Ricardo Santos Ferreira, Diretor-adjunto

Trituradoras de governantes

A Saúde é a trituradora de ministros mais recente, mas poderosa, inescapável. O problema é estrutural, leva tempo a resolver. Está muito longe das soluções conjunturais que nos venderam em período eleitoral.

Há pastas na governação que são destruidoras de carreiras, purgatórios para deserdados, verdadeiras armadilhas políticas para incautos ou jogadores com fé, independentemente de quem para lá vá.

Agora, é a Saúde a fava do bolo-rei governamental. Já foi a Administração Interna, em que quem a tutelava era consumido pelas épocas de fogos ou pelas crispações e polémicas com as forças de segurança. Em 25 governos constitucionais, foram 30 titulares empossados, contando com a atual, Maria Lúcia Amaral. Mais do que um por governo. Luís Montenegro vai no segundo governo e na segunda ministra.

Por vezes até corre bem, como bem sabe José Luís Carneiro, que ocupou a pasta sucedendo ao caos de Eduardo Cabrita e ao breve desenrascanço com Francisca Van Dunem. Dois anos de fogos menores, com áreas ardidas abaixo da média, e só foi atingido pela controvérsia quando já estava de saída. Resultou a aposta. Tão bem que Carneiro é hoje secretário-geral do PS.

A Saúde é a trituradora de ministros mais recente, mas poderosa, inescapável. Desde a pandemia que é uma máquina infernal. Foi assim com António Costa e continua a ser assim com Luís Montenegro, e continuará a ser assim seja qual for a solução que se conseguir encontrar para a pasta. O problema é estrutural, leva tempo a resolver. Está muito longe das soluções conjunturais que nos venderam em período eleitoral. Mesmo imaginando que há uma solução no horizonte – que não é de todo visível –, é quase impossível escapar à erosão do descalabro nas urgências, aos nascimentos em autoestradas ou às querelas corporativas.

A missão do primeiro-ministro traduz-se em aguentar a vítima até ser impossível continuar a fazê-lo. E segue-se outra vítima, assim se consiga encontrar uma.

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