Setor segurador tem de se adaptar à longevidade

O presidente da ASF considera que o setor segurador tem de se tornar o parceiro privilegiado da gestão de risco das sociedades modernas. Poupança e Saúde são as prioridades.

Setor segurador tem de se adaptar à longevidade
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O setor segurador tem de desempenhar um papel central no desenvolvimento de soluções para responder às necessidades de uma sociedade mais envelhecida. Para a poupança, também para a saúde. Esta é a ideia central da intervenção de Gabriel Bernardino, presidente da Autoridade Portuguesa de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) na Seguros Summit 2026, promovida pelo Jornal Económico.

“Um dos nossos objetivos estratégicos é precisamente adaptar a regulação aos desafios da longevidade para promover a proteção e a autonomia dos cidadãos”, afirma. “Neste contexto, o nosso desafio é criar condições regulatórias para que o mercado responda às necessidades da longevidade, priorizando enquadramentos para a desacumulação inteligente da poupança, para o incremento da proteção dos tomadores de seguros de saúde, designadamente através de seguros de longo prazo e para o desenvolvimento de soluções como a hipoteca inversa, garantindo mais dignidade e autonomia aos cidadãos”, explica.

Para Gabriel Bernardino, uma mudança particularmente relevante é a maior proximidade entre seguros de vida e de saúde. “Com o apoio da tecnologia e dos dados, o foco desloca-se de uma lógica reativa para uma abordagem mais preventiva. Já não se trata apenas de compensar riscos, mas de ajudar a evitá-los e a promover estilos de vida mais saudáveis”.

Também na poupança para a reforma surgem desafios novos. Percursos profissionais mais irregulares e maior incerteza económica exigem produtos mais flexíveis e acessíveis, que se adaptem ao longo do tempo e distribuam melhor o risco entre clientes e seguradoras.

A inovação tecnológica é outra peça central desta transformação. A utilização de dados e de modelos analíticos permite conhecer melhor os riscos, antecipar necessidades e personalizar soluções. Isto traduz-se em produtos mais ajustados às trajetórias individuais, mas também levanta questões importantes. “Desde logo, a necessidade de equilibrar personalização com equidade. O uso intensivo de dados exige transparência, responsabilidade e respeito por princípios essenciais, como o acesso à proteção e a mutualização do risco. A confiança dos consumidores dependerá, em grande medida, desta capacidade de equilíbrio”, afirma. Aqui, a regulação tem um papel fundamental. “Não travar a inovação, mas enquadrá-la, garantindo que se desenvolve de forma segura, justa e sustentável”, aponta.

O verdadeiro desafio será garantir que a inovação e a tecnologia são utilizadas de forma inclusiva e responsável, transformando o aumento da esperança de vida num progresso efetivo para a sociedade. “Na Europa, a resposta do setor segurador ao desafio da longevidade tem vindo a materializar-se em várias linhas de inovação complementares”, diz. Em Portugal, o desenvolvimento tem sido mais gradual, mas já visível. “Na poupança para a reforma, têm surgido soluções mais flexíveis, que permitem não só acumular poupança, mas também utilizá-la de forma gradual, através de resgates parciais ou rendimentos ao longo do tempo”, explica o presidente da ASF.

A evolução do setor passará, provavelmente, por uma combinação de fatores: maior colaboração entre setores, uso da tecnologia e desenvolvimento progressivo de soluções mais integradas. Não existe um modelo único, mas antes um caminho de adaptação à realidade do nosso mercado. “Para que o setor segurador possa responder melhor ao desafio da longevidade, julgo relevante que sejam efetuados alguns ajustamentos no enquadramento legislativo e regulamentar. Destaco três prioridades: maior flexibilidade na fase de desacumulação dos produtos de poupança para a reforma; um enquadramento mais claro e estimulante para soluções de dependência e cuidados de longa duração; e regras que permitam aproveitar melhor o potencial dos dados e da tecnologia, garantindo confiança e proteção dos consumidores.

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