Óscar Afonso, Diretor da Fac. Economia da Universidade do Porto, Professor Catedrático

Centeno, o governador com saudades de ser ministro

Centeno parece continuar a querer ser um ator político e não devia. Neste caso, aparentemente para tentar proteger Medina e condicionar a ação governativa, mas já houve mais exemplos.

Depois do anterior ministro das Finanças, Fernando Medina, ter proposto um fundo que se afigurava ilegal no Orçamento de Estado de 2024 (“fundo para investimento estruturante pós-2026”), que não terá ido para a frente, mas exigiria explicações (não solicitadas na sua recente audição no Parlamento), como expliquei noutro espaço de opinião, eis que outro antigo ministro das Finanças socialista, o “Ronaldo” do Eurogrupo, que passou diretamente para governador do Banco de Portugal (BdP), aparece com uma proposta que parece extravasar a sua competência de “aconselhar o Governo nos domínios económico e financeiro” (alínea e) do artigo 12º da Lei Orgânica do BdP, ao apontar apenas um caminho que poderá ser limitativo da prossecução do programa do Governo eleito.

Na apresentação do Relatório e Contas do BdP de 2023, Centeno defendeu que o governo deve guardar as receitas e excedentes atuais e futuros da Segurança Social para “pagar pensões no futuro”, “investindo na dívida pública”, e que para tal, “devemos ter um excedente entre 1% e 1,5%” do PIB. Isto foi o que sucedeu em 2023, em que o excedente foi de 1,2% do PIB e Medina canalizou o saldo positivo do sistema previdencial para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) – que investe mais de 50% da carteira em dívida pública –, cumprindo a Lei de Bases do Sistema de Segurança Social (LBSSS).

Ora o remanescente de um eventual excedente é para amortizar dívida pública, pelo artigo 23º da Lei de Enquadramento Orçamental, e o mesmo acontecerá a saldos positivos do sistema previdencial uma vez atingido o mínimo de dois anos de pensões cobertas pelo FEFSS (tal poderá acontecer em breve), pela LBSSS, se o Governo assim quiser. Pode ainda decidir ter um saldo equilibrado ou até um défice (se necessário para reformas estruturais) para cumprir o seu programa se tal for aceite a nível europeu, é uma prerrogativa que parece ter sido esquecida por Centeno, que enquanto ministro das Finanças teve um excedente ligeiro em 2019 e défices no resto dos anos, convém lembrar.

Centeno parece continuar a querer ser um ator político e não devia. Neste caso, aparentemente para tentar proteger Medina e condicionar a ação governativa, mas já houve mais exemplos. Relembro que o Banco Central Europeu teve de apreciar se o convite a Centeno para substituir António Costa como primeiro-ministro tinha violado o dever de independência do BdP, o que foi refutado, mas não deixou de ser um episódio grave.

Relacionado

Carlos Costa abre o ano letivo da Porto Executive Academy

Carlos Costa abre o ano letivo da Porto Executive Academy

Almerinda Romeira30 Out
O antigo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, versará a sua preleção nos desafios do Ensino Superior perante a transformação tecnológica e a globalização. A Porto Executive Academy é o braço armado da Faculdade de Ciências Empresariais da agora Universidade Técnica do Porto, para a formação executiva.