“Carbono, biodiversidade e natureza podem transformar-se em ativos económicos e abrir nova frente de financiamento para a agricultura”, diz Assunção Cristas

A agricultura vai ter de alimentar mais pessoas, mas já não pode crescer como cresceu até aqui. Com a terra sob pressão, solos degradados e alterações climáticas a apertarem o cerco, a solução passa por produzir mais e, sobretudo, produzir melhor. Assunção Cristas vê nesta pressão não apenas um problema, mas também uma oportunidade para criar novos mercados em torno da sustentabilidade, do carbono e da biodiversidade.

“Carbono, biodiversidade e natureza podem transformar-se em ativos económicos e abrir nova frente de financiamento para a agricultura”, diz Assunção Cristas
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A agricultura enfrenta uma equação cada vez mais difícil: alimentar uma população mundial em crescimento, com maior capacidade para comprar e consumir melhor, ao mesmo tempo que a terra disponível é mais limitada e uma parte dos solos está degradada. Para Assunção Cristas, a resposta não passa apenas por produzir mais. Passa por produzir melhor — e a sustentabilidade pode deixar de ser apenas uma obrigação para se transformar numa oportunidade económica.

Foi esta a ideia central deixada pela sócia co-responsável da área de Ambiente e Alterações Climáticas da VdA no Global Agri Forum, que decorreu esta quinta-feira, 1 de outubro, em Lisboa, na sessão dedicada aos desafios conjuntos do crescimento populacional e da sustentabilidade para a produção agroalimentar. “Não é propriamente uma escolha, é uma necessidade de encontrar um ponto de equilíbrio”, afirmou.

A pressão começa na procura. A população mundial cresce, África cresce a um ritmo ainda mais rápido e, à medida que aumenta a capacidade económica das populações, cresce também a procura por alimentos melhores. Já não está em causa apenas garantir o mínimo: há mais consumidores com capacidade para aceder a produtos de maior qualidade.

Do outro lado está a terra. É escassa em muitas geografias, há solos degradados que precisam de ser recuperados e existe uma procura crescente por novas áreas de produção. Angola e Moçambique são, neste contexto, exemplos de países onde ainda existe terra disponível, enquanto a pressão para conquistar território à floresta aumenta.

É também por isso, explicou Cristas, que a União Europeia avançou com legislação de combate à desflorestação. O problema está em encontrar o equilíbrio entre a necessidade de produzir e a necessidade de preservar os recursos naturais e mitigar as alterações climáticas.

“Se nós olharmos para os solos que temos que são escassos, muitos que estão degradados e a necessidade de produzir mais, há aqui vários caminhos, mais e melhor.”

Um desses caminhos está num problema que continua a ser tratado como secundário: o desperdício alimentar. A referência da FAO, sublinhou, mostra que uma utilização mais eficiente dos alimentos já produzidos permitiria alimentar muito mais pessoas com sensivelmente os mesmos recursos.

Mas reduzir o desperdício não é simplesmente uma questão de produzir menos comida. Nas sociedades mais desenvolvidas implica mudar comportamentos e consumir menos. Noutras geografias, significa resolver problemas de logística, armazenamento e transporte. “É preciso infraestruturas de fresco, é preciso vias de comunicação.”

E mesmo no Brasil, uma das grandes potências agrícolas mundiais, a logística continua a revelar limitações. Se há dificuldades para escoar produção numa economia sofisticada, mais complexa será a situação em África, onde a falta de infraestruturas pode aumentar ainda mais as perdas ao longo da cadeia.

Há aqui, considera Cristas, um desfasamento entre a velocidade do setor privado e a capacidade dos governos para criar as infraestruturas necessárias. As empresas não ficam à espera: produzem, investem e procuram ganhar dinheiro. “Não ficam de braços cruzados. Arregaçam as mangas e vão começar a produzir. E vão produzir mais.” Mas a questão é precisamente o que acontece a seguir. “Produzir mais, que é ótimo e é necessário, também seria muito bom se fosse produzir melhor.”

Melhor significa segurança alimentar e qualidade dos produtos, mas também significa alterar a forma como a terra é utilizada. Hoje existe muito mais informação científica sobre os solos e sobre os métodos de produção do que existia há décadas. A agricultura regenerativa surge, assim, como uma das possibilidades: produzir mais utilizando a terra disponível de uma forma diferente.E a transformação não ficará apenas no campo. Vai chegar à informação que acompanha cada produto.

Cristas antecipa um futuro em que será possível conhecer muito mais sobre a forma como um alimento foi produzido: o modo de produção utilizado, a água consumida, a energia utilizada, quem trabalhou na produção, se houve ou não trabalho infantil e qual foi o impacto sobre as comunidades locais. “Tudo isto considero que vai começar a ser revelado e contabilizado.”

A consequência é uma mudança na própria lógica de mercado. Quando um produto chegar ao consumidor, o preço e a qualidade continuarão a contar, mas poderão deixar de ser os únicos critérios. A forma como foi produzido poderá também ter um valor económico.

A pergunta passa então a ser quem está disposto a pagar por esse valor. “Depende”, respondeu Cristas. Depende do mercado, do consumidor, da base da produção e da forma como essa diferença é comunicada.

A regulação europeia poderá acelerar esta transformação. A legislação sobre desflorestação, o restauro da natureza e as regras de escrutínio das cadeias de atividade em matéria ambiental e de direitos humanos estão a alterar progressivamente as regras do jogo.

“Basta a alguns começarem a mudar as regras do jogo, basta a alguns começarem a criar valor em cima desta diferenciação para que os outros tenham de alguma maneira de ir atrás.” É aqui que sustentabilidade e negócio começam a cruzar-se.

A mitigação das alterações climáticas pode abrir espaço para novas oportunidades na floresta e na agricultura regenerativa. Sistemas capazes de aumentar a remoção de carbono no solo podem gerar créditos de carbono através do chamado carbon farming. E a biodiversidade pode seguir um caminho semelhante, com créditos de biodiversidade e de natureza a começarem a ser transacionados.

Cristas vê ainda potencial na economia circular: transformar subprodutos e resíduos da produção em recursos para outras atividades, criando cadeias que se alimentam umas às outras.

Na biodiversidade, identifica outro ativo ainda em construção. E estabelece uma espécie de teste decisivo para saber quando esse mercado terá realmente ganho maturidade: “Isto vai funcionar bem quando os bancos aceitarem estes ativos como colaterais.”

O caminho, admite, ainda está a ser feito. Mas já existem exemplos que mostram que estes mecanismos podem funcionar.

Um deles é um projeto de agricultura regenerativa na Etiópia, apoiado por conhecimento universitário norte-americano, que envolve atualmente 12.500 agricultores e procura combinar produção regenerativa com comercialização. Outro exemplo referido por Cristas é o Egito, onde os créditos de carbono podem ser vendidos aos bancos na sequência de uma legislação que os obriga a comprá-los.

A ideia é que não existe necessariamente uma única solução. Algumas dependem das empresas e dos agricultores. Outras dependem dos governos e das regras que estes criam.

Na União Europeia, as empresas estão já sujeitas a regras de relato de sustentabilidade que as obrigam a explicar a sua estratégia de descarbonização, incluindo se têm ou não um plano para esse efeito.

E essa informação pode ter consequências financeiras.

“Se isto tiver efeito no mercado, porque atrai mais financiamento, atrai mais investimentos, e os próprios consumidores começam a estar sensíveis ao tema”, então outras empresas tenderão a alinhar-se.

É nesse processo que Cristas vê espaço para o crescimento dos créditos de carbono e dos créditos de biodiversidade. A neutralidade climática europeia em 2050 implica reduzir a pegada, mas também lidar com aquilo que não seja possível eliminar.

A Europa está a liderar este movimento, mas não está sozinha. Cristas apontou também para a China, que definiu como objetivo alcançar a neutralidade climática em 2060.

“Vejo bons exemplos no mundo inteiro.”

No fundo, a mensagem deixada no Global Agri Forum é que a sustentabilidade não deve ser encarada apenas como uma limitação à agricultura. A mesma pressão que obriga o setor a mudar pode criar novos mercados, novos modelos de financiamento e novas fontes de receita.

E a transformação poderá ser acelerada por tecnologia, conhecimento e inteligência artificial. Cristas apontou aos chamados agents e, mais à frente, aos world models, que poderão vir a ter aplicações relevantes na agricultura.

O que será necessário? “Gente empreendedora” e financiamento alinhado com estas preocupações.

Cristas deu ainda o exemplo da taxonomia europeia e da experiência da VdA na criação de uma taxonomia de sustentabilidade para Cabo Verde, num processo associado a uma exigência do FMI.

A conclusão é simples: as ferramentas estão a aparecer, o financiamento pode alinhar-se e os mercados começam a criar valor em torno da sustentabilidade.

“Acho que é mesmo uma realidade, já existe, vai crescer. Vale a pena olhar não como um obstáculo, mas como uma grande oportunidade.”

E, para quem está na agricultura, essa mudança pode significar que a sustentabilidade deixe de ser apenas uma exigência para passar a ser também parte do negócio.

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