Enquanto a transição do verão para o outono se vai prolongando – reflexo cada vez mais óbvio das alterações climáticas –, na política portuguesa o ambiente está cada vez mais quente. Entre os receios do aumento da inflação ou de uma recessão já no próximo ano, os partidos da oposição têm mostrado a sua vivacidade no espaço mediático.
Com isto, voltou o eterno debate da credibilidade e da transparência na atividade política: esse mal que, para muitos, atrasa o país há mais séculos do que este existe.
Há, aqui como nos países mediterrânicos, uma certa veneração pelos modelos democráticos escandinavos durante as campanhas eleitorais e, infelizmente, apenas durante as mesmas. Se sobre o modelo económico e social já pouco haverá a dizer (países de matrizes radicalmente socialistas e democráticas, onde a partilha de responsabilidades entre a organização coletiva dos trabalhadores e empresas é intermediada e regulada pelos Estados com prioridades bem definidas e sobre as quais incidem proporcionalmente), muito há por refletir no campo da transparência e na prestação de contas.
Por cá, a transparência surge apenas como um indicador sempre que a oportunidade política espreita, mas nunca como uma conduta constante. Muitos dirão – como sempre tem sido dito – que a impossibilidade da mudança reside sobretudo nas nossas origens, nos nossos costumes – enfim, no nosso berço lusitano. E talvez o dissessem há um século na Dinamarca, na Finlândia ou na Noruega que, sendo nações bem mais recentes, têm um percurso que orgulha qualquer democrata convicto.
Vejamos o caso do modelo sueco, onde todo o sistema se baseia no mais basilar dos valores: o da confiança. Considerando que este é o fator fundamental no estabelecimento de normas comuns capazes de beneficiarem o maior número de pessoas, os dados juntam-lhe ainda um fator importante: o da legitimidade democrática reforçada a partir da responsabilidade dos seus representantes.
Este segundo ponto é particularmente sensível para os suecos, visto todo o trabalho dos eleitos poder ser fiscalizado ao detalhe pelos eleitores: do registo de emails de deputados aos extratos dos cartões bancários dos representantes do governo. Lembremo-nos do caso da vice-primeira ministra sueca, Mona Sahlin, que, por ter comprado dois Toblerone com o cartão do seu escritório, acabou por ser demitida.
Em Portugal, o debate seria menos sobre o cartão utilizado e, provavelmente, mais sobre o valor indevidamente utilizado. E é aqui que reside o busílis da questão: queremos uma prestação de contas dependente dos valores monetários ou dos valores republicanos? Queremos uma democracia persecutória para servir a oposição política ou queremos um sistema capaz de gerar maior confiança nos cidadãos? A possibilidade de um sistema diferente está nas mãos dos que foram eleitos pelo povo para o representar.