As recentes movimentações diplomáticas em torno da China podem ser parte de uma tentativa de alcançar um novo acordo global entre as várias potências.
Como observadores sem acesso a informações privilegiadas, todos os sinais contam e, nas últimas semanas, algo parece ter mudado. O sinal mais visível do que pode estar a acontecer é o intenso fluxo de reuniões bilaterais, como as visitas de Emmanuel Macron, Pedro Sánchez, Lula da Silva e Ursula von der Leyen a Pequim. De forma surpreendente, vimos Sergey Lavrov aterrar no Brasil depois de Putin ter visitado a China.
Esta semana, aconteceu o primeiro contacto telefónico direto entre Volodymyr Zelensky e o seu homólogo Xi Jinping desde que a guerra começou, um claro sinal de reconhecimento da soberania da Ucrânia e de legitimidade do seu presidente. Esse telefonema é especialmente importante, porque ocorreu depois das polémicas declarações de um diplomata chinês, que colocavam em causa a soberania formal de países independentes que faziam parte da antiga União Soviética.
Além disso, e sem prejuízo do novo acordo com as Filipinas e outras movimentações americanas a Oriente, a moderação das posições norte-americanas em relação a Taiwan é, também, um sinal importante. Os EUA rejeitam a independência do território, mas a sua posição tem sido mais moderada, numa aparente tentativa de melhorar as suas relações com a China.
A guerra já não interessa a ninguém. Não interessa à Ucrânia, por motivos óbvios, nem à Rússia, que vê a sua posição económica e política a degradar-se diariamente. Também não interessa aos EUA e à Europa, que enfrentam custos elevados e divisões internas em relação ao conflito. Finalmente, a China também preferiria virar a página, uma vez que a sua economia ainda não se recuperou totalmente e já está a sofrer com o reshoring, para além de Taiwan ter passado a ser mais assunto de discussão do que o pretendido.
A mais que anunciada contraofensiva ucraniana pode criar as condições para um acordo mais duradouro, mas agridoce, que poderá não envolver apenas o Leste europeu.