André Macedo

Cinco minutos de vida

A China estuda e compara muito, sustenta as decisões, pensa a médio e longo prazos. Preocupa-se com os vizinhos da Ásia Central. Entende que a geografia e a proximidade importam, apesar da globalização, e que o mundo é feito de relações e equilíbrios.

A excitação portuguesa nos anos 80 com o UMM, o jipe português que não foi a lado nenhum, pode servir de modelo de compreensão para muito do que está a acontecer na China. Se ainda hoje há clubes de fãs de UMM, apesar de o carro não ser um achado industrial ou de design, imaginem como se sentem os chineses quando hoje fabricam automóveis elétricos de qualidade superior à europeia e preço muito inferior – 20 a 40% menos. O fabrico de um BYD Seal custa menos 43% do que um VW ID.3. Como aqui já escrevi, são mais de 70 marcas em luta feroz pelo mercado interno. A esmagadora maioria delas muito competitivas e que em breve tomarão de assalto o mercado internacional quando as aprovações regulamentares surgirem na UE.

Em 2025, a China já produziu mais carros (27 milhões) do que o Japão (25); e a concorrência interna é tão feroz que Pequim está a intervir para que o setor não apanhe o vírus da involução: muita atividade e esforço sem progresso real, com rendimentos decrescentes e sem ganhos de produtividade. Numa frase mais simples: intensificação sem inovação. Os produtos ultra baratos Made in China ainda subsistem e chegam todos dias a Portugal via Alibaba, mas há muito que Xi Jinping percebeu que este caminho era um beco sem saída e apostou no desenvolvimento de indústrias de valor acrescentado que puxam a economia e as pessoas para cima. Num país com 1,4 mil milhões de habitantes, a mudança leva tempo a esticar os braços, mas hoje salta à vista que bastou uma década para que centralidade do mundo viajasse para Oriente. Os EUA ainda valem 26% do PIB mundial, a China, 20% e a UE, 17%, mas o doloroso ocaso político americano e a imaturidade do projeto europeu indicam que as diferenças vão intensificar-se. O sucesso será evidente não apenas nos carros, mas em breve até na aviação – o C919 vai competir com o 737 e com o A320, o que terá impacto na Boeing e na Airbus.

Claro, Xi tem a noção exata dos erros… dele e dos outros. Por exemplo, compreendeu que a fixação exportadora da Alemanha virou-se contra o país. Por isso mesmo, investimento e aumento do consumo interno são duas metas importantes no mais recente plano quinquenal. A China estuda e compara muito, sustenta as decisões, pensa a médio e longo prazos. Preocupa-se com os vizinhos da Ásia Central. Entende que a geografia e a proximidade importam, apesar da globalização, e que o mundo é feito de relações e equilíbrios.

Portugal poderia aprender uma lição: é preciso estudar muito e planificar bem. Em vez disso, Luís Montenegro rejeita que o Estado escolha setores chave para o desenvolvimento. Não percebeu (não quis ainda perceber) que o êxito português nas energias renováveis resultou dessa escolha pública que os privados concretizaram. Em vez disso, vivemos atolados num mundo político-partidário que vive e morre em menos de 24 horas, como a efémera, o inseto que por vezes só tem cinco minutos de existência.

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