fundamental que os gestores não menosprezem os efeitos das altas temperaturas na redução da produtividade das suas empresas e procurarem formas de mitigá-la.