“O setor da agritech no Brasil tem sido um para-raio de investimentos”

Francisco Jardim é co-fundador da SP Ventures, uma capital venture brasileira que investe em 'agritechs'. O especialista acredita no potencial do Brasil como país muito atrativo para investimento na área do agronegócio.

“O setor da agritech no Brasil tem sido um para-raio de investimentos”
Francisco Jardim, co-fundador da SPventures. Foto/Eduardo Ribeiro

Francisco Jardim, managing partner e co-fundador da SP Ventures, investidor em agronegócio, apresentou no dia 1 de outubro, no Global Agri Forum 2026, realizado no auditório da sociedade de advogados Vieira de Almeida, em Lisboa, a sua visão como investidor no segmento das agritech. Na sua apresentação, o especialista começa por referir que a SP Ventures é hoje um dos maiores investidores em agritech na América Latina, contando com cerca de 150 milhões de dólares sob gestão. Entre os seus investimentos contam-se algumas das maiores empresas mundiais de agronegócio, como grandes bancos e produtores brasileiros, e fundações como a de George Soros, a Open Society.

Francisco conta que começou como gestor de um fundo do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social, em 2007, gerindo o primeiro grande fundo de deep tech hard science do banco. Nessa altura chegou à conclusão de que o agronegócio era um importante motor de crescimento no Brasil. “Entendemos que investir em venture capital e obter esse tipo de retorno exige algumas coisas. Você precisa estar investindo numa grande transformação tecnológica”, diz. E acrescenta: assim fomos olhar no Brasil o que era uma grande transformação tecnológica e aí descobrimos o grande desafio do agro”. Ou seja, com a possibilidade de chegar a 9,5 ou 10 mil milhões de pessoas em 2050, vamos colocar muita pressão no agroalimentar. A isto ainda se juntam as alterações climáticas, que acrescentam também uma pressão ambiental. “E assim teríamos de dar um salto de 60% a 80% na produção de alimentos em 40 anos, com menos terra, menos água, menos insumos químicos, menos capital humano. Essa era a grande transformação”, explica Francisco Jardim à audiência.

“Se virmos em 2020, com a pandemia de Covid, o PIB brasileiro encolheu 4%. O agro brasileiro cresceu dois dígitos”, diz Francisco Jardim.

O especialista refere que o Brasil não tem grandes casos de sucesso na indústria, mas tem no agronegócio. “O sucesso do agro brasileiro não é um sucesso de expansão territorial. Nós dobramos a área plantada e aumentamos por seis o total volume produzido. Foi um salto de produtividade. Tanto por avanços tecnológicos, sucessos empreendedores, quanto inovações em modelos operacionais que viabilizaram a segunda e a terceira safra”, diz.

Assim, como investidor, compreendeu a oportunidade que este setor gera. Em anos que o PIB brasileiro decresceu, o setor subiu a dois dígitos, revela. “Se virmos em 2020, com a pandemia de Covid, o PIB brasileiro encolheu 4%. O agro brasileiro cresceu dois dígitos. Ora, isto mostra que é um setor que não só performa consistentemente melhor que a economia brasileira, mas é um setor que cresce descorrelacionado com a economia brasileira”, diz

Além disso, o Brasil com uma população de cerca de 220 milhões de pessoas produz calorias para mais de mil milhões de pessoas, acrescenta. “Nós exportamos mais de 80% do nosso total produzido. O agronegócio brasileiro entrega ao Brasil um superávit de 145 mil milhões de dólares. Se tirar o agro da balança comercial brasileira, a gente teria um déficit, uma pressão cambial de 70 mil milhões de dólares negativos”, resume.

O Brasil criou o maior e mais bem-sucedido ecossistema agrícola tropical de alta produtividade do mundo. “No Brasil a gente consegue plantar o ano inteiro. Duas, três, às vezes até quatro safras por ano”, refere o especialista. 

O agronegócio brasileiro exporta hoje para mais de 180 países e apostou na diversificação, reduzindo assim o risco. Essa é outra vantagem de investir em agritech. “O agro brasileiro, historicamente, foi muito concentrado em poucas comodidades, como o açúcar e o café. Nos últimos 40, 50 anos, nos tornamos uma potência diversificada em muitas categorias, seja em proteína animal e proteína vegetal. Hoje nós somos o maior exportador de soja, carne bovina, frango, citricultura, açúcar, café, entre outros”, explica à audiência. E destaca um outro produto, o milho: o Brasil era o maior exportador de milho até há dois anos e agora esse produto tornou o país uma grande potência na produção de etanol de milho. “Esse é um fenômeno super recente e que, consequentemente, tem desviado o nosso milho de exportação para a produção”, explica.

Francisco Jardim falou ainda na agricultura tropical, dizendo que o Brasil criou o maior e mais bem-sucedido ecossistema agrícola tropical de alta produtividade do mundo. “No Brasil a gente consegue plantar o ano inteiro. Duas, três, às vezes até quatro safras por ano. Só que a erva daninha cresce o ano inteiro, a praga cresce o ano inteiro, a doença cresce o ano inteiro, tal como a erosão do solo. Então tem de se criar um modelo proprietário. E esse modelo proprietário se assemelha muito com a agricultura regenerativa, porque a gente precisa criar um equilíbrio que estabiliza esse modelo em alto volume e alta produtividade.”

A SPventures foi um dos primeiros investidores em sumos biológicos, na América Latina, tendo apostado na primeira empresa em 2009.

Referiu ainda os verticais que mais têm recebido investimentos no Brasil: os biológicos. “O Brasil hoje é o maior mercado de sumos biológicos, com mais de mil milhões de dólares de mercado, e que cresce a taxa de dois dígitos”, afirma. E adianta que a SPventures foi um dos primeiros investidores em sumos biológicos, na América Latina, tendo apostado na primeira empresa em 2009.

Na sua apresentação, o especialista alerta ainda que “o Brasil, com a introdução de inteligência artificial, principalmente com agentes ajudando a transformar e a executar as transações, está a começar a ver marketplaces de venda de sumos, venda de grãos, venda de gado. Acredito que vamos conseguir ter os primeiros players resolvendo e criando grandes companhias. O setor da agritech no Brasil, ele tem sido um para-raio de investimentos”.

E continua a sua intervenção mostrando valores: a SPVentures, “entre 2020 e 2024, investiu 45 milhões de dólares em 17 companhias e essas empresas, levantaram mais 300 milhões de dólares. Então, foram 345 milhões de dólares, todos investidos em 17 startups”. Claro que ecossistema da América Latina é muito maior do que só o portfólio desta capital ventures. E Francisco refere: “Nós investimos em uma para cada 90 que recebemos. Então, a gente pode ver que o setor realmente tem crescido, tem atraído capital”.

“Nós investimos 30% do nosso fundo II em agrifintechs. Nós apostamos bastante que essa cadeia é a mais dinâmica da última safra de fundos”, diz Francisco Jardim. 

São as grandes corporações que mais investem em agritech, posicionando o Brasil e a América Latina como um grande centro para a disrupção tecnológica no agro. Além disso, o Brasil é hoje um dos principais epicentros de inovação de serviços financeiros do mundo, o que leva à proliferação de agrifintechs. “Nós investimos 30% do nosso fundo II em agrifintechs. Nós apostamos bastante que essa cadeia é a mais dinâmica da última safra de fundos. No nosso entendimento, o AgroLand é hoje o banco tecnológico do agro mais bem-sucedido do mundo. O AgroLand foi de 0 a 140 milhões de dólares de avaliação, em três anos e meio. A velocidade de crescimento dessa cadeia tem sido muito acelerada”, remata.

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Teresa Cotrim1 Out
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