Ricardo Santos Ferreira

Brincar às democracias

Nem sempre derrubar regimes à espera de que disso resulte uma regeneração idílica, estruturada na forma ocidental, surte o efeito desejado. Quase nunca acontece. Exemplos? Há vários.

Os Estados Unidos da América têm uma propensão grande para interferir internacionalmente na promoção da democracia (ou de interesses próprios objetivos), do liberalismo e da economia de mercado (dependendo do enquadramento). Era considerada uma obrigação moral e uma necessidade para o desenvolvimento do país, que considerava só poder vingar num mundo dominado pela escolha popular e não por autocracias. Não é de agora, pois foi assim que Woodrow Wilson justificou a entrada na I Guerra Mundial. “O mundo precisa de se tornar um lugar seguro para a democracia”, afirmou aos congressistas, em 1917, em defesa da declaração de guerra à Alemanha.

“Somos participantes, quer queiramos quer não, da vida do mundo”, disse, já depois da guerra, em defesa da criação da Sociedade das Nações, de vida curta. Outros presidentes norte-americanos seguiram esta doutrina: John F. Kennedy, Ronald Reagan ou George W. Bush, por exemplo. Só que nem sempre derrubar regimes à espera de que disso resulte uma regeneração idílica, estruturada na forma ocidental, surte o efeito desejado. Quase nunca acontece. Exemplos? Afeganistão, Líbia. E isto só desde o início do milénio. E o Iraque, claro. “O estabelecimento de um Iraque livre no coração do Médio Oriente será um ponto de viragem na revolução democrática global”, apregoava Bush (filho), em 2003. Cerca de oito mil norte-americanos mortos e 2,9 biliões (sim, são mesmo biliões) de dólares gastos depois, passando pelo contributo decisivo para a emergência do ISIS, podemos concluir que foi uma aposta perdida. Pior ainda para os iraquianos, reféns da desordem.

Mais exemplos? O resultado das oito celebradas primaveras árabes foram três países fragmentados e mergulhados em longas guerras civis e dois regressos a regimes autoritários. Não se pode dizer que tenham sido um sucesso.

Nestes dias, depois da operação na Venezuela e antes que se olhe mais diretamente para Cuba, o foco é o Irão. Era uma guerra adiada, já se sabia. Estava escrita, mas agora concretiza-se com uma intervenção militar alargada, justificada pela insistência do herdeiro do império persa na promoção do terrorismo e pela ameaça sempre crescente para os estados da região. Decapitado o regime, bombardeado o país, Donald Trump apela à população iraniana para que se imponha ao regime dos ayatollahs, na rua, como disse antes, quando havia protestos, que a ajuda ia a caminho. Mas não há alternativas óbvias para gerir uma transição ordenada, nem existem instituições que possam suportar a construção imediata de uma democracia.

Para onde se olha à procura de apoio numa estrutura monolítica de poder? O risco de um futuro falhado é gigante, mais uma vez. E a aprendizagem é nula: só se entra neste tipo de operações quando se sabe como sair delas. A não ser que o objetivo seja, apenas, criar instabilidade e tentar reinar no caos. Mas como qualquer investidor sabe, esse é o pior regime de todos.

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