Marcus Vinícius De Freitas, Professor Visitante, China Foreign Affairs University e Senior Fellow, Policy Center for the New South

O crepúsculo de Lula e Bolsonaro

O desafio dos próximos quatro anos será construir uma política menos dependente de sobrenomes, salvadores e algoritmos e mais comprometida com ideias, instituições e perspectivas de longo prazo. 

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva encerra uma das eleições mais disputadas da história recente do Brasil. Antes de qualquer análise, porém, cabe uma ressalva. A decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, de ampliar o horário de votação introduziu, desnecessariamente, um elemento de controvérsia no processo eleitoral.

Ainda que, matematicamente, a medida não tenha sido determinante para a vitória de Lula, que venceu de virada, o episódio lança um manto de dúvida que alimentará a contestação do resultado. Em um país que precisa urgentemente de pacificação, as instituições não devem apenas agir dentro da legalidade: precisam preservar a confiança de vencedores e vencidos no processo eleitoral.

Feita a ressalva, esta eleição deixa lições importantes.

A primeira é que o lulopetismo entra definitivamente em seu crepúsculo. Lula inicia aquele que deverá ser seu último mandato sem ter construído uma sucessão política à sua altura. Depois de quatro vitórias presidenciais, o maior problema da esquerda brasileira continua sendo a dependência de Lula. Faltam renovação, novas lideranças nacionais e, sobretudo, uma agenda original para as transformações de que o Brasil necessita. Lula venceu. O lulismo, paradoxalmente, aproxima-se do fim.

A segunda lição dirige-se à direita. O bolsonarismo jamais representou toda a direita brasileira nem os melhores valores que uma direita moderna poderia oferecer ao país: responsabilidade fiscal, liberdade econômica, segurança jurídica, eficiência do Estado e instituições sólidas. Jair Bolsonaro transformou progressivamente seu movimento em um empreendimento familiar, culminando na escolha do próprio filho como candidato à Presidência. A dinastização do bolsonarismo cobrou seu preço. A direita brasileira precisará agora decidir se continuará dependente de uma família ou se será capaz de construir uma identidade própria.

Há também uma advertência sobre outro fenômeno que cresceu nesta eleição, particularmente à direita: a transformação da política em entretenimento digital. Lideranças com enorme presença nas redes sociais converteram seguidores, visualizações e controvérsias em votos. Esse capital político é real e não deve ser desprezado. Mas audiência não é liderança, viralização não é projeto de país e engajamento não substitui capacidade de governar. Quem chegou rapidamente ao palco político pelas redes terá agora de demonstrar resultados. Caso contrário, a mesma velocidade que produz celebridades políticas também poderá descartá-las.

A eleição ainda transmite uma mensagem externa. A aproximação de setores da direita brasileira com Donald Trump e a disposição de importar para o Brasil uma agenda trumpista não produziram os resultados esperados. O Brasil pode e deve manter uma relação sólida com os Estados Unidos, mas sem transformar alinhamento em submissão. Autonomia não é antiamericanismo. É simplesmente a defesa do interesse nacional.

A página começa, portanto, a virar. Talvez o maior significado desta eleição esteja menos na vitória de Lula do que no possível encerramento de dois ciclos. O Brasil precisará de uma esquerda capaz de sobreviver a Lula e de uma direita capaz de sobreviver aos Bolsonaro.

O desafio dos próximos quatro anos será construir uma política menos dependente de sobrenomes, salvadores e algoritmos e mais comprometida com ideias, instituições e perspectivas de longo prazo. O crepúsculo de Lula e Bolsonaro pode ser, afinal, a oportunidade para o amanhecer de um Brasil menos preocupado com homens providenciais e mais comprometido com um projeto de país.

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