Há cem anos nascia uma das mulheres mais marcantes da história recente do nosso país: Natália Correia que, nas suas próprias palavras, viveu livre do compromisso de ser como os outros esperavam que fosse. Muitas das questões que denunciava e pelas quais se batia continuam igualmente atuais, senão releia-se “O Matrismo”, onde defendeu que não há emancipação da mulher sem defesa da natureza e do planeta.
Natália Correia foi ainda defensora da abolição dos touros de morte, apelando ao fim do seu sofrimento. Um legado que tem passado despercebido face à dimensão que a sua luta pelos direitos das mulheres assumiu!
Ainda sob o jugo da ditadura, mas a ela indiferente, foi precursora da autodeterminação sexual da mulher e, já em democracia, não deixou de criticar aquela que afirmou ser uma “sociedade acomodada a velhos padrões”, nem hesitou em ser porta-voz de uma “maneira feminina de fazer política”.
Na década de 1980, teve a coragem de ser a única deputada das bancadas da direita a votar a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, um direito que hoje vemos ameaçado, ainda que legalmente reconhecido, mas cujo acesso é tantas vezes obstaculizado.
Natália disse-nos que os passos que deu alargaram “uma estrada que nem sequer começou”. Contudo, ainda que a maioria da população portuguesa seja do género feminino, são também as mulheres as mais afetadas pela taxa de desemprego, ou expostas à privação material, social e risco de pobreza. E continuam sub-representadas na vida pública e política, e no mundo empresarial em que os homens mantêm o seu statu quo.
Enquanto evocamos o centenário do seu nascimento, e num momento em que nos aproximamos a passos largos dos 50 anos do 25 de Abril, vivemos ainda num país onde nunca tivemos uma mulher eleita como Presidente da República e os principais cargos da nação continuam a ser ocupados por homens. Soma-se agora mais um ato eleitoral, o das eleições regionais da Madeira, que conta apenas com uma mulher como cabeça-de-lista, a candidata do PAN, Mónica Freitas!
Natália Correia assumiu como sua causa combater “a extinção de causas”. Mas quando muitas das suas causas estão mais vivas do que nunca, como é o caso do muro da desigualdade que continua por derrubar, a crise climática ou socioeconómica ou os maus-tratos aos animais que se perpetuam, cem anos depois do seu nascimento, sejamos como Natália e continuemos a percorrer essa estrada, que ela começou, mas que está longe de concluída.