Ninguém tem a resposta para a pergunta o que aconteceria ao mundo se as bombas nucleares começassem a explodir. Porém, o estudo (https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2021AV000610) forneceu algumas pistas sobre o impacto global de uma guerra nuclear. Cheryl Harrison, do Departamento de Oceanografia e Ciências Costeiras da LSU e autora principal do estudo, assim como os seus co-autores efetuaram várias simulações em computador para estudar os impactos de uma guerra nuclear regional e em grande escala no planeta Terra.
Mas antes de analisar os “estragos” vamos começar por saber quem possui armas nucleares. Afinal, onde estão situadas no mapa mundo? Só para ter uma ideia, segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo, atualmente nove nações controlam mais de 13 mil armas nucleares mundialmente. E apesar do progresso na redução dos arsenais de armas nucleares desde a Guerra Fria (passaram de 70300 em 1986, para 12100 no início de 2024), a verdade é que o inventário mundial ainda dá que pensar isto porque a tendência dos stocks militares, ou seja das armas nucleares utilizáveis estão a aumentar.

E quem tem mais armas nucleares? O número exato de armas nucleares em posse de cada país é um segredo nacional rigorosamente guardado, portanto, as estimativas aqui apresentadas têm sempre uma incerteza. No entanto, segundo a Federation of Americans Scientist (FAZ), a Rússia tem o maior número (4309), seguida dos EUA (3700), hospedadas nos EUA e cinco em outras nações, caso da Turquia, Itália, Bélgica, Alemanha e Holanda. Se fizermos as contas, o total de ogivas nucleares de propriedade destes dois países somam quase 90% das armas nucleares do mundo. Quanto aos outros países, o número total de ogivas são: Israel com (90), Coreia do Norte (50), China (600), França (290), Índia (172), Reino Unido (225) e Paquistão (170).
A mesma fonte diz que cerca de 9614 ogivas nucleares existentes no mundo se encontram em arsenais militares para uso em mísseis, aviões, navios e submarinos. “As ogivas restantes foram desativadas, mas ainda estão relativamente intactas e aguardam desmantelamento. No entanto, daquele número acima, 2100 ogivas americanas, russas, britânicas e francesas estão em alerta máximo e prontas para uso imediato”, alerta a FAZ.
O que sucederia se detonassem estas armas?
O uso de menos de 1% das armas nucleares no mundo poderia perturbar o clima global e ameaçar até dois mil milhões de pessoas. A detonação de milhares de armas nucleares poderia resultar num inverno nuclear, o que destruiria o nosso ecossistema. Se uma única arma nuclear pode destruir uma cidade e matar a maioria de seus habitantes; os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki são os principais exemplos da fatalidade causada por uma bomba atómica, imagine-se o que causariam várias explosões ao mesmo tempo.
Em todos os cenários simulados pelos investigadores, as tempestades de fogo nuclear libertariam fuligem e fumo para a atmosfera superior, o que bloquearia o Sol e provocaria a perda de colheitas em todo o mundo. Logo, a fome seria generalizada. No primeiro mês após a detonação nuclear, as temperaturas médias globais desceriam cerca de 13 graus centígrados, uma alteração de temperatura superior à registada na última Idade do Gelo. “Não importa quem está a bombardear quem. Pode ser a Índia e o Paquistão ou a NATO e a Rússia. Quando o fumo é libertado para a atmosfera superior, espalha-se globalmente e afeta toda a gente”, explicou Cheryl Harrison.
As temperaturas dos oceanos baixariam rapidamente e não regressariam ao estado anterior à guerra, mesmo após o fumo se dissipar. À medida que o planeta arrefece, o gelo marinho expande-se em mais de 6 milhões de milhas quadradas e atinge 6 pés de profundidade em algumas bacias, bloqueando os principais portos, incluindo o porto de Tianjin, em Pequim, Copenhaga e São Petersburgo. O gelo marinho espalhar-se-á por regiões costeiras normalmente sem gelo, bloqueando o transporte marítimo em todo o Hemisfério Norte, dificultando a chegada de alimentos e provisões a algumas cidades como Xangai, onde os navios não estão preparados para enfrentar o gelo marinho.
A queda súbita da luz e das temperaturas oceânicas, especialmente do Ártico para os oceanos Atlântico Norte e Pacífico Norte, mataria as algas marinhas, que são a base da cadeia alimentar marinha, gerando uma fome no oceano. Esta situação impediria a maior parte da pesca e da aquacultura.
Os investigadores simularam o que aconteceria aos sistemas terrestres se os EUA e a Rússia utilizassem 4400 armas nucleares de 100 quilotoneladas para bombardear cidades e zonas industriais, o que resultaria em incêndios que ejectariam 150 teragramas, ou seja, 150 milhões de toneladas métricas (150 mil milhões de quilogramas), de fumo e carbono negro que absorve a luz solar para a atmosfera superior. Simularam também o que aconteceria se a Índia e o Paquistão detonassem cerca de 500 armas nucleares de 100 quilotoneladas, o que resultaria em 5 a 47 teragramas, ou seja, entre 5 e 47 milhões de toneladas métricas (5 a 47 mil milhões de quilogramas).
“A guerra nuclear tem consequências terríveis para todos. Os líderes mundiais utilizaram os nossos estudos anteriormente como um impulso para acabar com a corrida às armas nucleares na década de 1980 e, há cinco anos, para aprovar um tratado nas Nações Unidas para as proibir. Esperemos que este novo estudo incentive mais nações a ratificar o tratado de proibição”, afirmou o coautor Alan Robock, Professor Distinto do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Rutgers.
“A atual guerra entre a Ucrânia e a Rússia e a forma como afectou os preços do gás mostra-nos como a nossa economia global e as nossas cadeias de abastecimento são frágeis face ao que podem parecer conflitos e perturbações regionais”, afirmou Harrison. As erupções vulcânicas também produzem nuvens de partículas na atmosfera superior. Ao longo da história, estas erupções tiveram impactos negativos semelhantes no planeta e na civilização.
Os oceanos demoram mais tempo a recuperar do que a terra. No maior cenário entre os EUA e a Rússia, a recuperação dos oceanos deverá demorar décadas à superfície e centenas de anos em profundidade, enquanto as alterações no gelo marinho do Ártico deverão durar milhares de anos e ser efetivamente uma “Pequena Idade do Gelo Nuclear”. Os ecossistemas marinhos seriam altamente perturbados tanto pela perturbação inicial como pelo novo estado dos oceanos, resultando em impactos globais a longo prazo nos serviços dos ecossistemas, como a pesca, escrevem os autores.
Efeitos a curto e longo prazo
Uma única arma nuclear pode destruir uma cidade e matar a maioria dos seus habitantes. Várias explosões nucleares sobre cidades modernas matariam dezenas de milhões de pessoas. As baixas de uma grande guerra nuclear entre os EUA e a Rússia chegariam a centenas de milhões de pessoas.
Segundo o ICAN leva cerca de 10 segundos para uma bola de fogo de uma explosão nuclear atingir o seu tamanho máximo. Uma explosão nuclear liberta grandes quantidades de energia na forma de explosão, calor e radiação.
“A explosão mata pessoas perto do marco zero e causa ferimentos nos pulmões, danos nos ouvidos e hemorragia interna. As pessoas sofrem ferimentos devido ao colapso de edifícios e objetos voadores. A radiação térmica é tão intensa que quase tudo perto do marco zero é vaporizado. O calor extremo causa queimaduras graves e acende incêndios, que se fundem em uma tempestade de fogo gigante. Até mesmo pessoas em abrigos subterrâneos enfrentam a provável morte devido à falta de oxigênio e envenenamento por monóxido de carbono.
A longo prazo, as armas nucleares produzem radiação ionizante, que mata ou adoece a quem ficar exposto, contaminando o meio ambiente e tem consequências para a saúde a longo prazo, incluindo cancro e danos genéticos. Os médicos projetam que cerca de 2,4 milhões de pessoas em todo o mundo acabarão por morrer de cancro devido a testes nucleares atmosféricos conduzidos entre 1945 e 1980.
Os outros apoiantes da energia nuclear
Vinte e oito países (mais os seis anfitriões) também “endossam” a posse e o uso de armas nucleares, permitindo o uso potencial em seu nome como parte de alianças de defesa, incluindo a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OSTC). Todos os trinta e quatro países que apoiam o uso de armas nucleares são:
Albânia, Arménia , Austrália , Bielorrússia , Bélgica, Bulgária , Canadá , Croácia , República Tcheca , Dinamarca , Estónia , Finlândia , Alemanha , Grécia , Hungria , Islândia , Itália , Japão ,Letónia, Lituânia , Luxemburgo , Montenegro , Holanda , Macedónia do Norte , Noruega ,Polónia, Portugal , Roménia, Eslováquia , Eslovênia , Coreia do Sul , Espanha , Suécia e Turquia .
Fonte: ICAN