Marcus Vinícius De Freitas, Professor Visitante, China Foreign Affairs University e Senior Fellow, Policy Center for the New South

Quem paga pela irresponsabilidade hegemónica?

A hegemonia, no atual contexto, deixa de ser um instrumento de estabilidade e passa a ser um vetor de risco. E aqui reside o ponto central: se o mundo está a pagar a conta, não deveria também ter o direito de cobrar?

Guerras sempre tiveram custos. O que mudou, no entanto, foi a distribuição da conta. A atual escalada conduzida pelos Estados Unidos e por Israel não permanece confinada ao campo de batalha. Os seus efeitos são imediatamente transferidos para o sistema internacional como um todo — e pagos, sobretudo, por quem não participou da decisão.

As estimativas começam a dar forma a esse impacto. A guerra contra o Irã já poderá estar a custar entre 0,5% e 0,8% do PIB global — o equivalente a algo entre 550 e 900 bilhões de dólares. Não se trata de um custo marginal. Trata-se de um choque sistêmico, capaz de comprometer crescimento, investimento e estabilidade em escala planetária.

Ao mesmo tempo, projeta-se que mais de 30 milhões de pessoas possam ser empurradas para a pobreza, num efeito dominó que combina energia mais cara, inflação alimentar e retração econômica. O preço do petróleo, por sua vez, já incorpora o prémio do risco geopolítico, com cenários que apontam para a manutenção do patamar acima de 100 dólares por barril — um nível suficiente para travar economias inteiras.

A pergunta, portanto, é inevitável: quem paga?

No plano jurídico, a resposta deveria ser clara. A utilização da força sem autorização do Conselho de Segurança da ONU configura uma violação do princípio de soberania e esvazia a autoridade da Organização das Nações Unidas. No entanto, o sistema internacional contemporâneo opera sob uma lógica inversa: quanto maior o poder do agente, menor a probabilidade de responsabilização.

O resultado é uma distorção estrutural. As decisões são tomadas de forma unilateral, mas os custos são distribuídos globalmente. Países importadores de energia enfrentam choques inflacionários. Economias emergentes lidam com fuga de capitais e aumento do custo do crédito. Cadeias produtivas são interrompidas. O crescimento desacelera — não por falhas internas, mas por decisões externas, impostas sem consulta.

Em qualquer ordem minimamente funcional, decisões que geram danos coletivos implicam responsabilidade. No sistema internacional atual, ocorre o oposto: a irresponsabilidade é protegida pela própria estrutura de poder.

A hegemonia, neste contexto, deixa de ser um instrumento de estabilidade e passa a ser um vetor de risco. E aqui reside o ponto central: se o mundo está a pagar a conta, não deveria também ter o direito de cobrar?

Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, o sistema internacional continuará a operar sob um princípio perigoso: a privatização da decisão e a socialização do prejuízo.

A história, contudo, não costuma tolerar assimetrias prolongadas. Quando a responsabilidade jurídica falha, outras formas de equilíbrio emergem. E, neste caso, a resposta dificilmente será normativa.

Será geopolítica.

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