Filipe Alves

Diz-me onde consolidas as contas e dir-te-ei quem és

Mais importante do que saber a quem pertencem os bancos será saber onde têm o seu centro de decisão. Diz-me onde consolidas as contas e dir-te-ei quem és.

O próximo ano poderá ficar marcado pela ocorrência de vários movimentos de consolidação no sector bancário português, à semelhança do que deverá acontecer no resto da Europa. O mais provável será, claro está, a venda do Novobanco.

Quem será o comprador? Os candidatos naturais serão outros grandes players na banca em Portugal, nomeadamente o Millennium bcp, o Santander e o CaixaBank (dono do BPI), embora nenhuma destas instituições o admita abertamente e esta lista não seja exaustiva. Das três, o CaixaBank será o melhor posicionado, uma vez que o crescimento em Portugal faria sentido à luz da estratégia da instituição catalã, que tem passado pelo crescimento na Península Ibérica. O Santander, por sua vez, já tem uma quota bastante confortável em Portugal, ao passo que o Millennium bcp tem fragilidades na estrutura acionista que dificultariam este passo, pelo menos no imediato.

Parece por isso claro que há uma forte possibilidade de o Novobanco – que herdou o negócio “bom” do antigo Banco Espírito Santo – ir parar a mãos espanholas, à semelhança do que sucedeu, nas últimas décadas, com o Totta, o BPI, as operações portuguesas do Barclays (comprada pelo Bankinter) e do Deutsche Bank (adquirida pelo galego Abanca).

A entrada de capital espanhol na banca portuguesa não é algo que nos deva preocupar. Espanha é um país amigo e um dos nossos principais parceiros comerciais. A estreita ligação que une os dois países – caso raro a nível mundial – deve constituir motivo de orgulho para todos.

Dito isto, não devemos ser ingénuos. Como se viu na crise da dívida soberana de 2011/2013, ter bancos com centro de decisão em Portugal foi um factor decisivo para proteger o interesse nacional. Um banco espanhol, francês, alemão ou canadiano não estará, à partida, disposto a ter a mesma exposição à dívida portuguesa se o país estiver em risco de bancarrota. Já os bancos que têm o seu centro de decisão em Portugal estarão entre os principais interessados em contribuírem para a defesa dos interesses do país numa situação extrema como a que atravessamos há uma década e que, em bom rigor, ninguém poderá garantir que não voltará a suceder. A própria Espanha passou por algo parecido na mesma altura e se não tivesse grandes bancos com centros de decisão em Espanha, provavelmente teria tido muito mais dificuldade em evitar um pedido de resgate à troika.

Se o Novobanco for para mãos espanholas, restarão apenas a Caixa Geral de Depósitos e o Millennium bcp como os dois grandes bancos com centro de decisão em Portugal. E se um dia o próprio BCP for comprado (eventualmente também por um qualquer gigante espanhol), esse número ficará cortado para metade. O que nos deveria conduzir a uma reflexão sobre a melhor forma de proteger o interesse nacional. E responder à questão: um país que se quer independente tem de ter, ou não, bancos relevantes com centros de decisão nacionais?

Diria que mais importante do que saber a quem pertencem os bancos será saber onde têm o seu centro de decisão. Diz-me onde consolidas as contas e dir-te-ei quem és.

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