Estado vai precisar de mais de 26 anos para recuperar investimento de quase 530 milhões de euros na REN. Fica com capacidade para nomear um administrador para o 'board'.
A decisão tomada pelo Governo podia ser o início duma análise detalhada sobre a intervenção do Estado na economia, com um programa claro de definição de participações a adquirir e a alienar.
Foi o Estado português quem tomou a iniciativa de abordar o segundo maior acionista da companhia para comprar-lhe a sua posição e regressar ao capital da REN.
O Executivo defende que se trata de um investimento financeiramente atrativo: a REN apresentou um dividend yield "historicamente atrativo", situado entre 6% e 7% entre 2021 e 2024 (e de 5% em 2025), enquanto o custo de emissão de dívida pública portuguesa ronda os 3% a 3,5%. "Do ponto de vista financeiro, tem um retorno superior para o Estado", lê-se no comunicado.
“A REN é uma aposta importantíssima e a presença do setor público, do Estado, na REN é importantíssima do ponto vista estratégico, do ponto vista da segurança nacional, da soberania nacional. Não podemos ter as nossas infraestruturas críticas de eletricidade e gás e armazenamento de gás completamente dependentes de potências estrangeiras, disse Maria da Graça Carvalho.
Pontegadea pediu um prémio que podia chegar a 20%, mas reduziu para 15%. No final, prevaleceu o valor mais alto de dois parâmetros: ação a 4,25 euros. Estado iria pagar mais 15 milhões se proposta inicial tivesse prevalecido. Amancio Ortega levou 462 milhões para casa, juntando venda e dividendos da REN.
Será que o anunciado Fundo Soberano servirá para o Estado vir a deter participações nestas e noutras empresas consideradas pelo Governo como estratégicas?
Juntamente com a rede de eletricidade e de gás da REN, correm 8 mil km de fibra ótica, uma importante rede nacional de telecomunicações que liga os cabos submarinos internacionais ao resto da Europa.
Departamento de Estado, liderado por Marco Rubio, deixa elogios à compra de 14% da REN pelo Estado português. Washington tem seguido com muita atenção investimento chinês em Portugal no setor da energia.
Em informação prestada à CMVM, a Pontegadea comunicou que alienou à Parpública, em transação direta e fora do mercado, um total de 91.723.676 ações da REN, que representam o capital social, depois de se ter verificado a condição suspensiva prevista no contrato de compra e venda celebrado em 14 de agosto, a qual dependia da aprovação do Tribunal de Contas.
Maria da Graça Carvalho defendeu que a entrada do Estado no capital da empresa faz sentido por razões de “segurança do abastecimento, segurança do Estado” e pela necessidade de assegurar uma política energética baseada em energia “acessível, limpa e segura”.
No briefing do Conselho de Ministros, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, explicou que a aquisição de participações relevantes em empresas cotadas é normalmente feita através de negociações bilaterais, com base numa média histórica da cotação e um prémio associado à influência que a participação confere.
Compra de participação pela Parpública avalia a empresa em 2,76 mil milhões de euros. O lucro da REN subiu 42,2%, para 93,4 milhões, e estima-se que feche o ano com um resultado líquido de 167 milhões de euros. O PER é de 16,4x, melhor do que a maioria das congéneres europeias cotadas.
A operação foi liderada Ricardo Andrade Amaro, sócio responsável pela área de corporate do escritório português, com Pedro Capitão Barbosa e Maria João Bernardes a completarem a equipa.
A Parpública beneficiou de um aumento de capital de 42,77 milhões de euros, registado no mesmo dia em que foi anunciada a operação que permite a reentrada do Estado no operador das redes de transporte de energia.