No palco da Culturgest, em Lisboa, o espetador vai descobrir um mausoléu, um túmulo antigo encimado por uma colina numa paisagem que faz da morte o próprio lugar da vida e do seu desdobramento. Nessa colina aparecem e desaparecem os corpos de 13 bailarinos e cantores, num movimento contínuo entre a terra e o céu.
Na peça “t u m u l u s”, François Chaignaud e Geoffroy Jourdain colocam em diálogo as suas práticas artísticas num único gesto: uma procissão onde o canto e a dança tornam visível o invisível e revelam a experiência do movimento permanente. Canções polifónicas que vão do Renascimento até aos anos 1970, fazem vibrar os corpos e a respiração, refletindo uma inspiração espiritual ligada ao luto, componde uma ode aos corpos que já não existem.
A pesquisa subjacente a “t u m u l u s” assenta neste paradoxo: um morto possui sempre vida. François Chaignaud, um dos principais representantes da dança contemporânea francesa na atualidade, inspirou-se num sonho recorrente: imagina uma comunidade de bailarinos e cantores que transcendem os limites das duas disciplinas. Nesta criação, conta com Geoffroy Jourdain, diretor do ensemble vocal “Les Cris de Paris”, com quem partilha um interesse comum pelas polifonias sagradas da Renascença – a idade de ouro do contraponto.
Em palco, esta comunidade de treze indivíduos ora se agrupa, ora se divide em unidades mais pequenas, contaminando-se uns aos outros, e que associa voz e dança para explorar o paradoxo dos nossos corpos, divididos entre o singular e o coletivo, a materialidade e a eternidade.
Um coreógrafo e um diretor musical que partilham uma paixão pelo canto
François Chaignaud licenciou-se em 2003 no Conservatório Nacional de Música e Dança de Paris. Posteriormente, colaborou com vários coreógrafos e criou peças em que a dança e o canto se encontram no cruzamento de muitas inspirações. Também historiador, François Chaignaud publicou “L’Affaire Berger-Levrault: le féminisme à l’épreuve (1897-1905)”. A sua curiosidade pela história levou-o a encetar várias colaborações, nomeadamente com a artista Marie-Caroline Hominal (Duchesses, 2009) e Théo Mercier (Radio Vinci Park, 2016).
Em 2017, Chaignaud criou “Romances inciertos, un autre Orlando” em colaboração com Nino Laisné. A obra centrava-se em figuras andróginas do folclore barroco espanhol. Em 2018, produziu “Souflette”, uma peça para 14 bailarinos da companhia norueguesa Carte Blanche. Seguiram-se “Symphonia Harmoniæ Cæelestium Revelationum” (2019), em colaboração com Marie-Pierre Brébant, espetáculo inspirado nas obras musicais de Hildegarda de Bingen, e “Gold Shower” (2020) em colaboração com o ícone do butô Akaji Maro.
O canto é, também, a paixão de Geoffroy Jourdain, que começou a dirigir agrupamentos vocais desde cedo enquanto estudava musicologia na Universidade de Sorbonne e pesquisava as coleções de música italiana de várias bibliotecas europeias. Fundou “Les Cris de Paris” quando ainda era estudante, que rapidamente ganhou projecção mundial pela sua visão artística arrojada e o seu compromisso na defesa da criação contemporânea.
Jourdain procura encontrar formas de criar obras musicais inovadoras, colaborando com encenadores, atores, coreógrafos e artistas visuais, e é um apaixonado por etnomusicologia e pelo repertório dos séculos XVII e XVIII.