Faz por estes dias de março cinco anos ininterruptos de colaboração semanal com o Jornal Económico, na publicação de crónicas de opinião, que designei como “A Tribuna Social”. São já 258 textos, com temas sempre a pensar nas respostas do “E agora, Portugal?”.
Mais do que agradecer, tem sido uma oportunidade de dar o meu contributo e visão, neste jornal e publicação de referência nacional, que se afirma no excelente trabalho desenvolvido por profissionais com elevado empenho e enorme paixão. Uma experiência reconfortante que hoje quero partilhar convosco, no início desta “Tribuna”.
Após meia década de liberdade de pensamento, o dia 8 de março, data relembrada pela comunicação social, decisores, sociedade civil, que assinala o Dia Internacional da Mulher, é sempre um momento de reflexão. Celebra-se não só a mulher, mas também todas as suas conquistas no plano social, político e económico, numa sociedade sempre em mutação e (ainda) a necessitar de equilíbrios na igualdade de género.
A verdade é que, mais de cem anos depois da instituição deste dia, e não obstante todos os progressos alcançado desde então na busca desse equilíbrio, hoje como ontem continuam a existir razões para lutar por uma sociedade mais igualitária.
Assinalar o dia 8 de março é também não esquecer o real estado a que a nossa justiça chegou, como os atos de um magistrado que em pleno século XXI elaborou acórdãos excessivamente brandos sobre violência doméstica para com os agressores e muito críticos para com as vítimas e o papel da mulher.
Cerca de 41% das pessoas vítimas de violência doméstica em Portugal têm menos de 50 anos e 86% são mulheres.
De acordo com os dados mais recentes, divulgados pela Comissão de Cidadania e Igualdade de Género (CIG), só no ano passado houve 28 vítimas mortais em contexto de violência doméstica, 24 mulheres (mais uma do que em 2021) e quatro crianças, uma em cada 15 dias, sendo este um dos mais terríveis flagelos da sociedade portuguesa e um dos problemas que mais afetam o género feminino. Infelizmente, não é o único.
É inegável que a precariedade atinge muito mais mulheres do que homens no mundo do trabalho. É inegável a desigualdade salarial entre géneros: as mulheres recebem, em média, menos 200 euros por mês do que os homens. A mulheres têm uma escolaridade média superior à dos homens, mas entram no mercado de trabalho em piores condições. As mulheres gastam mais do dobro do tempo do que os homens em trabalho não pago, sobretudo tarefas domésticas.
Por isso é compreensível que todos os anos, nesta data, se realizem por Portugal fora, manifestações de género, que tradicionalmente juntam largos milhares de pessoas, que se mobilizam precisamente contra a violência, a desigualdade, e os preconceitos. Temas transversais aos partidos e à democracia.
As mulheres precisam de ações concretas e de um apoio efetivo nas suas decisões profissionais e pessoais. É isso que se esperaria deste Governo de maioria absoluta de esquerda em Portugal, ações! Mas, volvido um ano, para já é (quase) tudo pela rama. Veremos o que se fará para que a sociedade portuguesa possa ter um futuro feliz, nesta longa série da democracia, de quatro anos e nove meses.