Há alguns dias Portugal acordou espantado porque descobriu que não somos um país de brandos costumes. Habituados a uma canção de embalar que nos entoavam há décadas, os portugueses perceberam que uma das suas redes de comunicações (mais do que não haver Netflix os clientes ficaram sem ligações telefónicas, tal como o INEM ou os bombeiros) ficara inactiva. Perplexos, descobriram que os telemóveis não têm vida própria e que um dia destes podem ficar sem luz ou gás.
Os incrédulos portugueses esfregaram os olhos e perceberam que, no pacato Portugal, um jovem pode coleccionar umas armas em casa e pensar em matar uns colegas e professores. Afinal, ao contrário do que lhes contavam nas televisões e nas redes sociais, Portugal não estava isolado do resto do mundo e que, quando uma borboleta bate as asas na Austrália, aqui pode haver falta de pipocas. O falso país dos brandos costumes, onde não acontece nada ou quando sucede algo, encolhe os ombros, conversa sobre futebol e volta tudo ao mesmo, desapareceu.

O país dos brandos costumes é um conto de fadas. E é também um sítio à beira de um ataque de nervos. Há um século uma camioneta-fantasma circulava pela capital e os seus ocupantes fuzilavam com requintes cruéis alguns dos nomes mais sensatos e inteligentes da República. Há menos tempo um regime totalitário matava opositores.
Portugal nunca foi uma versão de Bambi, o pequeno veado que viu a sua mãe ser morta por um caçador para o proteger, apesar da versão menos sangrenta que Walt Disney contou às crianças. Bambi é um sonho, que os Sex Pistols demoliram na canção: “Who Killed Bambi?” Mas Portugal continua a achar que é um Bambi terno e incompreendido, protegido do mundo por uma mãe que não conhece. Isto apesar da corrupção, do clientelismo, da falta de risco, dos monopólios mais ou menos visíveis e da incapacidade de reformar o que seja, tudo coisas que o país também julga ser obra do Além.
O escândalo dos mais de 100 mil votos anulados no círculo da Europa porque PS e PSD são incapazes, há anos, de reformar a lei eleitoral, mostra o pântano onde assenta o poder neste país. Bambi caminha sobre o abismo e acha que voa. Quando, por interesses próprios e incompetência dos grão-vizires de ambos os partidos, é impossível motivar os portugueses a votar, este é um país de brincadeira. Não por acaso Stephen King disse que “Bambi” foi o primeiro filme de terror que viu. Portugal começa a ser, agora sem o fado dos brandos costumes, uma longa-metragem de comédia pavorosa. Este é o sítio das políticas minúsculas. Daí a sua fragilidade. Alguém fica admirado? Não.
Para alguns vivemos no país das maravilhas. Se dúvidas existissem sobre essa ilha paradisíaca que só alguns conseguem vislumbrar, basta ler a entrevista do doutor Capoulas Santos ao “Negócios” e à Antena 1. Para nosso conforto ele diz logo que não se compromete com a possibilidade de voltar a ser ministro da Agricultura. Devotamente, o país agradece. Porque, depois de dizer que a visível seca é uma situação cíclica, e que tudo há-de voltar à normalidade, ficamos com a saudável ideia que o melhor é não nos mexermos, continuarmos a fazer cultura intensiva e campos de golfe e louvarmos o Alqueva. Porque há-de chover mais ano, menos ano.
Há uns dias Gonzalo Delacâmera, assessor em política de água da Comissão Europeia, Banco Mundial e ONU, dizia no “El Mundo”: “O foco não deve ser posto na seca, mas na escassez de água a longo prazo. Se olharmos para o vento e não chover parece que o desafio é de São Pedro e não é assim. O desafio é nosso, porque somos nós que geramos a pressão a partir da procura”. Ou seja, é um problema estrutural que se vai agravar e não apenas cíclico, ao contrário do que parece acreditar o doutor Capoulas. Por aqui e para que os anjos toquem lira só falta mesmo fundir os ministérios da Agricultura e do Ambiente e tornar o país uma imensa melancia: verde por fora e vermelha por efeito do corante por dentro.
É claro que o elefante na casa é o Chega. Dá jeito ao Governo criar um inimigo público capaz de unir a esquerda. E agrada à direita mais poderosa que deseja que exista um partido que grite o que não lhe convém dizer. Enquanto isso o PSD está refém da sua ocupação gradual pelo discurso falsamente liberal (porque reduz o liberalismo à economia, esquecendo o resto que Adam Smith ou mesmo Walter Bagehot ensinaram). Há um país que não é de brandos costumes. E que está enraivecido contra a corrução, a leviandade e a pobreza. Procura culpados. E quem se tem alternado no poder não tem feito nada para evitar isso. Sendo inteligente, o doutor André Ventura procura agora outros territórios de caça. Não será apenas o “pitbull” de alguns, como estes julgam.
Enquanto isso o doutor António Costa prepara o seu Governo mais enxuto. Está a ser formado dentro de uma caixa de Pandora ou de um liquidificador? Não sabemos. Mas não demorará muito a perceber o que dali sairá: um executivo de pajens do chefe ou um com novas pessoas com ideias não padronizadas? O país está um pouco enjoado de feijoada à portuguesa: ou seja, sempre o mesmo prato feito com os mesmos feijões e com enchidos de segunda categoria. Veremos que cataplana sairá agora das mãos do doutor Costa. Mas, já se sabe, pouco mudará: viveremos, como sempre, ao sabor do que sussurra ou grita a Europa. Sem estratégia e com demasiadas tácticas.
No Portugal político todos fazem como o macaco: tapam os olhos, os ouvidos e a boca. O conforto instalado faz-se de conversas nebulosas, de interesses intrigantes e de desprezo pelos interesses da maioria dos portugueses. É este o mundo político nacional: sobrevive sem existir. Afinal, quem matou o inocente e ternurento Bambi?

A África esquecida
Houve um tempo em que a África foi dividida a régua e esquadro, consoante os interesses e o poder de cada império colonial. Portugal, na altura, era já um peão menor nesta luta de gigantes (Reino Unido, França, Bélgica ou Alemanha). Estávamos em finais do século XIX e por cá ficámos com a tristeza do Ultimato britânico de 1890 que obrigou a Monarquia a dar um passo atrás nos seus desejos ultramarinos (enterrando o famoso Mapa Cor-de-Rosa), algo que levou mais tarde à sua queda. Abdulrazak Gurnah escreve sobre esse mundo de novos mapas coloniais neste sedutor e contundente “Vidas Seguintes”. Mas o livro, mais do que isso, é sobre o valor das vidas individuais.
A história decorre nesse período de redistribuição colonial de África, onde os alemães arrasam a resistência anti-colonial com particular selvajaria e loucura numa região da África oriental conhecida como Deutsch-Ostafrika. A violência ainda é mais patente nas acções dos temidos Shutztruppe Askari, soldados nativos treinados pelos alemães para matar outros africanos. No meio desse contexto opressor muitos dedicam-se à sua vida particular, procurando a paz e a felicidade. Gurnah transfere esta vivência para uma pequena cidade costeira, que parece um oásis pacífico. Ali residem os protagonistas, Khalifa, Ilyas e Hamza, cujas vidas estão extremamente ligadas.
Khalifa é casado com Asha e é o seu grau de felicidade (e infelicidade) que acaba por ser a luz que ilumina o centro deste romance. Ele torna-se amigo de Ilyas, que deixou a sua casa miserável mas que foi sequestrado por um Askari e acaba sob a protecção de um fazendeiro alemão que aposta na sua educação e que lhe consegue garantir um emprego. Isso leva de alguma maneira a que Ilyas simpatize publicamente com os alemães, para desespero dos que o rodeiam. Khalifa instiga-o a regressar à sua aldeia natal, onde encontra a sua irmã órfã, Afiya, que é maltratada pelos vizinhos. Ele regata-a, mas o período de felicidade de ambos é curto. Ilyas é integrado no exército colonial alemão.
Já Hamza foi vendido como escravo pelo pai, para que este conseguisse pagar as dívidas. Acaba como voluntário nos Askari, mas depressa descobre que a sua vida aí é tão terrível como a anterior. No entanto ele serve perfeitamente ao autor para explorar a complicada relação entre opressores e oprimidos. Nomeado como assistente pessoal do Oberleutenant, o sensível Hamza é colocado perante um dilema: enquanto o oficial deseja que ele conheça Schiller para o “educar” na cultura alemã, percebe que há uma lógica imperial: para que os alemães possam “civilizar” os “selvagens” só há uma forma de o fazer – através do terror. Depois de ter sofrido um lesão, Hamza espera a guerra e, depois, regressa às suas raízes, procurando aí salvar o que resta da sua vida destruída.
Afiya é salva por Khalifa, mas continua desesperada sem saber o porquê do silêncio do irmão. No fundo todas as suas vidas fazem parte de um complexo sistema emocional e material a que ninguém fica indiferente. Este livro acaba por ser a voz dos que não a têm, desaparecido e abafada no meio de múltiplos interesses políticos, económicos, sociais ou militares. E, nesse aspecto é uma obra muito poderosa sobre a vida em tempos coloniais.
Abdulrazak Gurnah, “Vidas Seguintes”, Cavalo de Ferro, 304 páginas, 2022

Pop perfeita
Neil Hannon é um encantador de melodias. Sabe a forma de torná-las verdadeiras canções pop. Os seus temas ligam-nos a fórmulas clássicas (de Burt Bacharach a Scott Walker), a arranjos que também bebem nesse universo e a líricas que nos recordam as histórias que Scott Fitzgerald, Chekov ou PG Wodehouse nos doaram. Há assim uma recuperação do passado mais natural e inteligente e a sua adaptação ao mundo moderno.
Três décadas depois, Hannon (como Divine Comedy) olha para trás e faz a triagem da sua brilhante e épica herança neste “Charmed Life: The Best of Divine Comedy” (Duplo CD CDR 2022), um conjunto de canções de veludo puro. Aqui encontramos 23 temas que conhecemos e ouvimos sem nos cansar, de “National Express” a “At the Indie Disco” e passando por “Absent Friends”. E onde também podemos descortinar a nova e bela, recheada dum ambiente sonoro clássico, “The Best Mistakes” (a versão de três CD, refira-se, inclui 11 temas novos ou nunca editados, incluindo uma nova versão de “Perfect Lovesong”).
Há, depois, que dar relevo a algo que com o advento do CD foi negligenciado: o trabalho de arte dos discos. O regresso do vinil e a insignificância do CD na era digital tornaram isso possível: as capas, nalguns casos, voltaram a ser obras de arte para ver, tocar, ler e guardar. Algo que nos vem colocar uma questão muito interessante: num mundo efémero e imaterial, pequenos núcleos de amantes da música ou da literatura voltam a olhar para estas como valores perenes. E os Divine Comedy sabem o valor da arte, numa época em que pouco é valorizado.
O que existe em Hannon, de origem irlandesa, e nos Divine Comedy é algo que muitas vezes falta à música actual: autenticidade. E Hannon, ao fazê-lo, agradece a vida que teve, sintetizada no título que escolheu para sintetizar a sua carreira: “Charmed Life”. Canção que fez parte do álbum “Absent Friends” e simboliza tudo o que fez, no seu eterno mundo pop.

O futebol de mercearia
Há alguns anos o treinador Arrigo Sacchi, com a sua imensa sabedoria, disse que o “calcio” padecia do síndrome do Coliseu. Na sua opinião os italianos tinham transposto para o futebol as regras de combate e sobrevivência que regiam o Coliseu romano. Supunha-se que a época dos gladiadores a lutarem até à exaustão para alegria dos espectadores tinha desaparecido. Em Portugal sonha-se com o Coliseu. Não com gladiadores mas com comediantes falhados. Que não estão apenas no relvados: estão também comodamente instalados em camarotes.
O que se passou durante o jogo FC Porto-Sporting mostra que, por aqui, todas as histórias repetem-se, tragicamente, como farsas. Ninguém quer mudar nada: a ideia vendida por aprendizes de feiticeiro de se querer transformar o futebol português numa indústria (com SADs, Bolsa e tudo) é uma história da Carochinha. O que interessa é vencer cá no nosso pátio, manter o poder e encher os bolsos a comissionistas. A Liga de Clubes é um espantalho sem vida própria, a FPF um pardal medroso e a secretaria de Estado do Desporto uma nulidade patriótica. Afinal futebol e política são bons amantes. Perante o que se viu, o presidente da Liga e o ainda secretário de Estado do Desporto estão em parte incerta. Mudos.
O futebol profissional em Portugal é de um amadorismo atroz. A cultura do Canal Caveira que definiu o futebol português nunca morreu. E, pelo que se vai vendo, a nova geração de dirigentes é igual à anterior. Portugal vai sendo, cada vez mais, um criador de talentos para abastecer a Europa, enquanto os campeonatos nacionais são um bocejo absoluto. E um motivo de gozo para quem do Reino Unido, Itália, França, Alemanha ou Espanha olha para aqui. Estatutos, regras e comissões estão feitos servirem um único objectivo: não se passar nada, por motivos burocráticos. As leis do futebol estão feitas à medida dos que prevaricam.
Genial! De recurso em recurso, daqui a uns meses ou anos se saberá que penas serão aplicadas aos prevaricadores. Futebol profissional? Uma enorme gargalhada. Este é o país dos compadrios e monopólios. Alguém quer mudar isso? O futebol é a Disneylândia dos portugueses e a Las Vegas dos que têm muito a ganhar. Para uns é uma diversão. Para outros um jogo onde podem aumentar as suas receitas. Depois de cenas lamentáveis nada mudará. Como no Titanic, o navio afunda-se e a orquestra continua a tocar.

A neve de Davos
Davos é, há mais de 50 anos, conhecido por albergar os encontros do Fórum Económico Mundial (WEF), onde se juntam um pequeno número de líderes mundiais. Mas, antes disso, já era um dos maiores centros turísticos e “resort” de saúde dos Alpes suíços. Não por acaso Thomas Mann escreveu lá uma das mais influentes obras da literatura alemã, “A Montanha Mágica”.