Jaime Ferreira da Silva, Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações da Ordem dos Psicólogos Portugueses

É possível ser-se autêntico na liderança?

A espécie humana não suporta demasiada realidade em simultâneo pelo que aceita o recato e a confidencialidade de reuniões à porta fechada desde que daí saiam decisões e directrizes claras.

A ideia de autenticidade ganhou um lugar de destaque no discurso contemporâneo sobre liderança. Contudo, importa começar por reconhecer que o conceito de autenticidade não é unívoco. Para alguns, significa dizer sempre o que se pensa; para outros, agir de acordo com valores pessoais profundos; para outros ainda, expressar emoções sem filtros. Esta diversidade de significados ajuda a explicar por que razão o apelo à autenticidade pode, por vezes, gerar mais confusão do que clareza no contexto organizacional.

Para um líder-gestor, ser autêntico não significa necessariamente praticar transparência total. Existe uma diferença importante entre clareza na comunicação e exposição absoluta de pensamentos, dúvidas ou informação estratégica. A clareza implica transmitir mensagens de forma compreensível, assente em factos e respeitosa. A transparência total, pelo contrário, pode tornar-se imprudente quando ignora responsabilidades institucionais, confidencialidade ou o impacto potencial de determinadas informações na estabilidade da organização. Além do mais, a nossa espécie não suporta demasiada realidade em simultâneo pelo que aceita o recato e a confidencialidade de reuniões à porta fechada desde que daí saiam decisões e directrizes claras.

A vida organizacional assemelha-se, em muitos aspectos, a uma peça de teatro. Cada pessoa desempenha um papel específico, com expectativas, responsabilidades e limites definidos. Tal como um actor não deixa de ser autêntico por interpretar um papel, também um profissional não abdica da sua integridade ao assumir as exigências inerentes à função que ocupa. O papel de liderança, em particular, envolve deveres de exercício profissional que obrigam, inevitavelmente, à tomada de decisões difíceis e à condução de conversas exigentes — algumas delas desconfortáveis, tanto para quem as conduz como para quem as recebe.

É neste ponto que a autenticidade precisa de dialogar com os princípios éticos e com a responsabilidade institucional. Um líder não responde apenas às suas convicções pessoais; responde também aos deveres inerentes ao cargo e ao objectivo maior de assegurar a sustentabilidade e a prosperidade da organização. A autenticidade madura manifesta-se, assim, na capacidade de alinhar valores pessoais com responsabilidades profissionais, preservando a integridade sem comprometer a missão colectiva.

Importa igualmente distinguir entre candura ingénua e observância pragmática dos deveres de liderança. A candura ingénua pode levar à crença de que toda a verdade deve ser dita em qualquer circunstância e de qualquer forma. O pragmatismo responsável, por sua vez, reconhece que o exercício da liderança exige ponderação, sentido de oportunidade e discernimento. Não se trata de ocultar deliberadamente a realidade, mas de compreender que a forma e o momento de comunicar são tão relevantes quanto o conteúdo da mensagem.

Existe ainda uma dimensão frequentemente menos discutida: a solidão inerente aos cargos de poder. A responsabilidade de decidir em contextos ambíguos, de equilibrar interesses divergentes e de antecipar riscos organizacionais gera níveis de stresse que nem sempre são visíveis para quem, de fora, observa o exercício da liderança. Muitas decisões não podem ser partilhadas amplamente no momento em que são tomadas, o que reforça essa sensação de isolamento.

Por essa razão, líderes eficazes precisam de cultivar práticas consistentes de autocuidado — sejam elas de natureza física, emocional, social ou reflexiva. Espaços de pausa, redes de confiança, mentoria/coaching psicológico ou momentos deliberados de reflexão estratégica tornam-se recursos essenciais para manter a lucidez e a estabilidade emocional em períodos de pressão.

Ser autêntico na liderança não significa, portanto, abdicar do papel que se desempenha nem expor indiscriminadamente tudo o que se pensa ou sente. Significa antes exercer a função com integridade, clareza e sentido de responsabilidade, equilibrando valores pessoais, deveres profissionais e o bem maior da organização. Nesse equilíbrio reside, talvez, a forma mais exigente — e mais realista — de autenticidade no exercício da liderança.

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