André Macedo

O ouro da bolsa

O mercado de capitais é fundamental para o financiamento das empresas. O capital estrangeiro que entrou no PSI reabriu esta porta. Não deixemos que os Ventura desta vida queiram viver numa jangada de pedra.

O triste facto de o PSI-20 só ter hoje 16 empresas cotadas diz o que basta da competitividade e dimensão das empresas portuguesas, à exceção de um grupo restrito que ainda alumia o caminho. Diz também muito da questionável estrutura organizativa de algumas empresas quando, debaixo do guarda-chuva de vários grupos, existem negócios robustos – por exemplo, o turismo – com força para atrair capital, mas que ficam invisíveis na molhada das contas agregadas. Esta não é, no entanto, uma coluna a zurzir no PSI.

O que trago hoje aqui é nada menos do que o ressuscitar senão de um morto… de um quase-morto. Refiro-me ao renascimento inesperado de um mercado, o bolsista, que se encontrava moribundo naquilo que é a sua principal função: colocar e manter empresas no mercado de capitais. Ora bem. Os vistos gold, que ajudaram a atrair investimento imobiliário nos anos de chumbo da Grande Recessão (2011-2014) – rapidamente condenados pelos fuzis morais da esquerda mais radical que centra os seus mais hercúleos combates no ataque à riqueza –, tem uma nova vida que deve ser noticiada e elogiada e protegida. É certo que a compra de casa para receber o visto gold foi excluída, já que, a certa altura, acabou por ajudar a alimentar a explosão nos preços das casas. Fechado este ciclo a tempo e horas, o regime dos vistos gold permite agora aos investidores aplicar o capital noutras áreas – por exemplo, abrir empresas –, mas também aplicar o dinheiro em fundos (de ações ou mistos) desde que compostos por 60% de empresas portuguesas.

O resultado foi nada menos do que extraordinário. O PSI, ligado à máquina há mais de década e meia, perdido na sala de recobro, recebeu uma poderosa transfusão de vitamina e dinheiro. A vitamina têm sido o recuperar da economia nacional, que não andando a galope, corre pelo menos mais do que a média europeia. O dinheiro, embora também com o modesto contributo lusitano, vem em grande parte de estrangeiros que escolheram este caminho para conseguir autorização de residência em Portugal. Estamos a falar de 720 milhões de euros que representaram uma transfusão de sangue capaz de operar o milagre da ressurreição. Com os fundamentais de muitas empresas restabelecidos dos graves apertos anteriores, fruto de reestruturações de manual – o BCP está de volta e quer mais, a EDP ganhou tino, reduziu dívida e tem um novo modelo de negócio menos à Carlos Magno, mas também GALP, Sonae, Navigator, Jerónimo Martins e Mota… todas elas expandiram os seus negócios e crescem. O mercado de capitais é fundamental para o financiamento das empresas. O capital estrangeiro que entrou no PSI reabriu esta porta – não deixemos que os Ventura desta vida queiram viver numa jangada de pedra.

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