Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

O fim da guerra

As recentes movimentações diplomáticas em torno da China podem ser parte de uma tentativa de alcançar um novo acordo global entre as várias potências.

As recentes movimentações diplomáticas em torno da China podem ser parte de uma tentativa de alcançar um novo acordo global entre as várias potências.

Como observadores sem acesso a informações privilegiadas, todos os sinais contam e, nas últimas semanas, algo parece ter mudado. O sinal mais visível do que pode estar a acontecer é o intenso fluxo de reuniões bilaterais, como as visitas de Emmanuel Macron, Pedro Sánchez, Lula da Silva e Ursula von der Leyen a Pequim. De forma surpreendente, vimos Sergey Lavrov aterrar no Brasil depois de Putin ter visitado a China.

Esta semana, aconteceu o primeiro contacto telefónico direto entre Volodymyr Zelensky e o seu homólogo Xi Jinping desde que a guerra começou, um claro sinal de reconhecimento da soberania da Ucrânia e de legitimidade do seu presidente. Esse telefonema é especialmente importante, porque ocorreu depois das polémicas declarações de um diplomata chinês, que colocavam em causa a soberania formal de países independentes que faziam parte da antiga União Soviética.

Além disso, e sem prejuízo do novo acordo com as Filipinas e outras movimentações americanas a Oriente, a moderação das posições norte-americanas em relação a Taiwan é, também, um sinal importante. Os EUA rejeitam a independência do território, mas a sua posição tem sido mais moderada, numa aparente tentativa de melhorar as suas relações com a China.

A guerra já não interessa a ninguém. Não interessa à Ucrânia, por motivos óbvios, nem à Rússia, que vê a sua posição económica e política a degradar-se diariamente. Também não interessa aos EUA e à Europa, que enfrentam custos elevados e divisões internas em relação ao conflito. Finalmente, a China também preferiria virar a página, uma vez que a sua economia ainda não se recuperou totalmente e já está a sofrer com o reshoring, para além de Taiwan ter passado a ser mais assunto de discussão do que o pretendido.

A mais que anunciada contraofensiva ucraniana pode criar as condições para um acordo mais duradouro, mas agridoce, que poderá não envolver apenas o Leste europeu.

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